Em tempos pós-modernos e de relações líquidas, como disse o sociólogo Bauman em sua obra Modernidade Líquida, nada é feito para durar. Problemas como a diminuição da empatia nas pessoas começaram a aparecer nos estudos. Os estudantes de hoje em dia são muito menos empáticos do que os dos anos 80 e 90, segundo um estudo da Universidade de Michigan (leia mais sobre o estudo aqui, em inglês). Linhas teóricas da psicologia acreditam que aumento do narcisismo e a perda de empatia estão fortemente relacionados com depressões e com outros problemas de saúde mental.

A empatia, ou seja, a capacidade de ouvir e acolher as ideias dos outros, assim como articular as próprias; o sair do “eu” para adentrar uma visão mais profunda de mundo, a partir do reconhecimento de novos (e diferentes) olhares, e ativamente conectar-se com os sentimentos e as perspectivas dos outros, desempenha um papel fundamental na melhoria das nossas relações sociais, o que é um fator importante para a nossa felicidade geral.

A Dinamarca, país considerado um dos lugares onde as pessoas são mais felizes pelo “World Hapiness Report 2016” (“Relatório da felicidade no mundo 2016”, em tradução livre), investe há décadas no trabalho da empatia nas escolas. Durante as pesquisas para escrever o livro “The Danish way of parenting” (ou “O jeito dinamarquês de cuidar das crianças”, em tradução livre), a dupla de autoras, Jessica Alexander e Iben Sandahl, realizou uma série de entrevistas com professores e alunos de toda a Dinamarca para entender como a empatia é incorporada, ensinada, vivida e discutida nas escolas e nos lares.

Um dos aspectos que chamaram a atenção foi o fato de que, no sistema dinamarquês de ensino, “aprender” empatia é algo tão importante quanto aprender matemática ou literatura, e os currículos das escolas são construídos de tal forma a incorporar isso desde a pré-escola até o ensino médio. Durante os momentos de “Klassen Tid”, como são chamadas as aulas de empatia, crianças de 6 a 16 anos, são convidadas a expor problemas para serem discutidos individualmente ou em grupo.

http://thedanishway.com/danish-parenting-tips/

Esses momentos existem para que temas como bullying sejam expostos, e para que o grupo encontre uma solução coletiva. O objetivo é criar um ambiente seguro e acolhedor para que os problemas sejam discutidos e as crianças aprendam a colocar as coisas em perspectiva. A prática faz parte da educação dinamarquesa desde a década de 1870, e que foi consolidada como uma lei em 1993.

Ensinar empatia vem mostrando que as crianças se tornam mais competentes emocionalmente e socialmente além de ter reduzido os casos de bullying nas escolas. Um estudo recente da Duke e Penn State University acompanhando 750 pessoas por 20 anos, encontrou que, quando criança, as que eram abertas a compartilhar e a ajudar outras crianças desenvolveram-se bem, sem problemas relacionado a saúde mental.

Talvez, então, não seja nenhuma surpresa que a empatia seja um dos únicos fatores mais importantes na promoção de qualidade de vida. Empatia aumenta a capacidade de perdoar e melhora as relações e conexões sociais. Aumenta a qualidade de relações significativas, fator que a pesquisa sugere como um dos mais importantes na sensação de bem estar de uma pessoa. Cada ser humano precisa do apoio de outros para alcançar resultados positivos em sua vida. Mesmo sabendo que a educação seja apenas um aspecto de nossa vida, ele toma boa parte dela, além de passarmos boa parte da nossa infância em escolas. Sendo assim, talvez, concentrando-se ativamente em ensinar e trabalhar empatia com as crianças brasileiras como fazem na Dinamarca, as escolas do Brasil ajudarão o país a terem adultos mais felizes no futuro.


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com


Por que não ensinar o alfabeto para uma criança usando palavras e objetos que se conectem com a sua realidade? Em Mondongo, em uma pequena comunidade de várzea nos arredores do Rio Amazonas, no Pará, foi exatamente isso que aconteceu.

No ensino infantil, quando estamos começando o processo de alfabetização é comum aprendermos palavras que nem sempre compõem o nosso cotidiano, como aprender a letra “Z” a partir da Zebra, animal que só encontramos em ilustrações de livros, dependendo da vivência de cada um. Lá, a letra “Z” é associada ao Zangão, animal muito mais próximo da realidade daquelas crianças. Da mesma maneira, o “Q” de queijo virou “Q” de quiabo, e o “M” de maçã virou “M” de marajá (uma frutinha típica da região).

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(fonte: http://www.tecendosaberes.com )

Dentre as referências para as crianças aprenderem as letras estão palavras como acari, capivara, horta, jerimum, onça-pintada, poraquê, vaga-lume, entre tantas outras familiares à comunidade.

A iniciativa de criar novas referências para apresentar o alfabeto às crianças da comunidade partiu da pesquisadora e artista plástica Marie Ange Bordas, coordenadora do projeto Tecendo SaberesCom o envolvimento de crianças e professores da região, juntos, eles enumeraram, desenharam e fotografaram objetos, animais, frutas e outros elementos presentes e abundantes na vida de lá para criar um alfabeto “tropicalizado”.

Uma das grandes inspirações para o Tecendo Saberes foi a demanda dos próprios professores por esse tipo de material. Por isso uma parte essencial do projeto são encontros com professores e mediadores para pensarem juntos maneiras de utilizar os manuais em sala de aula e inspirar novos projetos locais.

Segundo o Diário de Bordo do Tecendo Saberes, foi o que aconteceu também em Cachoeira Porteira (PA). Com o “Manual das Crianças do Baixo Amazonas” em mãos, os professores passaram a enxergar nele um material de trabalho. “O que me chamou muito a atenção foi o despertar dos alunos, eles próprios estarem se vendo no livro”, disse o professor Robson Cordeiro Rocha, que dá aulas há 10 anos.

“É uma fonte pedagógica para construir com os alunos um novo olhar nas questões da realidade da comunidade”, afirmou Adriana Helena Silva de Souza.

Ainda segundo o diário, a professora Nazaré Tavares disse que agora vai dar mais valor ao que tem em sua comunidade: “Já conhecia esses saberes todos e não os valorizava. Por exemplo, eu tenho a castanheira perto da minha casa e não valorizo essa cadeia inteira. Nunca falei na minha turma da alimentação dela, como eu posso extrair [os frutos], como posso manusear. O livro vem clarear as minhas ideias”.

Ao folhear o livro, se inspirou e começou a montar uma aula: “Na educação infantil, quero trabalhar a parte dos nutrientes da castanha, trabalhando com desenhos, e depois, pedir material [as castanhas]. Vamos confeccionar um mingau e tomar juntos. Dá para trabalhar matemática, linguagem oral e escrita, artes plásticas e visuais. Tudo!”

“Não fazia sentido um lugar como Mondongo, de clima equatorial, no Baixo Amazonas, e tão rico em elementos, usar palavras importadas das grandes cidades”, observou Marie.

A sensibilidade da iniciativa de criar um alfabeto próprio não passou despercebida. Muito pelo contrário: acabou sendo adotada por outras comunidades do Baixo Amazonas. “O problema do ensino nestes lugares é que quase todo o material didático é produzido em cidades do Sudeste, onde a realidade é completamente diferente”, disse João Neto, secretário de Educação de Óbidos (PA), município onde estão localizadas quatro das comunidades com as quais o projeto Tecendo Saberes teve contato. “Os moradores sentem-se valorizados ao encontrar referências de seu cotidiano nos livros.”

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(fonte: http://www.tecendosaberes.com )

O projeto Tecendo Saberes, de Marie Ange Bordas, criou um diálogo com as crianças da região e as incentivou a contarem a própria história. Ela deu voz à criança e ao jovem, fazendo-o pensar e refletir sobre a riqueza da sua comunidade. Mais do que uma simples pesquisa, houve o cuidado em se integrar à vida local e compartilhar olhares.

 

Referências:

http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/2014/08/1497713-criancas-do-acre-e-do-para-criam-novo-jeito-de-aprender-o-alfabeto.shtml

http://g1.globo.com/sao-paulo/bom-dia-sp/videos/t/edicoes/v/projeto-leva-experiencias-de-criancas-indigenas-e-quilombolas-para-criancas-da-cidade/4303471

http://g1.globo.com/sao-paulo/blog/o-que-fazer-em-sao-paulo/1.html

http://www1.folha.uol.com.br/folhinha/2015/07/1653750-historias-levam-vida-de-criancas-da-amazonia-a-bibliotecas-de-sao-paulo.shtml

http://cbn.globoradio.globo.com/programas/cbn-sao-paulo/2015/07/10/PROJETO-CONTA-HISTORIAS-DE-VIDA-DE-CRIANCAS-QUILOMBOLAS-E-INDIGENAS-DO-AM.htm

http://www.tecendosaberes.com

http://www.promenino.org.br/noticias/reportagens/iniciativa-celebra-o-saber-das-criancas-indigenas-e-quilombolas


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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