Postado por Lucio Flávio | Em 21 de julho de 2016 | Tags: , , , , , ,

Recorrentemente apresento neste espaço o conceito de Educação Integral e como colocá-lo em prática. Hoje trago um caso brasileiro de uma escola que vem tentando aplicar esse conceito: a Escola Estadual Alexandre Von Humboldt, situada na zona oeste de São Paulo.

Em 2012, a Von Humboldt se tornou uma escola de tempo integral. Essa mudança por si só não contempla o conceito de Educação Integral em sua totalidade, pois a educação é integral quando atende a todas as dimensões do desenvolvimento humano e se dá como processo ao longo de toda a vida. Assim, a Educação Integral vai além simplesmente da educação em tempo integral. No entanto, a escola Van Humboldt ajuda em partes a enxergarmos como o tempo útil acaba sendo fundamental para criar um vínculo entre aluno e projeto educativo; ainda mais se compararmos com a realidade da maioria das escolas públicas brasileiras.

Como uma das primeiras medidas, revitalizar o espaço físico foi fundamental; é necessário cuidarmos do espaço que ocupamos. O campo de futebol, de tamanho próximo ao oficial, teve a grama cortada, as paredes pintadas e a escola ganhou uma nova cara. Outra medida – essa importantíssima e merecedora de destaque – foi a de valorizar a história do território por meio de iniciativas com os alunos para reafirmar a identidade do colégio e fortalecer o vínculo dos alunos com o espaço. Nessas aulas os estudantes aprendem sobre a história da escola e do bairro e isso faz com que elas consigam valorizar os espaços ali existentes. Conhecer a história da escola e da região ajuda a resgatar a autoestima dos alunos porque o espaço passa a ter mais sentido e significado para eles.

Pode parecer pouco, mas conhecer melhor sua história possibilita maior reconhecimento e, com isso, maior valorização de si. Quem mora em regiões periféricas é constantemente associado a imagens negativas veiculadas nas mídias, o que é às vezes tomado como verdade pelos próprios moradores, gerando um clima de autodepreciação. Reconstruir as imagens de onde se vive pode ser um movimento importantíssimo nessas situações. Nessa linha, logo na entrada, existe uma maquete, feita por um grupo de estudantes, representando a escola. Se os alunos são capazes de representar todos os espaços da escola, então eles conhecem a escola e saberão pensar em como utilizar o espaço da melhor forma.

Outra reformulação importante foi o fortalecimento da autonomia dos estudantes. Eles que devem se organizar, por exemplo, para saber como e quando utilizarão o campo de futebol, e também são eles quem se responsabilizam por deixar tudo limpo.

Não é só por meio do cuidado com o espaço que essa escola fortalece o protagonismo dos estudantes. Os chamados clubes juvenis são uma das almas do colégio. Eles são espaços previstos no currículo, onde os estudantes podem se reunir livremente para desenvolverem a atividade que julguem importante.

Ao todo, são 17 clubes juvenis. Hoje, alguns desses se organizam para aprender a tocar instrumentos, jogar algum esporte, desenhar, discutir sobre filmes, dentre outras atividades. Cada clube elege seu líder e vice-líder, que se reúnem quando necessário para dar conta de alguma demanda.

O grêmio escolar desempenha papel importante organizando outras iniciativas, como uma rádio que fica ligada durante o horário do intervalo e campeonatos esportivos nos horários livres.

Além desses espaços, os estudantes possuem a sua disposição os Projetos de Vida, uma atividade em que cada aluno pode desenvolver e pensar projetos futuros a fim de se conhecerem melhores e descobrirem o que gostariam ou não de fazer. Esse espaço visa a um autoconhecimento e uma autovalorização. Somado a isso, a escola também oferece aula de Orientação de Estudo, ou seja, se um estudante possui um projeto de passar num vestibular para Psicologia, alguns professores o ajudarão a estudar para realizar esse projeto.

Os professores ficam o dia todo na escola – possuem contrato de dedicação exclusiva, o que os torna muito acessíveis aos alunos. Os alunos podem tirar dúvidas até mesmo durante o horário de almoço, pois esse espaço é compartilhado tanto por professores, quanto por alunos.

Um dos elementos que permitem essa maior autonomia dos estudantes é uma grade curricular mais flexível, fator somente possível por conta da jornada de 9 horas. Atualmente, cerca de 70% do conteúdo curricular é formado pelas disciplinas obrigatórias e os demais 30% são flexíveis. Números expressivos para a realidade brasileira.

Dentro desse espaço livre são encaixadas as aulas de Orientação de Estudos, Projetos de Vida, além de tempo para as reuniões dos clubes juvenis e matérias eletivas. Outra marca da escola é o conselho participativo. Todas as classes têm um espaço bimestral de 2 horas em que participam alunos, professores e pais de uma determinada turma. Nesse momento, é realizada uma avaliação total dos estudantes e dos professores. Além desse espaço, os estudantes também preenchem uma ficha todo bimestre para avaliar ao menos cinco professores.

A principal reflexão que essa escola me trouxe foi a de como os alunos podem se ocupar da escola, tanto com suas atividades curriculares obrigatórias, quanto com as eletivas que eles próprios podem desenvolver e escolhem participar. A escola ainda tem muito a desenvolver e descobrir, mas já é pioneira no Brasil.

 

Referências:

http://escolaalexandrevonhumboldt.com.br/index.php/a-escola/pedagogico/

http://gestaoescolar.org.br/comunidade/comunicacao-360-graus-equipe-calendario-779825.shtml

https://www.youtube.com/watch?v=w0qubMyCrns

Imagem de divulgação: http://www.educacao.sp.gov.br/noticias/estudante-acredita-que-cursinho-prepatorio-para-o-vestibular-ajudara-a-conquistar-vaga-na-unesp


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

Postado por Germano Johansson | Em 11 de dezembro de 2015 | Tags: , , , , ,

Como todos sabem, o Governo de São Paulo voltou atrás no projeto de reorganização das escolas no estado. Depois de muita desorganização do poder público e muita organização dos estudantes, o caminho agora, de acordo com o governador Geraldo Alckmin, será o diálogo.

Estou faz tempo tentando entender as reais razões do projeto do governo e vou tentar resumi-las aqui. Começando pelo decreto, publicado pelo Governo de São Paulo diz o seguinte:

Artigo 1º — A Secretaria da Educação fica autorizada a proceder as transferências dos integrantes dos Quadros de Pessoal, nos termos dos artigos 54 e 55 da Lei Complementar nº 180, de 12 de maio de 1978, nos casos em que as escolas da rede estadual deixarem de atender 1 (um) ou mais segmentos, ou, quando passarem a atender novos segmentos.
Parágrafo único — Aplica-se o disposto no “caput” deste artigo às unidades escolares de Diretorias de Ensino distintas.
Artigo 2º — No caso de transferência dos integrantes do Quadro de Apoio Escolar e Quadro da Secretaria da Educação, a manutenção do Adicional de Insalubridade será por apostilamento do Dirigente Regional de Ensino.
Artigo 3º — As despesas decorrentes da aplicação do disposto neste decreto correrão à conta das dotações orçamentárias da Secretaria da Educação.
Artigo 4º — Este decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Nada mais. Só isso. Mas tem mais coisa por trás. A reorganização da rede estadual de ensino de São Paulo foi praticamente imposta pelo governo. Sem argumentos ou grandes embasamentos reais. Em um dos anúncios sobre o projeto, o ex-secretário de educação de São Paulo foi claro: as escolas estaduais seriam reorganizadas em 2016 de forma que mais escolas atenderiam apenas um período de ensino (ensino fundamental 1, ensino fundamental 2, ou ensino médio). Das 5.138 escolas, 754 passariam por essa mudança.

O principal argumento do governo para isso é que as escolas com apenas um ciclo de ensino têm um desempenho 10% melhor, devido à descentralização da gestão e da facilidade em traçar objetivos e gerir o quadro de professores. Por esse motivo, o governo decidiu que mais escolas tenham apenas um ciclo de ensino.

Mas o argumento rapidamente se mostrou problemático, e o governo mostrou falta de planejamento no projeto. Entre todas as escolas do estado, 94 receberam um informativo de fechamento em 2016 (1.8% da rede). Essas escolas, segundo o governo do estado foram escolhidas por serem unidades com menor ocupação das salas de aula, ou nas palavras do secretário, mais ociosas (como se a ocupação de 45 estudantes por sala de aula fosse a ocupação ótima que as escolas devem buscar, e como se baixa ocupação fosse o problema a ser combatido).

O fato curioso, é que das 94 escolas que tiveram seu fechamento anunciado, 30 tiveram desempenho superior à média do estado no ultimo IDESP. Além disso, 15 dessas 94 escolas, já possuem apenas um ciclo escolar. Rapidamente o governo caiu em contradição. Como um projeto que quer fazer com que mais escolas tenham apenas um ciclo de educação pretende fechar 15 escolas que já possuem apenas um ciclo, 30 escolas que possuem desempenho maior que a média, e reestruturar 754 escolas do estado, sem nem conversar com os estudantes e professores? O “top-down” do governo foi desorganizado, e não colou.

Por outro lado, o efeito colateral foi espetacular. Enquanto o governo desorganizadamente tentava cortar os gastos de 2016 na manutenção do já precário sistema escolar de São Paulo, as crianças brasileiras — entre 12 e 16 anos — ensinaram o que é organização.

Unidos, eles por conta própria começaram a reorganização escolar de que sentem necessidade. Ocupando quase 200 escolas no estado, crianças, extremamente politizadas, protestando contra uma decisão unidirecional, pintaram paredes, desentupiram bueiros, limparam banheiros, fizeram workshops, receberam palestrantes, discutiram, e de acordo com eles próprios “aprenderam mais nesse mês do que ao longo do ano escolar.”

O movimento transbordou para fora das escolas. Estudantes ocuparam avenidas, e o governo reagiu de forma medíocre, achando que o fluxo dos carros nas avenidas era mais importante do que pauta levantada pelos estudantes. A violência policial e a cobertura desvirtuada da mídia brasileira preocupam muito. Em um mesmo ano, tivemos professores e alunos apanhando em regiões diferentes do país. É muito triste, mas isso tudo mostra que mesmo sem a força política necessária, a nossa “verde” democracia está começando a amadurecer de baixo pra cima.

Não demorou muito para o governador de São Paulo revogar o decreto publicado na semana passada. O governador foi obrigado a ceder após um movimento enorme, que veio de todos os lados. Do Brasil inteiro.
As crianças em suas manifestações ensinaram o que é educação. Ensinaram que o que elas precisam é ser tratadas com dignidade. Reconheceram que as escolas eram muito grandes para duas faxineiras cuidarem sozinhas, e cuidaram das suas escolas com muito carinho. Ensinaram o que é política, Através de suas exigências de participação no projeto do governo, exigindo a aplicação da democracia e dialogando constantemente dentro das escolas. Ensinaram o que é negociação, colocando-se frente a frente com sargentos da polícia militar, dialogando, expondo suas angústias e suas preocupações, e respondendo de forma serena. Ensinaram inclusive qual é a reorganização escolar que eles precisam, e que ela deve partir de dentro da escola. Conectando-se através da enorme ferramenta que é a internet, sendo transparente em relação ao movimento, divulgando em tempo real o que estava acontecendo em todas as escolas ocupadas.

Sem a intenção, o governo de São Paulo catalisou um movimento extremamente forte, que se fortaleceu a cada dia. Cada vez que a polícia militar tentou invadir as escolas e violentar as ocupações escolares pacíficas, os estudantes se uniram ainda mais. Cada vez que os protestos e as manifestações foram recebidos com violência, o movimento ganhou mais força e mais exposição. E os estudantes, unidos, venceram.

Não tem como não celebrar. Em um momento extremamente delicado no país, um grupo de meninos e meninas de mão dadas nos mostrou que governos democráticos não são colocados em prática com caneta e papel. Nos mostrou que a politização de jovens é cada vez mais forte.

Quando as pessoas se levantam e lutam, elas vencem. E quando as pessoas não levantam e lutam, elas perdem.
Fica aqui o meu parabéns e o meu muito obrigado a todas as pessoas que levantaram. Essa batalha foi vencida.


Sobre Germano Johansson

É Coordenador na Diretoria de Finanças. Tem 27 anos, de Curitiba, Paraná. Tem consigo valores ideológicos muito fortes que lhe impulsionam a buscar a mudança e a transformação do país, e depois de todas as oportunidades educacionais que teve em sua vida, busca retribuir.