Postado por Carolina Campos | Em 7 de julho de 2016 | Tags: , , ,

Soube hoje que a Lorrayne ficou em 18º lugar na Olimpíada Internacional de Neurociências, realizada na semana passada na Dinamarca. Dos 25 competidores, a brasileira negra, da periferia, vinda de escola pública, ficou à frente de muita gente boa. Numa das etapas, inclusive, ela ficou em 2º lugar após realizar uma prova oral totalmente em inglês.

Aliás, essa Olimpíada foi uma ótima vitrine dos novos tempos. Além de Lorrayne, o primeiro lugar foi conquistado por uma outra mulher. A jovem romena Ana Ghenciulescu foi a primeira representante de um país europeu a receber o prêmio mais alto da competição.

Esses dois exemplos são profundamente representativos do mundo que teremos nos próximos anos. No Brasil, dados da PNAD de 2014 revelam que o nível de instrução feminino manteve-se mais elevado do que o masculino. Para se ter uma ideia, na faixa de 25 anos ou mais de idade, a parcela com pelo menos 11 anos de estudo representava 40,3% para os homens e 44,5% para as mulheres [1]. Ou seja, as mulheres estudam mais tempo do que os homens. Em 2010, mais de sete milhões de mulheres haviam concluído um curso universitário, contra cinco milhões de homens [2].

Este diferencial implicará num futuro muito diferente para as próximas gerações. Mulheres que estudam mais tendem a adiar o casamento, a gestação e conseguem alcançar postos de trabalho mais disputados. E isso, daqui a 30 anos, vai gerar um impacto tremendo nas nossas relações sociais.

No entanto, o caminho é difícil. Embora as mulheres já sejam maioria nos cursos universitários, elas ainda ganham menos do que os homens. Dados da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (CEPAL) revelam que a diferença salarial mais alta ocorre na população mais instruída (treze anos ou mais de estudo). Os homens deste grupo ganham 25,6% a mais do que as mulheres [3]. Isso significa que, na atualidade, quanto mais escolarizada é uma mulher, menor a sua recompensa, relativamente. Triste.

Quero crer que isso acontece porque estamos numa entressafra. Ainda vivemos num mundo que considera ser aceitável uma mulher ganhar menos do que um homem, mesmo exercendo função equivalente. Ainda vivemos num mundo em que congressistas acreditam que mulheres devem receber menos porque tiram licença maternidade. Mas, como a história é pendular, o conservadorismo que nos assola hoje deverá arrefecer no futuro. Assim espero.

Olhando para o lado mais cheio do copo, embora a disparidade salarial ainda seja uma questão, a verdade é que o número de empresas que têm uma líder como CEO aumentou de 5% para 11% em apenas um ano. Ou seja, as mulheres estão aumentando a sua presença nos cargos de liderança. Os dados da pesquisa “International Business Report (IBR) – Women in Business”, realizada pela Grant Thornton, demonstram que o aumento de escolarização da população feminina está diretamente ligado à presença das mulheres em cargos de chefia [4].

Nesse sentido, o Mapa anda bem. Muito bem, por sinal. Seu board de co-fundadores possui duas vezes mais mulheres do que homens. Além disso, a presença feminina é constantemente valorizada. O #agoraéquesãoelas, por exemplo, tornou-se uma constante no Movimento.

É claro que ainda falta muito para atingirmos a neutralidade de gênero no ambiente de trabalho e, por consequência, na sociedade. No entanto, meninas como a Lorrayne me fazem acreditar no futuro. É graças a ela e a essa horda de anônimas que estão lutando bravamente pelo seu diploma e pela superação de preconceitos que daqui a uns anos a nossa sociedade será severamente impactada. Para melhor.

 

Imagem: http://goo.gl/kCSb9J

Imagem: http://goo.gl/kCSb9J

 

[1] http://brasilemsintese.ibge.gov.br/educacao/anos-de-estudo-e-sexo.html

[2] http://www.ibge.gov.br/apps/snig/v1/?loc=0&cat=-1,1,2,-2,-13,48,128&ind=4699

[3] http://oglobo.globo.com/economia/diferenca-salarial-entre-homens-mulheres-ainda-persiste-18832252#ixzz4DfuziuoL

[4] http://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/2016/03/numero-de-mulheres-em-cargos-de-lideranca-tem-alta-no-brasil.html


Sobre Carolina Campos

35, de Manaus, Amazonas. É advogada por formação e docente por vocação. Fez mestrado em Ciência Política, estudou Direito Empresarial, saúde pública, educação e feminismo. Como advogada, trabalhou em escritórios como TozziniFreire e Dannemann. No serviço público, atuou na ANVISA. Por sete anos, foi também professora do ensino superior. Tornou-se gestora educacional, trabalhou com assuntos regulatórios em educação, coordenou um Núcleo de Prática Jurídica e outro de TCC. Fez um curso sobre metodologia científica na Universidade Leuven, na Bélgica, para aplicar no Núcleo de TCC que coordenou. Foi assessora da direção do IDP, em Brasília. Um belo dia fez as malas, vendeu os móveis, empacotou os livros e foi morar com a família em Cambridge. Lá, trabalhou no MIT Brasil, concebeu e coordenou um evento voltado inteiramente para educação junto ao grupo de pesquisadores da região de Boston, o PUB-Edu. Atualmente, estuda novas tecnologias da educação na Universidade de Harvard, é jornalista da Fundação Estudar, voluntária do grupo Spouses&Partners do MIT e Diretora de Conteúdo do Mapa.

Postado por Maria Regadas | Em 5 de abril de 2016 | Tags: , , , ,

Excluídas do ensino formal oficial por mais de três séculos após a colonização do Brasil, as mulheres brasileiras vêm, aos poucos, conquistando sua autonomia e prestígio social. Em uma sociedade que lhes negou direitos básicos, como o voto, até meados do século passado, a presença majoritária em uma categoria de trabalho, o Magistério, pode parecer um avanço na direção de sua emancipação em uma primeira análise. Contudo, as causas dessa forte participação ainda são polêmicas: a feminização do Magistério no Brasil é decorrente do “instinto materno” ou é reflexo de uma sociedade que ainda enxerga a criação dos filhos como responsabilidade majoritariamente da mulher?

 

Segundo o INEP, a presença de professoras nos níveis de creche, pré escola e nos anos iniciais do Ensino Fundamental I (1a a 4a séries) é de 97,9%, 96,1% e 91,2%, respectivamente¹, enquanto nos anos finais do Ensino Fundamental, Ensino Médio e Ensino Superior esses números caem para de 74,4%, 64,4% e 46,7%.² Para entender essa decrescente presença feminina, inversamente proporcional à valorização do professor no decorrer dos anos escolares, é preciso relembrar como se deu a inserção da mulher como docente a partir do século XIX. Tal movimento acompanhou a inclusão gradual das meninas na educação formal, vista ao longo do tempo como um privilégio masculino – e tendo como mestres somente os homens. De início, as escolas mantinham turmas separadas para meninos e meninas, que deveriam ser instruídas exclusivamente por professores do mesmo sexo – portanto, como havia mais turmas de garotos, a presença masculina na docência escolar ainda era maior. É importante ressaltar, contudo, que os currículos oferecidos às crianças foram, por muito tempo, diferenciados a partir de certo ponto: enquanto eles aprendiam geometria, elas aprendiam a bordar e costurar – o que ratificava, desde a escola, o papel social esperado de cada sexo dentro da sociedade daquela época. Os meninos eram educados para serem os chefes e provedores da família, enquanto as meninas, as guardadoras do lar e responsáveis pela criação, educação e cuidado dos filhos e do marido.

 

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Em meados do século XIX, fundaram-se as primeiras Escolas Normais para formação de docentes, com turmas separadas e com currículos igualmente diferenciados, a fim de suprir a demanda desses profissionais em um momento em que o campo educacional se expandia seguindo um pensamento mais progressista pós-independência. Até 1908, registraram-se mais formandos homens que mulheres nesses estabelecimentos, porém, com a industrialização e urbanização, surgiram novas oportunidades de trabalho para os homens, muitas vezes melhores remuneradas. Isso gerou uma evasão masculina do Magistério3, tornando o quadro de professores nas escolas gradualmente mais feminino, sendo esse totalmente dominado pelas mulheres a partir do século XX.

 

Contudo, a aceitação da mulher na atividade docente não foi unânime: alguns as consideravam intelectualmente despreparadas para educar os futuros cidadãos, enquanto outros afirmavam que elas tinham “por natureza” o dom de lidar com os pequenos, enxergando o magistério, de certa forma, como uma extensão da maternidade. Essa segunda linha de argumentação ganhou muita força motivada, em parte, por interesses políticos4 pois, para expandir a escolarização no país, um objetivo da recente República, era preciso que o professor custasse pouco ao Estado. Assim, um discurso em que características supostamente femininas passaram a ser pré-requisitos para se tornar professor(a) – paciência, afetividade, doação, delicadeza – foi bastante difundido, já que as mulheres, com poucas opções de carreira socialmente aceitáveis, eram uma mão de obra muito mais barata. Esse estereótipo foi criado por homens, difundido por eles e incorporado pela nossa sociedade. Assim, a professora virou a tia, uma espécie de segunda mãe detentora da vocação para cuidar dos menores – vocação apenas delas, nunca deles. O estereótipo de que o profissional da educação primária deva ser uma mulher é tão forte que a simples existência de um “tio” nessas salas de aula causa estranheza e, muitas vezes, preconceito por parte dos pais até hoje.

 

Por outro lado, a presença feminina à frente da sala de aula ainda decresce com a valorização social dos cargos educativos: enquanto as tias da primeira infância representam mais de 90% dos profissionais, professores universitários são, em sua maioria, homens. Esse contraste fica ainda mais claro ao observar que, enquanto a mulher é tida como representação da professora dos anos iniciais, o homem é o maior representante em cargos administrativos e de poder, ocupando em maior número secretarias e ministérios da educação:

 

  • De 1947 a 2011, dos 54 Secretários de Educação do Município de São Paulo, apenas 7 foram mulheres;5
  • De 1891 a 2002, dos 95 Secretários de Educação do Estado de São Paulo, apenas 3 foram mulheres.6
  • O Brasil nunca teve uma Ministra da Educação. Esse cargo foi ocupado, desde 1931 (Era Vargas), por 48 homens.7

 

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Em tempo, é razoável afirmar que, devido a essa baixa participação dos homens no corpo docente da primeira infância, não só os pais, mas também as crianças passam boa parte do tempo expostos à preconcepção de que a criação das crianças (filhos ou alunos) é de responsabilidade prioritariamente da mulher. Afinal, os estereótipos masculinos ou femininos são cultural e socialmente impostos desde a infância, sendo transmitidos muito antes que as crianças percebam as diferenças entre os sexos.8

 

Muito além de “incentivar a menina a jogar bola e o menino, a brincar de boneca” a fim de desconstruir tais padrões, faz-se necessário observar que a educação pode contribuir para a perpetuação de tais rótulos se não enxergarmos que a maioria das diferenças entre homens e mulheres são socialmente construídas e não biologicamente determinadas. Com esse pensamento em mente e em prática, o dia em que o “tio” usará seus “instintos paternos” para colaborar, em igual proporção que a mulher, com a criação dos pequenos – em casa e na escola – será o mesmo em que a tão sonhada igualdade entre os sexos estará um passo mais próxima de ser alcançada.

 

 

 

¹ Fonte: MEC/INEP – Censo Escolar da Educação Básica de 2007

² Fonte: MEC/INEP – Censo do Professor de 2007

3 LOURO, Guacira lopes. Mulheres na sala de aula. in: DEL PRIORE, Mary. História das Mulheres no Brasil. São Paulo: Editora Contexto, 2007;

4 RABELO, Amanda Oliveira. A mulher e docência: historicizando a feminização do magistério. Revista do Mestrado de História, Vassouras, 2007;

5 Segundo listagem de Secretários de Educação do Município – fornecida pelo Memorial do Ensino Municipal de São Paulo;

6 Dados do Departamento de Recursos Humanos da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo;

7 https://pt.wikipedia.org/wiki/Lista_de_ministros_da_Educação_do_Brasil

8 ALMEIDA, Jane Soares de. Mulher e educação: a paixão pelo possível. São Paulo: Editora UNESP, 1998.

9 http://sbhe.org.br/novo/congressos/cbhe2/pdfs/Tema5/0539.pdf

10 http://revistapandorabrasil.com/revista_pandora/materialidade/renata.pdf

11 http://30reuniao.anped.org.br/trabalhos/GT23-3041–Int.pdf

 


Sobre Maria Regadas

21 anos, é gerente da Diretoria de Conteúdo do Mapa e estudante de Engenharia Mecânica da PUC-Rio e do INSA de Lyon em um programa de duplo diploma. Atual fellow da Fundação Estudar, é apaixonada por viagens, séries de TV e gosta de acreditar que um dia levará a corrida a sério.