A escola é um organismo vivo, pulsante, povoado por sujeitos com diferentes trajetórias e histórias de vida que convivem de forma intensa diariamente. Neste ambiente, marcado por uma diversidade de oportunidades, as crianças e os jovens, além de ampliarem seus conhecimentos sobre o mundo, se deparam com conflitos que, na maioria das vezes, não sabem como resolver.

Como proceder diante dessas situações? Qual será a melhor estratégia?

Perguntam-se os professores e professoras. No senso comum podemos pensar os conflitos como algo negativo e que eles podem ser encaminhados de duas maneiras:

  • Podem ser evitados como, por exemplo, ao se colocar um brinquedo, alvo de disputa entre os colegas, fora do alcance do grupo, garantindo assim que o adulto defina qual o melhor momento e a forma como será explorado.
  • Ou, podem ser resolvidos rapidamente quando o(a) educador(a) apresenta uma solução pronta para a situação observada, sem qualquer consulta aos sujeitos envolvidos.

Pensando de modo diferente

Por outro lado, os conflitos podem ser aceitos como naturais e necessários para o desenvolvimento e assim entendidos como pedagógicos, ou seja, como oportunidades para se trabalhar com os valores. Na medida em que se compreende que conflitos  estão presentes nas relações interpessoais e que podem funcionar como uma importante ferramenta para promover avanços, o(a) professor(a) pode refletir e planejar a sua intervenção. O professor não deve se deixar agir impulsivamente e, assim, encaminhar a situação, ocupando o lugar de protagonista único;  em vez disso, deve buscar  brechas para debater com o grupo e avaliar junto com ele algumas “saídas” possíveis.

A observação acurada, através de um olhar atento e sensível, fornece pistas, dá dicas sobre o que aquela turma está precisando, funciona como um valioso instrumento para ajudá-lo(a) a perceber a dinâmica de sua classe, a forma como as relações estão sendo construídas, o que talvez passasse despercebido por um adulto que estivesse dentro da sala de aula focado apenas nos conteúdos escolares.

Não existe solução única

Cabe destacar que, na maioria das vezes, não existe uma única maneira de encaminhar a situação: o caminho a ser percorrido precisa ser construído com sabedoria, respaldado por um referencial teórico e por observações realizadas em diferentes circunstâncias. Além disso, é imprescindível que a equipe docente conheça o processo de desenvolvimento infantil, identifique o tipo de conduta apresentado, compreenda as características individuais dos envolvidos, como também possa se colocar na perspectiva dos(as) alunos(as) e, assim, intervir de forma intencional e coerente.

A escola como espaço acolhedor para os educadores também

Assim, acredito que é de fundamental importância que os(as) professores(as) tenham garantido na escola um espaço para relatarem suas dúvidas, incertezas, vivências –  momentos de análise e discussão. Ao narrarem as suas experiências cotidianas e os encaminhamentos realizados, eles(as) têm de reorganizar mentalmente suas ações, o que funciona como uma alavanca para a compreensão do que foi realizado no nível prático. Nesse sentido, nas reuniões da escola, vale abrir espaço para que os(as) professores não apenas contem o que ocorreu, mas que expliquem o porquê de suas ações, para que assim possam ir além da simples descrição dos acontecimentos e progridam na compreensão da sua prática de forma mais efetiva.

O(a) professor(a) precisa ocupar o lugar de adulto na sala de aula, confiando na capacidade das crianças e jovens, ajudando-os a enfrentar os conflitos, desavenças e frustrações inerentes às interações sociais. Na medida em que se sentem amparados e encorajados a verbalizam  seus sentimentos, refletem sobre suas ações e escutam o ponto de vista do outro, aprendem, gradativamente, a buscarem soluções respeitosas. As vivências escolares possibilitam encontros, mas para que se construa e se estabeleça um laço afetivo necessita-se um real envolvimento. O fato de serem colegas, não garante por si só uma maior proximidade: os relacionamentos mais estáveis precisam de trocas, de reciprocidade, isto é, eles precisam ser cultivados.

Para tanto, nada mais importante do que uma equipe docente comprometida com a formação integral de seus(suas) alunos(as), atenta às reais necessidades de seu grupo (cognitivas, sociais e afetivas) e que toma para si a difícil tarefa de intermediar as diversas situações conflitivas que habitam o universo escolar.


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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