Postado por Lucio Flávio | Em 7 de abril de 2016 | Tags: , , , ,

Na semana passada falei sobre um novo paradigma educacional que vem ganhando força, a personalização do ensino, um modelo que visa o aluno em sua individualidade e suas potencialidades. Nesta semana vou dar continuidade a esse tema, mas com outro viés, pensando a necessidade que os alunos brasileiros têm de aprender a aprender; afinal, convenhamos, essa decoreba que temos hoje não constitui aprender. Aprender é, também, aprender a pensar problemas e soluções práticas para a sociedade atual que nos rodeia.

Como foi falado no texto anterior, a educação atual está presa, ainda, aos moldes do século XX, enquanto que nossos problemas e nossas ferramentas são do século XXI; então alguém que passa pelo sistema educacional atual, incluindo as universidades (públicas e privadas), necessita atualizar sua própria forma de pensar caso queira lidar com o que vivemos.

No período militar brasileiro os professores eram proibidos de falar sobre política, atualidades, ainda mais de utilizar jornais em sala. Então, quando falamos que nossos alunos não sabem pensar, isso tem relação direta com os processos pelos quais os próprios professores passaram para não exercitarem o pensamento social crítico. A tradição proibiu nossos professores de pensarem no ambiente escolar e isso vem refletindo na maneira como eles ensinam.

Essa lógica permanece impregnada em nós. Basta ver a forma como nossa educação é estruturada: grades curriculares pouco flexíveis, provas, e uma postura comportamental voltada à disciplina. Em vez disso, a escola deveria ser um espaço democrático onde alunos, professores e comunidade discutam o futuro das unidades.

Somos um povo criativo e as crianças precisam saber que podem criar dentro e fora de sala. Que o aluno pode impor suas ideias diante do professor, e que isso não é necessariamente falta de respeito. Que o estudante deve ter sua voz dentro de sala e que sua voz deve ser respeitada. Que ele deve aprender nas escolas a ser gestor de sua própria vida, ser autônomo, responsável, entender como a sociedade funciona e qual seu papel nela, como agir diante dela com fim de melhorá-la.

Muitos que questionam essa ideia de dar autonomia aos alunos do ensino fundamental estão presos a uma má formação desse conceito e de como ele pode ser poderoso na vida de uma criança. Quando pensamos autonomia não queremos dizer que cada um será totalmente responsável pelas suas ações de modo independente, como sujeito isolado do mundo. Não há sujeito isolado do mundo, muito menos uma criança que necessita uma série de instruções básicas. Liberdade e autonomia não separam o sujeito da sociedade; pelo contrário, dão a ele condições de poder atuar de forma singular.

Ou seja, se pensarmos em autonomia para um estudante que está na faixa de 8 a 10 anos, não significa dizer que ele pensará por si tudo o que aprenderá na escola. Essa criança sequer sabe as possibilidades que tem a sua disposição para aprender. Mas essa mesma criança tem em suas mãos um dispositivo eletrônico que tem acesso rápido e dinâmico a uma gama de conteúdo que nenhum professor sozinho tem capacidade de armazenar. Porém, o professor tem, sim, capacidade de guiar esse aluno para que ele possa aprender com qualidade. Os professores contemporâneos precisam se colocar como gestores de sala de aula, funcionando como técnicos, guias dos alunos – orientando-os de forma multidisciplinar. O professor não precisa saber de tudo, mas precisa ser alguém antenado.

Os nossos alunos precisam aprender a aprender. Escolas contemporâneas estão mais preocupadas com a aprendizagem para avaliações do que com o ensino de fato. Hoje, a educação é centrada na figura do professor e não no aluno. O mesmo pode ser dito para os conteúdos que, além de serem muitos e distribuídos de forma irracional (ou melhor, racional se ainda estivermos pensando numa mente industrial, voltada ao vestibular) são passados sem reflexão de sua importância produtiva, apenas de sua importância reprodutiva. Quanto mais conhecimento é produzido, mais é esperado que o aluno armazene. Pensa-se a inteligência como uma boa memória e não como criatividade e soluções de problemas. Temos que estimular nas nossas crianças a capacidade de reflexão, de argumentação e criticidade.  Oferecer-lhes, dentro das diversas possibilidades, caminhos para que elas encontrem seus principais interesses. É possível incorporarmos essas ideias dentro das nossas escolas.

Um dos exemplos brasileiros de educação que oferece essa nova metodologia é o Projeto Âncora, uma associação civil, uma comunidade de aprendizagem (atenção aos nomes – eu não disse “escola”), que, além de ser um dos projetos mais baratos do Brasil, vem oferecendo excelentes resultados. Esse projeto vem sendo orientado pelo português José Pacheco, conhecido pelos seus resultados extraordinários com a Escola da Ponte. O Projeto Âncora não possui séries, nem ciclos, nem nível, porque eles assumem que isso sequer possui fundamento científico.

fonte: http://projetoancora.org.br/escola.php?lang=port

Quando as crianças dessa comunidade atingem a idade de passar para outros ciclos (e até muito antes), eles já adquiriram toda a grade curricular nacional, além de todo o chamado domínio não cognitivo.

A avaliação acontece quando o aluno sente que cumpriu determinada tarefa, que alcançou determinado objetivo, que aprendeu determinado conteúdo, que cumpriu determinado projeto. E a partilha daquilo que produziu enquanto conhecimento é avaliação. Lá transformam informação em conhecimento, e ao fazê-lo, num contexto de projeto, colocam o conhecimento em ação, ou seja, desenvolvem-no com as crianças. Avaliação é quando o aluno quer, quando o aluno sente que é capaz de partilhar conhecimento construído.

Os relatórios realizados pelo Ministério da Educação são sempre positivos. E são realizados por uma equipe de avaliadores independentes, nomeados pelo ministério, que às vezes está até interessado em acabar com esses projetos. Os relatórios da Escola da Ponte mostram que no domínio cognitivo, comparando as notas dos ex-alunos da Ponte quando foram para outra escola com as notas de cerca de dez escolas da região, vê-se que em todas as disciplinas as melhores notas são dos alunos da Ponte. Segundo, em relação às atitudes, quando vão para outra escola, eles ensinam os outros a pesquisar, ajudam os outros a aprender, formam associações de estudantes, participam ativamente. São pessoas que colaboram, sabem pedir a palavra. No domínio da relação escola-família, é a comunidade que dirige a escola; não pode haver maior integração. O mesmo que é relatado sobre a Escola da Ponte já se encontra nesses projetos brasileiros, que não visam sua reprodução, mas reconstruções de acordo com as realidades encontradas.

Se esses modelos resultam sempre de forma produtiva para essas comunidades, por que o Ministério da Educação não transforma todas as escolas de acordo com os modelos vigentes?

Ainda bem que não o fazem, porque nada deveria vir por decreto. Se precisamos de uma transformação vertical, de cima para baixo, essa deveria ser outra: deveriam perguntar às escolas por que não seguir o modelo desses projetos, que são tão baratos, ajudando-as assim a perceber por si mesmas as vantagens do projeto.

Alunos da “Febem” de Portugal vão para a Ponte. O modelo de aula atual gera um darwinismo social: quem não se adapta – quem não se dá bem no modelo tradicional – sai. Porém, quando um jovem sai da escola, esse jovem pode virar, passados alguns anos, um jovem marginalizado – justamente o que a escola deveria combater.

O primeiro passo para a mudança é a mudança de atitude. É preciso coragem para divergir do modelo tradicional; coragem para não fazer da escola um centro de preparação para o vestibular. Mas apenas com essa coragem conseguiremos preparar cidadãos do século XXI. Essa coragem é revolucionária.


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com