Todos os anos milhares de crianças passam por experiências traumáticas. Elas sofrem violência familiar, opressões étnicas, vivenciam guerras e são torturadas. Elas também podem ser vítimas de catástrofes naturais. Em todos estes casos, elas passam por experiências traumáticas.

Trabalhar com essas crianças é um desafio para os educadores, mas esses profissionais precisam estar preparados para conseguirem acolher e trabalhar com elas, ainda mais nos casos em que os traumas fazem parte da vida da criança. O que fazer quando a vida da criança passa sobre uma sequência de tragédias e o trauma já está cicatrizado e faz parte da criança ou do jovem?

Traumas não superados podem, mesmo após anos, desencadear sintomas graves e prejudicar o desenvolvimento da criança durante muito tempo. Podem ser gerados tanto distúrbios psíquicos e físicos, assim como dificuldades no aprendizado. Especialmente na adolescência, os traumas infantis não superados podem ocasionar um distúrbio comportamental. A partir deste ponto – não sendo regra – as vítimas podem se tornar os agressores.

Intervenções pedagógicas de emergência procuram ajudar crianças afetadas através de medidas de estabilização durante o processo de superação de seus traumas. Através da segurança e proteção proporcionadas, a criação de laços emocionais confiáveis, o desenvolvimento da auto-estima, autocontrole, realização própria, redução do desgaste emocional como também a criação de uma atmosfera de grupo positiva, a constituição geral da criança deve ser fortificada e suas forças de autocura ativadas. O objetivo é a integração da experiência traumática na vida da criança a fim de evitar o possível desenvolvimento de um transtorno de estresse pós-traumático, uma tentativa de elaboração do trauma para que a criança saiba lidar com o ocorrido.

A pedagogia da emergência, que se orienta nas leis de desenvolvimento de uma criança com uma dimensão global e com o apoio de formas terapêuticas artísticas, parece ser especialmente designada para servir como base para uma intervenção. Através de fases incluindo aulas, artes, jogos, tempo livre para brincar e fases de expressão criativa e artística, os recursos pessoais da criança, que foram soterrados pelo trauma, devem ser ativados.

Uma rotina diária com um ritmo apropriado, horário de almoço e sono regulares, fases ativas e fases de calma, deve proporcionar às crianças e adolescentes uma nova orientação, segurança e apoio emocional para assim criar relacionamentos que deem um sentimento de segurança, confiança (nos outros e em si própria) e desenvolver nelas uma nova curiosidade pelo mundo, apoiando o desenvolvimento do senso de responsabilidade de acordo com a idade infantil.

Quando aplicada logo após um acontecimento desestabilizador, essa pedagogia  pode evitar que sintomas de stress pós-traumático (como insônia e apatia) se transformem em distúrbios permanentes. “Sempre me questiono se estou mesmo em condições de partir para uma intervenção, mas, quando as crianças começam a cantar, dançar ou apenas choram para desabafar, meu entusiasmo é enorme. Dias depois do início do trabalho, que leva uns 15 dias, muitos pais contam que os filhos estão dormindo e comendo melhor”, relata Reinaldo Nascimento, um dos pioneiros e mais experientes educadores que aplicam, no Brasil e no mundo, a pedagogia de emergência.

Renato, que acabou de voltar do Equador, onde trabalhou com vítimas  do terremoto que abalou o país em abril, também ajudou vítimas do sismo nepalês no ano passado e do tufão filipino de 2013. Mas foi em Gaza e no Iraque que constatou: males causados pelo homem são mais devastadores. “Quanto mais próximos do que nos prejudica, maior o trauma. Por isso é tão duro trabalhar com crianças que sofreram abuso dentro de casa.”

Nascimento foi criado na favela Monte Azul, na Zona Sul de São Paulo. Aos 7 anos ele passou a frequentar a Associação Comunitária Monte Azul, ONG fundada pela educadora alemã Ute Craemer. Em paralelo, Craemer iniciou um trabalho de educação com as crianças da favela Monte Azul, localizada na zona sul de São Paulo, recebendo-as em sua própria casa. De forma natural, como concretização de suas convicções, o ideal da educadora Ute ganhava forma: criar uma ponte entre realidades sociais diferentes, como um caminho possível para melhorar o mundo. Foi esta motivação que a fez fundar a Associação. É a mesma que a estimula sempre e todos os dias, em suas destacadas atividades dentro do cenário mundial da educação e, atualmente, como Conselheira do Grupo de Metas – responsável pela gestão da Associação Comunitária Monte Azul.

A Associação possui alguns núcleos de funcionamento: o Núcleo Monte Azul, o Núcleo Peinha, o Núcleo Horizonte Azul e o Núcleo Estratégia Saúde da Família. Em 1983, a Associação Comunitária Monte Azul adquiriu uma chácara, próxima à represa de Guarapiranga, no bairro Jardim Horizonte Azul, onde estabeleceu o Núcleo Horizonte Azul, inicialmente um espaço para que as crianças dos Núcleos Monte Azul e Peinha pudessem brincar e ter maior contato com a natureza. A partir de 1986, a união de esforços com os moradores da região, mobilizou melhorias de infraestrutura e os projetos do Núcleo foram sendo ampliados. As diversas atividades educacionais e culturais oferecidas pela Monte Azul nesse Núcleo vêm transformando o Horizonte Azul num Bairro Educador.

Esse projeto construiu também, no bairro Horizonte Azul, a Escola Básica de Resiliência Horizonte Azul. Uma escola com base na pedagogia da emergência, com ensino formal gratuito até o quinto ano (com aprovação da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo). Ela existe graças à colaboração de muitos que, seja pintando paredes, lecionando para as crianças ou doando verba, ajudam a Escola de Resiliência a existir como fruto do trabalho de todos. A visão dessa escola é ser referência de educação pública humanizadora e contribuir para a criação de uma cultura de paz e não-violência na sociedade, sendo um centro irradiador fundamentado na Antroposofia e acessível a todas as camadas sócio-culturais.  

Muito pode ser falado sobre essa Associação e as teorias que estão por trás da Pedagogia da Emergência, por isso deixo nas referências uma série de links para conhecerem mais sobre esse projeto e esse pensamento que move essas pessoas. É incrível conhecer projetos que cuidam de pessoas que passam por violências cotidianas, até porque qualquer um de nós pode ser vítima de uma violência, sofrer algum trauma, e frequentemente  levamos isso adiante sem cuidado algum, sem pensar em nos curarmos. Um projeto como esse dá um fôlego a mais para continuarmos acreditando que toda violência tem cura, e que a educação é a cura. Educar para viver, educar para a resiliência.

 

Referências:

https://www.youtube.com/watch?v=RzF8nutv9Sc

https://www.youtube.com/watch?v=L80ZoqvKP3M

http://www.monteazul.org.br/home.php

https://www.youtube.com/watch?v=1kDa_Q16DXg

http://www.monteazul.org.br/arquivos/relatorios/arquivo_1005_20160420080903.pdf


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

Postado por Lucio Flávio | Em 21 de julho de 2016 | Tags: , , , , , ,

Recorrentemente apresento neste espaço o conceito de Educação Integral e como colocá-lo em prática. Hoje trago um caso brasileiro de uma escola que vem tentando aplicar esse conceito: a Escola Estadual Alexandre Von Humboldt, situada na zona oeste de São Paulo.

Em 2012, a Von Humboldt se tornou uma escola de tempo integral. Essa mudança por si só não contempla o conceito de Educação Integral em sua totalidade, pois a educação é integral quando atende a todas as dimensões do desenvolvimento humano e se dá como processo ao longo de toda a vida. Assim, a Educação Integral vai além simplesmente da educação em tempo integral. No entanto, a escola Van Humboldt ajuda em partes a enxergarmos como o tempo útil acaba sendo fundamental para criar um vínculo entre aluno e projeto educativo; ainda mais se compararmos com a realidade da maioria das escolas públicas brasileiras.

Como uma das primeiras medidas, revitalizar o espaço físico foi fundamental; é necessário cuidarmos do espaço que ocupamos. O campo de futebol, de tamanho próximo ao oficial, teve a grama cortada, as paredes pintadas e a escola ganhou uma nova cara. Outra medida – essa importantíssima e merecedora de destaque – foi a de valorizar a história do território por meio de iniciativas com os alunos para reafirmar a identidade do colégio e fortalecer o vínculo dos alunos com o espaço. Nessas aulas os estudantes aprendem sobre a história da escola e do bairro e isso faz com que elas consigam valorizar os espaços ali existentes. Conhecer a história da escola e da região ajuda a resgatar a autoestima dos alunos porque o espaço passa a ter mais sentido e significado para eles.

Pode parecer pouco, mas conhecer melhor sua história possibilita maior reconhecimento e, com isso, maior valorização de si. Quem mora em regiões periféricas é constantemente associado a imagens negativas veiculadas nas mídias, o que é às vezes tomado como verdade pelos próprios moradores, gerando um clima de autodepreciação. Reconstruir as imagens de onde se vive pode ser um movimento importantíssimo nessas situações. Nessa linha, logo na entrada, existe uma maquete, feita por um grupo de estudantes, representando a escola. Se os alunos são capazes de representar todos os espaços da escola, então eles conhecem a escola e saberão pensar em como utilizar o espaço da melhor forma.

Outra reformulação importante foi o fortalecimento da autonomia dos estudantes. Eles que devem se organizar, por exemplo, para saber como e quando utilizarão o campo de futebol, e também são eles quem se responsabilizam por deixar tudo limpo.

Não é só por meio do cuidado com o espaço que essa escola fortalece o protagonismo dos estudantes. Os chamados clubes juvenis são uma das almas do colégio. Eles são espaços previstos no currículo, onde os estudantes podem se reunir livremente para desenvolverem a atividade que julguem importante.

Ao todo, são 17 clubes juvenis. Hoje, alguns desses se organizam para aprender a tocar instrumentos, jogar algum esporte, desenhar, discutir sobre filmes, dentre outras atividades. Cada clube elege seu líder e vice-líder, que se reúnem quando necessário para dar conta de alguma demanda.

O grêmio escolar desempenha papel importante organizando outras iniciativas, como uma rádio que fica ligada durante o horário do intervalo e campeonatos esportivos nos horários livres.

Além desses espaços, os estudantes possuem a sua disposição os Projetos de Vida, uma atividade em que cada aluno pode desenvolver e pensar projetos futuros a fim de se conhecerem melhores e descobrirem o que gostariam ou não de fazer. Esse espaço visa a um autoconhecimento e uma autovalorização. Somado a isso, a escola também oferece aula de Orientação de Estudo, ou seja, se um estudante possui um projeto de passar num vestibular para Psicologia, alguns professores o ajudarão a estudar para realizar esse projeto.

Os professores ficam o dia todo na escola – possuem contrato de dedicação exclusiva, o que os torna muito acessíveis aos alunos. Os alunos podem tirar dúvidas até mesmo durante o horário de almoço, pois esse espaço é compartilhado tanto por professores, quanto por alunos.

Um dos elementos que permitem essa maior autonomia dos estudantes é uma grade curricular mais flexível, fator somente possível por conta da jornada de 9 horas. Atualmente, cerca de 70% do conteúdo curricular é formado pelas disciplinas obrigatórias e os demais 30% são flexíveis. Números expressivos para a realidade brasileira.

Dentro desse espaço livre são encaixadas as aulas de Orientação de Estudos, Projetos de Vida, além de tempo para as reuniões dos clubes juvenis e matérias eletivas. Outra marca da escola é o conselho participativo. Todas as classes têm um espaço bimestral de 2 horas em que participam alunos, professores e pais de uma determinada turma. Nesse momento, é realizada uma avaliação total dos estudantes e dos professores. Além desse espaço, os estudantes também preenchem uma ficha todo bimestre para avaliar ao menos cinco professores.

A principal reflexão que essa escola me trouxe foi a de como os alunos podem se ocupar da escola, tanto com suas atividades curriculares obrigatórias, quanto com as eletivas que eles próprios podem desenvolver e escolhem participar. A escola ainda tem muito a desenvolver e descobrir, mas já é pioneira no Brasil.

 

Referências:

http://escolaalexandrevonhumboldt.com.br/index.php/a-escola/pedagogico/

http://gestaoescolar.org.br/comunidade/comunicacao-360-graus-equipe-calendario-779825.shtml

https://www.youtube.com/watch?v=w0qubMyCrns

Imagem de divulgação: http://www.educacao.sp.gov.br/noticias/estudante-acredita-que-cursinho-prepatorio-para-o-vestibular-ajudara-a-conquistar-vaga-na-unesp


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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