Postado por Lucio Flávio | Em 23 de março de 2017 | Tags: , , , , ,

Projeto pedagógico, qualificação dos professores, estrutura física, acolhimento afetivo, escala de valores, custo-benefício, atividades extraclasse, atenção personalizada, localização.…

São tantas as variáveis, tangíveis ou intangíveis,  na hora da matrícula dos filhos na escola A, B ou C, que há quem padeça de vertigem. Outros, crendo existir um local com o melhor de todos os mundos, frustram-se ao descobrir o óbvio: nas escolhas sempre há descartes. Grandes, pequenas ou médias; tradicionais, inovadoras, leigas ou confessionais, a cidade, muitas vezes,  oferece variedade de opções de centros de ensino, sim, mas unanimidade, jamais.

Ainda envolvido na teia das certezas (nem sempre tão certas), é óbvio que toda mãe, todo pai, deseja para sua criança um local perfeito para os estudos –  ou um ambiente que mais se aproxime desse ideal. Igualmente, não se supõe aos profissionais dedicados à educação outro foco senão cumprir as mesmas expectativas, concorrendo ao afiançar tais compromissos. Logo, teríamos, no campo das intenções, um enorme empate. Em tese.

Mas, na prática, na urgência do calendário, na iminência da encruzilhada, quais critérios definiriam um bom modo de desempatar a disputa? Tenho um preferido e sua averiguação mal ultrapassa a soleira da porta da escola. Esse critério também dialoga com o atual momento da sociedade, no qual as informações são produzidas e disseminadas de modo horizontal, pelas redes sociais, sites de notícias e os próprios sites institucionais.

Depois de pesar prós e contras entre as escolas  A, B ou C, o segredo para uma boa escolha é avaliar o perfil das famílias que confiam seus filhos a uma ou outra instituição. Na média, haverá uma face delineada, uma tendência, pontos convergentes. Uma escala de valores semelhantes, já que  unanimidade é impossível.

Por que penso assim? Ao reconhecer que perfeição não existe, sigo no caminho do melhor diálogo para corrigir eventuais dissabores. Quando boa parte das famílias tem um perfil semelhante, as demandas (e as soluções) tendem a ser mais harmônicas. Se não há escola perfeita (nem aluno, pais, nada ou ninguém), ao menos teremos parcerias para evoluir certas questões.

Fica a dica: agora que as crianças já foram matriculadas, junte ao leque de informações institucionais um bom papo na saída das escolas. Vale conversar com mães, pais e/ou responsáveis, para sentir o que eles pensam da sociedade, colher suas crenças em termos de educação, o que buscaram no colégio e o que recebem dele. Veja se a criança sai feliz ou triste. Respire esses ares. Funciona mais ou menos como conhecer a família do par amoroso antes do casamento. Com atenção, dá para intuir o futuro e, na esperança, dá para construir uma relação saudável entre a criança e a escola.


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com


A felicidade parece ser algo que as pessoas fazem questão de tornar público nestes tempos de redes sociais. Fotos de momentos felizes, vídeos de animais fofinhos, registros de momentos íntimos e compartilhamentos de situações marcantes já fazem parte do nosso dia a dia. Nesse contexto,, é fácil perceber também uma banalização do ódio. O aparente anonimato das redes faz aflorar esta parte das pessoas que, ofendem, insultam, agridem, ou cometem crimes virtuais muitas vezes propositalmente. Até mesmo em notícias trágicas (que infelizmente têm sido cada vez mais divulgadas) os comentários grosseiros e a necessidade de culpar alguém estão sempre presentes. A espetacularização da felicidade e a banalização da ofensa nas redes sociais, sob o discurso de liberdade de expressão, são reflexos diretos da nossa sociedade atual de adultos que não sabem lidar bem com seus sentimentos.

Uma proposta teatral

A proposta para o trabalho de teatro com as turmas escolares visa também  explorar justamente a expressão de sentimentos através do corpo.Já nas primeiras aulas, pode-se propor uma ficha que contenha o nome de alguns sentimentos e pedir para que os alunos expliquem, com suas próprias palavras, o que significam para cada um. De maneira muito singela e potente, as respostas podem ser bastante tocantes, pois descrevem, de uma forma ingênua e direta, aquilo que sentimos (alguns exemplos estão no final do texto, que retirei de um trabalho qualtivo). Essas respostas podem nos fazer refletir profundamente a respeito do mundo que estamos propondo para essas crianças e do que podemos construir com elas.

A medida que as atividades vão se desenvolvendo durante o período letivo, como a de criar cenas representando os sentimentos apenas através da expressão corporal, é interessante perceber como os alunos se abrem mais (e de maneira espontânea) em relação aos seus sentimentos. Com isso, percebi o quão importante é dar atenção para o que elas estavam dizendo. E, finalmente, numa possível mostra de teatro, elas podem apresentar seus sentimentos. Entre uma cena e outra, declamam suas próprias definições de cada sentimento. É como uma celebração simbólica sobre as crianças podendo falar o que sentem e como sentem e os pais, ou responsáveis, as escutam.

Quem demonstra sentimentos é fraco?

Fomos criados em uma sociedade em que demonstrar sentimentos é sinal de fraqueza e ainda ficamos sem jeito nos momentos em que eles afloram. Acredito que essa falta de habilidade em lidar com os próprios sentimentos não está desconectada da necessidade, apontada antes, de escancarar a “felicidade”, nem da incontrolável vontade de “vomitar” ofensas. Então, me pergunto: como nós, adultos/adultas, podemos proporcionar uma mudança efetiva na nossa sociedade? Não sei muito bem como responder, mas uma coisa é certa: precisamos ouvir as crianças. E, principalmente, ouvir o que elas andam sentindo nesses tempos turbulentos, pois elas estão num momento ímpar de aprendizagem e de apreensão do mundo: são como antenas sensíveis a tudo. Seus corpos não estão tão fechados como os dos adultos, que possuem carapaças de concepções de vida, o famoso preconceito nosso de cada dia.

Dê voz à criança, ela também sente e pensa.

Dar voz para que elas expressem seus sentimentos é, progressivamente, estimulá-las a lidar desde cedo com o que sentem, da maneira mais saudável possível, sem julgamento de valor e principalmente com respeito aos outros, o que implica no não constrangimento do sentimento de empatia. Um trabalho desafiante e bastante delicado, sem dúvida. Mas que pode nos encoraja a nos questionar a nós mesmos quantas vezes me permiti ser empático hoje? Quantas vezes consegui me colocar no lugar da minha filha ou do meu filho hoje e entender o que ela/ele estava sentindo?

Não considero isso como de inteligência emocional, pois não acredito que nesse caso existe uma diferença prática entre os “inteligentes e burros”, entre os “mais experientes e os menos experientes”. Acredito que isso está relacionado com a permissão de si e do outro, com o não constrangimento, com uma sensibilidade relacional, que é produzida da relação entre, no mínimo, dois indivíduos, com algo que não deve se basear em um padrão de respostas, pois cada um vai se expressar de um modo.

Por isso, terminarei esse texto com as citações de alguns sentimentos descritos por crianças, como citado acima:

 

Amizade – É ser parceiro, brigar e concordar.

Amor – Se entregar para a vida.

Amor – Quando meu irmão nasceu. Senti alguém novo na minha vida.

Amor – Ficar bem pertinho de quem você gosta dizendo coisas legais.

Amor – Quando você ganha um filho e enche ele de amor para ele ter uma vida feliz.

Amor – É brincar com os animais de pegar bolinha.

Coragem – Se sacrificar pelo outro ou fazer algo perigoso mas necessário.

Empatia – Pensar antes de fazer algo.

Empatia – Ganhar lindos e belos conselhos e dar lindos e belos conselhos.

Felicidade – É ter meu cachorro.

Gula – Quando tem alguma comida e eu como mais do que preciso.

Inveja – É se sentir menor e com menos valor.

Medo – É ser autoprotegido por você mesmo.

Raiva – Quando fazem algo muito ruim e você não pensa duas vezes e faz algo que, na maioria das vezes, você não gostaria de ter feito.

Satisfação – Quando você termina algo e fica feliz.

Saudade – É quando você olha para um cachorro da espécie salsicha e se lembra do cachorro “César” que se perdeu.

Tristeza – Quando alguém fica brabo comigo e eu não sei o porquê.

Tristeza – Algo que expressamos em lágrimas e faz o coração doer.

 


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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