Uma notícia divulgada pela EBC chamou minha atenção recentemente. O título da matéria é: Unesco: Brasil não vê educação como instrumento de qualificação de vida. Não há como não se incomodar com uma notícia como essa por uma série de motivos. O principal é que, no senso comum, sabemos que isso é uma realidade no nosso imaginário social. Mais de ⅓ dos candidatos que disputam cargos nestas eleições de 2016 sequer concluíram o Ensino Médio e apenas 21,1% possui o Ensino Superior completo. Isso nos apresenta uma série de problemas estruturais básicos, várias possibilidades de problematizações, desde a culpabilização do Estado pelo estado precário da educação pública até mesmo questionarmos se nós, brasileiros, realmente acreditamos que a educação, ou o que conhecemos nas escolas como educação é uma ferramenta transformadora importante para nossas vidas.

O relatório da Unesco reforça a ideia de que é preciso mudar a maneira como a educação é pensada aqui no Brasil. Muito além de apenas transferir conhecimentos, a educação tem a responsabilidade de fomentar os tipos certos de habilidades, atitudes e comportamentos que levarão ao crescimento sustentável e inclusivo. “No Brasil, vemos mais uma educação focada em determinados conteúdos, no Enem e na prova de entrada da universidade, e os currículos pautados apenas pelos livros didáticos. Não se vê a educação como esse instrumento de qualificação da vida das pessoas”, disse a coordenadora de Educação da Unesco no Brasil, Rebeca Otero. Ela explicou que a educação deve ser baseada em quatro pilares: aprender a conhecer, a fazer, a ser e a viver juntos. “É bastante importante que seja assim porque, nesse sentido, as pessoas ganham autonomia, podem aprender e se desenvolver. Projetos que dizem respeito a não ter uma discussão em termos de troca de ideia, que não promovam a autonomia de pensamento, não pode ser educação. É fundamental que haja liberdade, que as pessoas exponham suas ideias e que sejam respeitadas”.

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Essa notícia me fez lembrar de uma pesquisa conduzida no Reino Unido pela Education Endowment Foundation, ONG dedicada à educação para famílias de baixa renda. Ela nos mostra que crianças que tiveram Filosofia na escola aprenderam matemática, leitura e escrita (de inglês) mais rapidamente. Segundo os professores, as crianças também se mostraram mais abertas a ouvirem os colegas e ficaram mais confiantes. Além disso, dois anos após a conclusão do experimento, os alunos continuaram a mostrar mais facilidade nos estudos. Alguns dos impactos não são mensuráveis diretamente. Um professor, por exemplo, disse que após o programa, as crianças se sentiram mais à vontade para fazer questionamentos – transformando a sala em “um ambiente de aprendizagem mais colaborativo”.

O estudo contemplou 3 mil crianças entre nove e dez anos em 48 escolas espalhadas pela Inglaterra que tiveram aulas de Filosofia por um ano. Os resultados indicam que os alunos avançaram o equivalente a dois meses de aulas no aprendizado. Crianças que tinham dificuldades de aprendizado evoluíram ainda mais: quatro meses em leituras, três meses em matemática e dois meses em escrita. Os professores também se sentiram diferentes após o programa. “Agora vejo uma mudança em como respondo às discussões dos meus alunos. Além disso, minha aula envolve muito mais conversas e ouvir mais, além de eu encorajar as opiniões dos estudantes”, disse um tutor aos pesquisadores.

O programa usado pelos estudantes britânicos se chama P4C (sigla para Philosophy for Children, ou Filosofia para crianças em português) e foi criado pelo professor Matthew Lippman em Nova Jersey, nos EUA, na década de 1970.

Os estudantes não tiveram que ler textos de Marx ou de Kant, mas foram apresentados a livros, poemas e filmes que trazem discussões sobre temas filosóficos como verdade, justiça e conhecimento. Nas aulas, os alunos sentavam em círculo com o professor e discutiam os temas. Após os temas serem apresentados e todos discutirem juntos, eles tinham um tempo dedicado à reflexão individual. Depois, eles deveriam fazer questionamentos sobre o tema e apresentar as perguntas a todos. Por último, passavam a discutir juntos e a procurar respostas para os questionamentos filosóficos.

A importância desse estudo, para além de nos mostrar a relevância do ensino de filosofia para crianças, destaca o diferencial da autonomia e da implicação durante os processos de aprendizagem. Como os próprios tutores disseram, as crianças começaram a participar mais das aulas, a questionar mais e a conversar mais, tanto falar mais quanto ouvir mais. Essas crianças começaram a se sentir mais à vontade com o espaço e com o que era apresentado a eles, até porque eles começaram a buscar sentido no que era ensinado, algum sentido para suas vidas. Não foi um processo simples, aprender a trabalhar a autonomia de pensamento na nossa sociedade atual nunca é simples, mas essas crianças também não continuarão a aprender de modo simples, muito menos enxergarão a educação como irrelevante para suas vidas.

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Referências:

 

http://g1.globo.com/politica/eleicoes/2016/blog/eleicao-2016-em-numeros/post/mais-de-13-dos-candidatos-nao-tem-o-ensino-medio-completo.html

http://agenciabrasil.ebc.com.br/educacao/noticia/2016-09/unesco-brasil-nao-ve-educacao-como-instrumento-de-qualificacao-de-vida

https://educationendowmentfoundation.org.uk/public/files/Projects/EEF_Project_Report_PhilosophyForChildren.pdf


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com


Por que não ensinar o alfabeto para uma criança usando palavras e objetos que se conectem com a sua realidade? Em Mondongo, em uma pequena comunidade de várzea nos arredores do Rio Amazonas, no Pará, foi exatamente isso que aconteceu.

No ensino infantil, quando estamos começando o processo de alfabetização é comum aprendermos palavras que nem sempre compõem o nosso cotidiano, como aprender a letra “Z” a partir da Zebra, animal que só encontramos em ilustrações de livros, dependendo da vivência de cada um. Lá, a letra “Z” é associada ao Zangão, animal muito mais próximo da realidade daquelas crianças. Da mesma maneira, o “Q” de queijo virou “Q” de quiabo, e o “M” de maçã virou “M” de marajá (uma frutinha típica da região).

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(fonte: http://www.tecendosaberes.com )

Dentre as referências para as crianças aprenderem as letras estão palavras como acari, capivara, horta, jerimum, onça-pintada, poraquê, vaga-lume, entre tantas outras familiares à comunidade.

A iniciativa de criar novas referências para apresentar o alfabeto às crianças da comunidade partiu da pesquisadora e artista plástica Marie Ange Bordas, coordenadora do projeto Tecendo SaberesCom o envolvimento de crianças e professores da região, juntos, eles enumeraram, desenharam e fotografaram objetos, animais, frutas e outros elementos presentes e abundantes na vida de lá para criar um alfabeto “tropicalizado”.

Uma das grandes inspirações para o Tecendo Saberes foi a demanda dos próprios professores por esse tipo de material. Por isso uma parte essencial do projeto são encontros com professores e mediadores para pensarem juntos maneiras de utilizar os manuais em sala de aula e inspirar novos projetos locais.

Segundo o Diário de Bordo do Tecendo Saberes, foi o que aconteceu também em Cachoeira Porteira (PA). Com o “Manual das Crianças do Baixo Amazonas” em mãos, os professores passaram a enxergar nele um material de trabalho. “O que me chamou muito a atenção foi o despertar dos alunos, eles próprios estarem se vendo no livro”, disse o professor Robson Cordeiro Rocha, que dá aulas há 10 anos.

“É uma fonte pedagógica para construir com os alunos um novo olhar nas questões da realidade da comunidade”, afirmou Adriana Helena Silva de Souza.

Ainda segundo o diário, a professora Nazaré Tavares disse que agora vai dar mais valor ao que tem em sua comunidade: “Já conhecia esses saberes todos e não os valorizava. Por exemplo, eu tenho a castanheira perto da minha casa e não valorizo essa cadeia inteira. Nunca falei na minha turma da alimentação dela, como eu posso extrair [os frutos], como posso manusear. O livro vem clarear as minhas ideias”.

Ao folhear o livro, se inspirou e começou a montar uma aula: “Na educação infantil, quero trabalhar a parte dos nutrientes da castanha, trabalhando com desenhos, e depois, pedir material [as castanhas]. Vamos confeccionar um mingau e tomar juntos. Dá para trabalhar matemática, linguagem oral e escrita, artes plásticas e visuais. Tudo!”

“Não fazia sentido um lugar como Mondongo, de clima equatorial, no Baixo Amazonas, e tão rico em elementos, usar palavras importadas das grandes cidades”, observou Marie.

A sensibilidade da iniciativa de criar um alfabeto próprio não passou despercebida. Muito pelo contrário: acabou sendo adotada por outras comunidades do Baixo Amazonas. “O problema do ensino nestes lugares é que quase todo o material didático é produzido em cidades do Sudeste, onde a realidade é completamente diferente”, disse João Neto, secretário de Educação de Óbidos (PA), município onde estão localizadas quatro das comunidades com as quais o projeto Tecendo Saberes teve contato. “Os moradores sentem-se valorizados ao encontrar referências de seu cotidiano nos livros.”

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(fonte: http://www.tecendosaberes.com )

O projeto Tecendo Saberes, de Marie Ange Bordas, criou um diálogo com as crianças da região e as incentivou a contarem a própria história. Ela deu voz à criança e ao jovem, fazendo-o pensar e refletir sobre a riqueza da sua comunidade. Mais do que uma simples pesquisa, houve o cuidado em se integrar à vida local e compartilhar olhares.

 

Referências:

http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/2014/08/1497713-criancas-do-acre-e-do-para-criam-novo-jeito-de-aprender-o-alfabeto.shtml

http://g1.globo.com/sao-paulo/bom-dia-sp/videos/t/edicoes/v/projeto-leva-experiencias-de-criancas-indigenas-e-quilombolas-para-criancas-da-cidade/4303471

http://g1.globo.com/sao-paulo/blog/o-que-fazer-em-sao-paulo/1.html

http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/2015/07/1653750-historias-levam-vida-de-criancas-da-amazonia-a-bibliotecas-de-sao-paulo.shtml

http://cbn.globoradio.globo.com/programas/cbn-sao-paulo/2015/07/10/PROJETO-CONTA-HISTORIAS-DE-VIDA-DE-CRIANCAS-QUILOMBOLAS-E-INDIGENAS-DO-AM.htm

http://www.tecendosaberes.com

http://www.promenino.org.br/noticias/reportagens/iniciativa-celebra-o-saber-das-criancas-indigenas-e-quilombolas


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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