Postado por Lucio Flávio | Em 6 de abril de 2017 | Tags: , , , , ,

Dar voz e vez às crianças. Com este objetivo, foi lançada na última terça-feira, 1º de novembro, pelo Mapa da Infância Brasilera, a publicação “Quem está na escuta? Diálogos, reflexões e trocas de especialistas que dão vez e voz às crianças.”

Disponibilizado virtualmente através da plataforma Mapa da Infância Brasileira (MIB), o documento “sinaliza caminhos, constrói pontes e abre atalhos para uma temática bastante cara nos dias de hoje: a importância em ouvir, observar e dialogar com o universo da criança”, de acordo com os envolvidos no projeto.

Produzido de maneira colaborativa, a publicação reúne artigos de pesquisadores que atuam em diversas áreas ligadas à infância, como Manuel Sarmento, professor de sociologia da Infância da Universidade do Minho, em Portugal; Adriana Friedmann, idealizadora do MIB; Severino Antônio e Katia Tavares, professores e pesquisadores; David Reeks e Renata Meirelles, documentaristas e coordenadores do projeto Território do Brincar; Gabriela Romeu, jornalista e uma das idealizadores do projeto Infâncias; e Lindalva Souza, coordenadora do Vozes da Infância Brasileira (VIB).

O documento conta ainda com diversas iniciativas que trabalham diretamente com crianças em São Paulo e suas formas de ouvi-las, além de outras experiências de escuta infantil.

“Escutar as crianças é como fazer uma viagem ao território da infância”, afirma em seu texto Adriana Friedmann. “No percurso pelos universos infantis, o viajante descobre diversidade de linguagens, costumes, sabores, cheiros, músicas, danças, brincadeiras, histórias e paisagens. Assim, ao escutar e descobrir o que as crianças têm a dizer, novos mundos e repertórios descortinam-se à frente do adulto.”

Poética da infância é um dos artigos presentes nesse material que trabalha com cuidado a escuta da criança. Os professores e pesquisadores Severino Antônio e Katia Tavares tratam de uma educação em que as crianças possam pensar, sentir e se expressar poeticamente. Os autores defendem que as crianças, principalmente as pequenas, exercitem espontaneamente um pensamento mitopoético, em que tudo fala, assim como se transforma em tudo.

Os sentidos de ouvir foram também ampliados. A arte-educadora Lindalva Souza, coordenadora do Vozes da Infância Brasileira (VIB), traça rotas diversas para uma escuta lúdica, que inclui criação de mapas, construção de objetos, oficina de desenhos e brincadeiras de faz de conta. Para compartilhar as muitas formas de “ouvir” meninos e meninas de diversas instituições de São Paulo, o convite é percorrer o texto Cartografia de uma escuta sensível.

Sem nenhuma pretensão, mas numa tentativa de se delinear o próprio fazer, chamam esse olhar para as infâncias a fim de alcançar etnografias literárias que partem do real  e recontam a realidade. São uma espécie de infanciografias, ou escritas da infância, a partir da observação atenta das narrativas não-verbais das crianças, da escuta que faz ecoar mais do que o dito e do corpo acordado no encontro com a infância outra, em um diálogo intenso com a meninice em que fui cunhada. Para falar das infâncias, as narrativas são muitas – e essa é só uma delas.

 

Vale muito a pena conhecer. Confira a publicação na íntegra.


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com


A felicidade parece ser algo que as pessoas fazem questão de tornar público nestes tempos de redes sociais. Fotos de momentos felizes, vídeos de animais fofinhos, registros de momentos íntimos e compartilhamentos de situações marcantes já fazem parte do nosso dia a dia. Nesse contexto,, é fácil perceber também uma banalização do ódio. O aparente anonimato das redes faz aflorar esta parte das pessoas que, ofendem, insultam, agridem, ou cometem crimes virtuais muitas vezes propositalmente. Até mesmo em notícias trágicas (que infelizmente têm sido cada vez mais divulgadas) os comentários grosseiros e a necessidade de culpar alguém estão sempre presentes. A espetacularização da felicidade e a banalização da ofensa nas redes sociais, sob o discurso de liberdade de expressão, são reflexos diretos da nossa sociedade atual de adultos que não sabem lidar bem com seus sentimentos.

Uma proposta teatral

A proposta para o trabalho de teatro com as turmas escolares visa também  explorar justamente a expressão de sentimentos através do corpo.Já nas primeiras aulas, pode-se propor uma ficha que contenha o nome de alguns sentimentos e pedir para que os alunos expliquem, com suas próprias palavras, o que significam para cada um. De maneira muito singela e potente, as respostas podem ser bastante tocantes, pois descrevem, de uma forma ingênua e direta, aquilo que sentimos (alguns exemplos estão no final do texto, que retirei de um trabalho qualtivo). Essas respostas podem nos fazer refletir profundamente a respeito do mundo que estamos propondo para essas crianças e do que podemos construir com elas.

A medida que as atividades vão se desenvolvendo durante o período letivo, como a de criar cenas representando os sentimentos apenas através da expressão corporal, é interessante perceber como os alunos se abrem mais (e de maneira espontânea) em relação aos seus sentimentos. Com isso, percebi o quão importante é dar atenção para o que elas estavam dizendo. E, finalmente, numa possível mostra de teatro, elas podem apresentar seus sentimentos. Entre uma cena e outra, declamam suas próprias definições de cada sentimento. É como uma celebração simbólica sobre as crianças podendo falar o que sentem e como sentem e os pais, ou responsáveis, as escutam.

Quem demonstra sentimentos é fraco?

Fomos criados em uma sociedade em que demonstrar sentimentos é sinal de fraqueza e ainda ficamos sem jeito nos momentos em que eles afloram. Acredito que essa falta de habilidade em lidar com os próprios sentimentos não está desconectada da necessidade, apontada antes, de escancarar a “felicidade”, nem da incontrolável vontade de “vomitar” ofensas. Então, me pergunto: como nós, adultos/adultas, podemos proporcionar uma mudança efetiva na nossa sociedade? Não sei muito bem como responder, mas uma coisa é certa: precisamos ouvir as crianças. E, principalmente, ouvir o que elas andam sentindo nesses tempos turbulentos, pois elas estão num momento ímpar de aprendizagem e de apreensão do mundo: são como antenas sensíveis a tudo. Seus corpos não estão tão fechados como os dos adultos, que possuem carapaças de concepções de vida, o famoso preconceito nosso de cada dia.

Dê voz à criança, ela também sente e pensa.

Dar voz para que elas expressem seus sentimentos é, progressivamente, estimulá-las a lidar desde cedo com o que sentem, da maneira mais saudável possível, sem julgamento de valor e principalmente com respeito aos outros, o que implica no não constrangimento do sentimento de empatia. Um trabalho desafiante e bastante delicado, sem dúvida. Mas que pode nos encoraja a nos questionar a nós mesmos quantas vezes me permiti ser empático hoje? Quantas vezes consegui me colocar no lugar da minha filha ou do meu filho hoje e entender o que ela/ele estava sentindo?

Não considero isso como de inteligência emocional, pois não acredito que nesse caso existe uma diferença prática entre os “inteligentes e burros”, entre os “mais experientes e os menos experientes”. Acredito que isso está relacionado com a permissão de si e do outro, com o não constrangimento, com uma sensibilidade relacional, que é produzida da relação entre, no mínimo, dois indivíduos, com algo que não deve se basear em um padrão de respostas, pois cada um vai se expressar de um modo.

Por isso, terminarei esse texto com as citações de alguns sentimentos descritos por crianças, como citado acima:

 

Amizade – É ser parceiro, brigar e concordar.

Amor – Se entregar para a vida.

Amor – Quando meu irmão nasceu. Senti alguém novo na minha vida.

Amor – Ficar bem pertinho de quem você gosta dizendo coisas legais.

Amor – Quando você ganha um filho e enche ele de amor para ele ter uma vida feliz.

Amor – É brincar com os animais de pegar bolinha.

Coragem – Se sacrificar pelo outro ou fazer algo perigoso mas necessário.

Empatia – Pensar antes de fazer algo.

Empatia – Ganhar lindos e belos conselhos e dar lindos e belos conselhos.

Felicidade – É ter meu cachorro.

Gula – Quando tem alguma comida e eu como mais do que preciso.

Inveja – É se sentir menor e com menos valor.

Medo – É ser autoprotegido por você mesmo.

Raiva – Quando fazem algo muito ruim e você não pensa duas vezes e faz algo que, na maioria das vezes, você não gostaria de ter feito.

Satisfação – Quando você termina algo e fica feliz.

Saudade – É quando você olha para um cachorro da espécie salsicha e se lembra do cachorro “César” que se perdeu.

Tristeza – Quando alguém fica brabo comigo e eu não sei o porquê.

Tristeza – Algo que expressamos em lágrimas e faz o coração doer.

 


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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