Postado por Christian Frederico | Em 24 de abril de 2016 | Tags: , , , , ,

A Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP) anunciou neste mês que substituirá seu vestibular pelo ENEM. A decisão tem peso, uma vez que é uma das principais escolas de negócios do país, frequentemente vista como elitizada. A FGV-SP apresenta certa vanguarda quando o assunto é acesso à educação, sobretudo no curso de Administração Pública. Segundo o diretor da fundação, Luiz Arthur Ledur Britto, a proposta visa a aumentar o número de alunos vindos de fora de São Paulo. Unida a isso está a tentativa da escola de alterar o perfil social e racial da instituição. A FGV fornece, também, bolsas para alunos de baixa renda; atualmente são 14 bolsistas.

O movimento não é isolado. A Universidade de São Paulo (USP) adotou, no último ano, o ENEM como forma de ingresso. Do total de vagas, 13,4% foram destinadas ao SISU e, destas, 10% para alunos de escola pública e 1% para candidatos pretos, pardos e indígenas. Foi a primeira vez que a Universidade adotou cotas sociais e raciais. Através da FUVEST, o vestibular da USP, existe um sistema de bônus para estudantes de escola pública. Porém, a medida encontrou resistência nas unidades, uma vez que cada unidade poderia definir seus métodos. Dez não adotaram as medidas, entre elas a Faculdade de Economia e Administração, Escola Politécnica, Faculdade de Medicina e a Escola de Comunicação e Artes.

O ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio) foi criado em 1998, pelo Ministro da educação Paulo Renato de Souza, durante o governo Fernando Henrique Cardoso. O Exame foi criado para avaliar os alunos de escola pública, para auxiliar na criação de medidas pontuais e estruturais de melhoria na educação. Em 2009, durante o governo Lula, o ministro da educação Fernando Haddad (atual prefeito da cidade de São Paulo), introduziu um novo modelo de prova, com o intuito de unificar o sistema de vestibulares das universidades federais brasileiras. Através de sistemas de ingresso como o Sisu (universidades públicas), Prouni (sistema de bolsas) e o Fies (sistema de financiamento) o ENEM ganhou popularidade e hoje é o segundo maior vestibular do mundo, com cerca de 7 milhões de inscritos em 2015.

Porém, nem tudo são flores. A USP não preencheu 10% de suas vagas destinadas ao SISU. Cerca de 11 cursos não tiveram nenhum aprovado por esse sistemas – cursos que apresentavam notas de cortes entre 650 e 700, consideradas altas. Além disso, apesar das medidas de democratização do ensino, 35% dos ingressantes na USP são alunos de escola pública, enquanto que nos 20 cursos mais concorridos esse número cai para 25,7%.

Imagem: http://flacso.org.br/?p=14895

Imagem: http://flacso.org.br/?p=14895

Ao mesmo tempo que o ENEM se popularizou, também evolui para um vestibular bastante parecido com os já aplicados. Segundo o físico da Unicamp, Leandro Tessler, coordenador do vestibular da Unicamp à época em que as ações afirmativas foram introduzidas no vestibular da universidade, algumas questões do ENEM favoreciam bastante o pessoal das escolas privadas. Além disso, o ENEM motivado pelo SISU e Fies, acabou por criar um mercado das chamadas “Uniesquinas”, faculdades privadas de baixo custo e baixa qualidade de ensino que participam destes programas e atraem diversos candidatos de baixa renda que não tiveram acesso a um ensino de qualidade. Estes fatores mostram que existe um gargalo na educação. Ao mesmo tempo que existe uma abertura do sistema rígido dos vestibulares, há, também, um sucateamento do ensino público do país. Além da não valorização do professor, com salários baixos e más condições de trabalho, há escândalos como o desvio de dinheiro da merenda, com escola fornecendo água e bolacha para os alunos. Medidas como a Reorganização Escolar promovida pelo Estado de São Paulo geram desconfianças tanto por parte dos alunos quanto por parte dos governos.

É essencial que medidas coordenadas e planejadas sejam implementadas para reduzir o déficit da educação, para que vagas no ensino superior sejam preenchidas. Porém, diante da atual conjuntura, estamos bem longe disso.


Sobre Christian Frederico

20 anos, de São Paulo capital. Graduando em Economia na Universidade de São Paulo, é Presidente do Cursinho FEAUSP, cursinho popular administrado por alunos da Faculdade de Economia e Administração da USP. É, também, bolsista do projeto ISMART, programa que oferece oportunidades de educação para jovens de baixa renda. Além disso, é poeta nas horas vagas. Acredita que a educação é o grande motor transformador e pretende se dedicar a essa área no futuro, além, é claro, da poesia.

Postado por Gustavo Empinotti | Em 25 de dezembro de 2015 | Tags: , , , ,

A palavra meritocracia ultimamente passou a ser interpretada como uma ideologia de direita. O conceito emerge muito na discussão sobre cotas nos vestibulares. A ideia é que um vestibular meritocrático seria aquele que premia unicamente a quantidade de respostas corretas, sem considerar outros fatores que independem do mérito do estudante, como renda familiar ou raça. Aqueles que defendem as cotas consideram que tal critério ignora as dificuldades que alunos de backgrounds diferentes enfrentam, e portanto seria injusto. Assim, defensores das cotas passaram a se posicionar como contrários à meritocracia. Quando me deparei com esse posicionamento pela primeira vez, achei estranho, pois me considero favorável às cotas e também à meritocracia.

Embora concorde com a visão desenvolvida acima – de que um vestibular que ignora fatores sociais é injusto – interpreto o problema de uma maneira um pouco diferente. A meritocracia é boa; premiar o mérito individual é uma excelente maneira de estimular tanto estudantes quanto trabalhadores em qualquer área ou nível a se dedicar mais, e aqueles que se dedicam mais de fato merecem reconhecimento. Agora, um vestibular que ignora a trajetória social dos alunos não mede o esforço; ele é menos, e não mais, meritocrático.

Ao considerar exclusivamente a nota do aluno, o que o vestibular premia? Se compararmos dois alunos que foram a escolas semelhantes e têm recursos financeiros comparáveis, suas notas no vestibular talvez permitam de fato uma comparação aproximada do esforço desses alunos. Misturam-se a essa nota algumas outras variáveis, como a disposição natural para as habilidades exigidas no vestibular. O aluno que se sai pior pode ter excelentes habilidades que a prova não mede, como desenvoltura social, por exemplo; ou pode ter ficado mais nervoso no dia da prova.

Acredito que um método mais profundo de avaliação, envolvendo entrevistas e análise de currículos, poderia ajudar nesse quesito; mas isso é assunto para outra coluna. O que importa aqui é que, ao comparar alunos com backgrounds sociais semelhantes, o vestibular, embora não perfeito, pelo menos não comete injustiças sociais grotescas; e mede, ainda que aproximadamente, a dedicação do aluno.

Agora, uma comparação entre as notas no vestibular de alunos com backgrounds sociais diferentes mede prioritariamente fatores que nada têm a ver com o esforço. O mais gritante deles é sem dúvida renda familiar. A renda familiar de um aluno determina se ele pôde comprar os livros de que precisou; se ele teve tempo para estudar esses livros ou se precisou trabalhar para complementar a renda dos pais; ou se ele fez curso de inglês extracurricular desde a primeira infância.

Imagine um aluno de ensino médio particular que nunca deu a mínima para os estudos porque sabia que seus pais pagariam cursinho quando ele precisasse. Ele não é aprovado na primeira tentativa, então naturalmente se matricula num cursinho. Após um ou dois anos de cursinho ele passa na prova.

Enquanto isso, seu amigo de escola pública teve que trabalhar meio período durante o ensino médio e confiar na qualidade da escola pública. Ao final, fez um ponto a menos na prova que o primeiro (em outras palavras, uma nota estatisticamente idêntica). Quem tem mais mérito? Se tiraram notas quase iguais com esse abismo de oportunidades entre eles, quem você acha que se dedicou mais?

Está do avesso o argumento de que, como classe social e raça “independem” do mérito do aluno, considerá-los não seria meritocrático. É justamente por independer da vontade ou dedicação do aluno – isto é, por serem moralmente arbitrários – que esse fatores devem ser contrabalanceados no vestibular. Não é uma escolha do aluno nascer com menos recursos financeiros; apesar disso, essa realidade terá um impacto significativo sobre seu desempenho escolar. Levar em consideração o background do estudante torna a seleção mais justa e também mais meritocrática, pois tenta anular o impacto de fatores que independem do mérito.

Os argumentos contra ou a favor das cotas já são conhecidos. Meu ponto aqui é redefinir a linguagem utilizada no debate; desconstruir a ideia detrás da qual muitos escondem seu interesse próprio: de que o debate sobre cotas consiste em uma escolha entre justiça social e meritocracia. Um vestibular sem cotas premia fatores sobre o qual o aluno não tem nenhum controle, e deixa o mérito em segundo plano. Justiça social e meritocracia estão do mesmo lado.


Sobre Gustavo Empinotti

Diretor de Conteúdo do Mapa, tem 23 anos, de Florianópolis, SC. Formado em Ciências Políticas e Matemática pela Universidade de Stanford, hoje faz mestrado em Estudos Latino-Americanos na mesma universidade. Sua pesquisa acadêmica é sobre o sistema policial e carcerário brasileiro. No seu tempo livre, gosta de assistir ou praticar vôlei, tênis, e ginástica artística.