Postado por Lucio Flávio | Em 24 de novembro de 2016 | Tags: , , , , , ,

Professores dos anos iniciais do ensino fundamental, ou mesmo da educação infantil, devem se preocupar com as tecnologias digitais, buscando seu melhor uso na sala de aula? Será que as crianças pequenas precisam de mais tecnologia na escola, além da dose que já têm fora dela? Ou será que a escola deve fazer resistência às tecnologias, cuidando de desenvolver a reflexão e o pensamento simbólico, que alimentam a imaginação e a capacidade de processar informações?

Acredito que são muito procedentes as questões anteriores e, por isso mesmo, a qualquer uma delas responderia:

Depende!

Depende do projeto da escola, de sua concepção sobre a criança e sobre os processos de aprendizagem, de sua visão de mundo e da realidade com que se relaciona, bem como do tipo de pessoas que quer formar. Isso irá determinar, por sua vez, o entendimento e a prática da escola em relação ao como ensinar ou como contribuir para os alunos aprenderem mais e melhor, o que envolve posicionar-se, entre outras coisas, sobre as tecnologias e seu uso, e sobre a melhor maneira de formar e acompanhar os professores no sentido dos objetivos a alcançar com isso.

Ou seja, não são questões que possam ser respondidas de forma isolada, com um simples sim ou não, já que cada uma supõe todo um conjunto de variáveis a serem consideradas ao mesmo tempo.

Pensar, por exemplo, na facilidade do acesso à informação que mesmo as crianças pequenas já têm e em tudo que está sendo produzido de conteúdo no breve tempo em que lemos este texto pode ser assustador ou altamente estimulante e desafiador, dependendo do modo como se olha ou de onde se olha.

Por que depende?

Se, como escolas, acreditarmos que nosso papel é oferecer às crianças experiências mais ricas e variadas possível – em termos de temas, áreas do conhecimento, recursos materiais, dinâmicas de trabalho e, principalmente, de intervenções desafiantes -, na perspectiva de proporcionar-lhes aprendizagens significativas de conceitos, procedimentos e atitudes, inclusive em relação a um convívio social cooperativo e que valorize as diferenças, então as tecnologias podem agregar e representar enriquecimento.

Se, como docentes, estivermos convencidos da importância da ação dos alunos sobre qualquer que seja o objeto de conhecimento para a construção de conceitos, e se a contemplarmos em nossas aulas, respeitando as possibilidades de cada idade ou indivíduo, sem subestimá-lo, então estamos em condições de oportunizar sua interação também com as tecnologias digitais de forma lúdica, aberta, investigativa, criativa e produtiva, sem medo de frequentarmos uma zona de desenvolvimento potencial, que nos permite ir além do que já sabem os alunos, e nós mesmos, os adultos, enfrentando juntos os desafios.

Se priorizarmos na escola a produção de conhecimento – tanto dos alunos como dos professores -, em detrimento da sua simples reprodução, proporcionando ambientes estimulantes e provocativos, em que os alunos estejam ativos e “trabalhando”, ou seja, pensando, elaborando, estabelecendo relações, formulando ideias, fazendo opções etc., e os professores problematizando, ao mesmo tempo em que mediando e orientando as ações necessárias à experimentação e à interação com o objeto de conhecimento e entre os pares, então estaremos formando pessoas que podem mais que a simples evocação do conhecimento, que sejam capazes de criar, inventar, questionar, dialogar e, portanto, de enfrentar e resolver problemas cooperativamente.

Se nos permitirmos, como instituições, brincar mais, experimentar mais, arriscar mais, e isso não só no uso das tecnologias, que hoje é um nó para nós, mas também em relação a diferentes questões que estão por vir, na continuidade do processo, como as necessárias mudanças curriculares, de estrutura e aspecto físico da escola e das salas de aula, então haverá vida criativa na escola e teremos tranquilidade e liberdade para ver outros horizontes além de apenas provas padronizadas como o Enem.

Se, a partir de um olhar sempre atento ao mundo que nos cerca, pudermos construir redes de colaboração entre escolas, universidades e instituições afins, entendendo as tecnologias digitais nas salas de aula não só como mais uma experiência ou recurso a serviço da construção de conhecimentos, mas também como objetos de conhecimento em si, capazes de influenciar outros tantos e até a nossa forma de agir, de pensar e nos relacionarmos (pessoal, social e profissionalmente, por exemplo), então venceremos as resistências para interagir com essas tecnologias, para conhecê-las e dominá-las, no sentido de “usá-las” a nosso favor.

Então a resposta é: Sim!

Sim, porque o fato que não podemos mais deixar de encarar é que o mundo está mudando, rápida e drasticamente, não só em relação às tecnologias ou aos modos de fazer, mas, por consequência, também em relação às linguagens, aos modos de conceber espaço e tempo (globalização, conexão online), de pensar e estar no mundo. Estamos vivendo uma revolução que não tem volta e, enquanto não pudermos ter uma visão distanciada e histórica deste momento, temos de lidar com ele da melhor forma possível, sem nos deixarmos “atropelar” por ele e, ao mesmo tempo, sem deixar de aprofundar a discussão, com cuidado e seriedade, com responsabilidade e embasamento, na direção das mudanças, e de acompanhá-las atentamente, reavaliando e ajustando o que for necessário a cada momento.

É preciso vencer o medo de aprender diferente

É preciso aprender com experiências inovadoras que já estão acontecendo, através de viagens pedagógicas reais ou virtuais, de cursos, leituras e palestras variadas sobre o tema, adquirindo coragem e confiança para construir as inovações necessárias e possíveis a cada etapa do desenvolvimento dos alunos, que lhes permitirão usufruir, da melhor maneira, das tecnologias digitais.

Dessa forma, as crianças continuarão agindo e pensando sobre o mundo para descobri-lo e conhecê-lo, para saberem mais sobre si mesmas e sobre os outros, só que com ferramentas ampliadas para um mundo ampliado. Continuarão interagindo e explorando tudo e todos, experimentando, imitando, brincando e representando, só que com a mediação de outros tipos de linguagens e representações, o que certamente contribuirá para formarmos pessoas capazes de transformar a si e à sociedade, com imaginação e reflexão.


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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