Na coluna da semana passada falei sobre uma virada assumida pela Finlândia, a diretriz nacional para o ensino transdisciplinar e transversal, e sobre  a sua importância para o ensino alegre, ou ensino significativo. Nessa coluna, desenvolverei mais sobre o que seria o ensino transdisciplinar, uma ideia importantíssima no século XXI.

Para compreendermos quais as características das atividades transdisciplinares na escola, precisamos entender e diferenciar os conceitos multidisciplinaridade (ou pluridisciplinaridade), interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Para isso, precisamos entender primeiro o que é disciplina.

Disciplina é uma palavra que está comumente associada à imposição de uma maneira de comportamento. Quem não se comporta desta forma é indisciplinado. Outra utilização desta mesma palavra está associada às diferentes áreas do conhecimento. Temos no currículo escolar diferentes disciplinas. Muitas vezes encontramos para uma mesma área do conhecimento várias disciplinas. A Matemática, por exemplo, está nos currículos dividida em disciplinas como álgebra e geometria.

Organizamos os conhecimentos que incorporam o currículo escolar de uma maneira que cada conteúdo deve ser alocado em um espaço definido, em uma disciplina específica. Portanto, podemos inferir que o conceito de disciplina, sendo visto como comportamento ou como conjunto de conteúdos de uma determinada área do conhecimento, sempre está associado à ideia de ordem. Uma ordem imposta artificialmente.

Agora, conhecendo o conceito de disciplina, podemos tentar entender o que são multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade.

Multidisciplinaridade (ou Pluridisciplinaridade)

São duas palavras que significam aquilo que encontramos nas realidades e contextos educativos formais hoje em dia. As escolas trazem em seus currículos conteúdos de diferentes disciplinas. O currículo tradicional escolar é um exemplo de currículo multi ou pluridisciplinar.

Esses conteúdos não saem de dentro de seus “compartimentos disciplinares”. Estão organizados e assim permanecem. Os professores não se comunicam entre si para compartilhar uma mesma aula. Cada professor dá a sua aula, sobre sua disciplina. Os alunos aprendem conteúdos separadamente. Geralmente são aulas descontextualizadas. O próprio professor não contextualiza seu conteúdo. Mas na vida real não encontramos esses conteúdos assim dispostos, separados e fragmentados.

É neste momento que encontramos o problema principal:

Na vida real os conteúdos nunca se apresentam separadamente. Sempre estão associados a outros conteúdos de diferentes disciplinas. As disciplinas não existem na vida real, são apenas uma forma de organizar os conteúdos de maneira artificial, imposta pelo ser humano.

A partir desse impasse, da impossibilidade de contextualizarmos os conteúdos disciplinares em uma didática e currículo multidisciplinar, emergiram a interdisciplinaridade e a transdisciplinaridade.

Interdisciplinaridade

Visando a superar essa dificuldade de se trabalhar os conteúdos de forma significativa e contextualizada, a visão interdisciplinar chega à escola em forma de projetos interdisciplinares, nos quais os professores de diferentes disciplinas se encontram e fazem seus planejamentos em conjunto a partir de um mesmo tema ou projeto.

Essa visão faz com que o aluno veja aproximações dos conteúdos de diferentes disciplinas, estabelecendo significado ao aprendizado.

A interdisciplinaridade é uma proposta bonita e que produz grandes resultados na escola. Os alunos aprendem de forma significativa, os professores trabalham em conjunto.

Os temas transversais que o governo brasileiro propõe são uma forma interessante de se trabalhar de forma interdisciplinar, pois todas as disciplinas podem fazer projetos tendo em comum um mesmo tema transversal. Esses temas são constituídos pelos Parâmetros Curriculares Nacionais (PNC’s), que incentivam o debate de determinados temas nas escolas, como Ética, Gênero, Meio Ambiente, Saúde, Pluralidade Cultural e Trabalho e Consumo. Temas fundamentais para uma formação política de qualidade.

Transdisciplinaridade

A ideia de transdisciplinaridade envolve não só os conteúdos disciplinares, mas também algo que vai entre, através e além das disciplinas.

Ou seja, para se trabalhar de forma transdisciplinar, devemos envolver conteúdos que não se adequam plenamente a nenhuma disciplina. Por exemplo, o corpo é um tema que está presente em várias disciplinas mas não pertence a nenhuma ao mesmo tempo. Está na disciplina de Educação Física, na disciplina de Biologia, na disciplina de Artes cênicas, mas não está totalmente inserido em nenhuma disciplina. Não é possível inserir o tema “corpo” em apenas uma disciplina.

Os temas transversais podem ser trabalhados de forma inter ou transdisciplinar. A diferença básica seria na forma como os professores trabalham. Se os professores trabalham cada um somente com sua disciplina, trata-se de um trabalho interdisciplinar. Mas se os professores fazem um mesmo planejamento, onde todos participam de todos os processos, indo além de suas disciplinas de formação, se envolvem toda a comunidade escolar e seu entorno, as famílias, então trata-se de um trabalho transdisciplinar.

Ou seja, um trabalho transdisciplinar obrigatoriamente deve conter elementos que vão além das disciplinas e do espaço disciplinar das classes de aula. A transdisciplinaridade na educação é entendida como a coordenação de todas as disciplinas e interdisciplinas do sistema de ensino inovado sobre a base de um sistema, ético, político e antropológico.

O essencial na transdisciplinaridade reside na postura de reconhecimento de que não há espaço nem tempo culturais privilegiados que permitam julgar e hierarquizar como mais corretos; por exemplo, a transdisciplinaridade não valoriza mais Matemática do que História, como acontece em alguns currículos escolares que oferecem três vezes mais o tempo de aula de Matemática do que de História.

(fonte: https://tonferreira.wordpress.com/2012/09/23/os-caminhos-da-interdisciplinaridade/ )

A transdisciplinaridade possui uma atitude mais aberta, de respeito mútuo e mesmo de humildade em relação a mitos, religiões, sistemas de explicação e de conhecimentos, rejeitando qualquer tipo de arrogância ou prepotência.

Segundo Piaget, a interdisciplinaridade seria uma forma de se chegar à transdisciplinaridade. A interdisciplinaridade considera um diálogo entre as disciplinas, porém continua estruturada nas esferas da disciplinaridade. A transdisciplinaridade, por sua vez, alcançaria um estágio onde não haveria mais fronteiras entre as disciplinas e se considerariam outras fontes e níveis de conhecimento.

Para entendermos de modo prático, aqui está um exemplo, um mapa sobre o Estudo da Porcentagem, algo que é geralmente apresentado pela Matemática, mas que possui uma amplitude enorme:

(fonte: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/0288.html )

Quando se constrói uma educação que pensa a amplitude dos temas que são apresentados, evitamos a aprendizagem mecânica dos alunos. Além disso o professor pode propiciar uma aprendizagem significativa decorrente da interação entre o novo conhecimento e o conhecimento prévio, porque, no exemplo da porcentagem que é um tema comum, nem sempre pensamos suas possíveis aplicações cotidianas.

É na escola que experimentamos a diversidade e aprendemos a contextualizar o conhecimento, desenvolvendo competências que irão tornar-nos capazes de intervir na realidade para transformá-la. É nesse microcosmo social que aprendemos que o exercício da cidadania é um ato diário e que cabe ao homem tomar decisões diante das situações que comprometem a sua sobrevivência e a sua qualidade de vida.

Uma educação transdisciplinar visa à plenitude do ser humano, amplia o ato cognitivo, promove uma sabedoria que esclarece o indivíduo, tornando-o ciente de sua autonomia e sensibilidade pela autoconsciência.

Referência:

http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/educacao/0288.html    http://educador.brasilescola.uol.com.br/gestao-educacional/os-temas-transversais-na-escola-basica.html

http://www.educabrasil.com.br/transdisciplinaridade/


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

Postado por Mapa Educação | Em 23 de julho de 2016 | Tags: , ,

O Senado Federal lançou recentemente uma consulta pública sobre o projeto de lei 193/2016, que pretende incluir entre as Diretrizes e Bases da Educação o programa Escola Sem Partido. Um dos temas centrais no projeto é a “doutrinação moral” que supostamente ocorre nas escolas. A justificativa do PL afirma, logo em seu primeiro parágrafo, que professores têm tentado impor sobre os estudantes padrões de “conduta moral – especialmente moral sexual – incompatíveis com os que lhes são ensinados por seus pais ou responsáveis,” e o artigo 3o veda “a veiculação de conteúdos ou a realização de atividades que possam estar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais ou responsáveis pelos estudantes.” Um passeio pelo site do movimento revela diversos artigos que criticam a educação sobre diversidade de orientação sexual ou identidade de gênero, alegando que ela estaria em conflito com os padrões “morais” de certas famílias, e demonstrando sempre o medo de que se “estimule o comportamento homossexual.”

Há uma confusão na proposta do projeto entre ensinar os alunos sobre uma realidade – que hoje é ativamente oprimida, inclusive por piadinhas de professores, por exemplo – e “estimular” essa realidade. Orientação sexual ou identidade de gênero não podem ser aprendidas na sala de aula. Prova mais contundente disso é o fato de que a escola, assim como o resto da sociedade, vem estimulando o “comportamento” heterossexual há séculos, e apesar disso a comunidade LGBT perdura. Orientação e identidade são naturais; não se podem mudar. Discutir diversidade sexual na escola não é ideologia, pois a existência dessa diversidade é um fato, não uma opinião.

Ser LGBT diz respeito à vida pessoal do indivíduo; não interfere com os direitos de terceiros, e portanto deve ser respeitado. Assim sendo, o objetivo da escola ao ensinar sobre diversidade sexual e de gênero nada mais é do que diminuir o sofrimento pelo qual esses grupos passam, de duas maneiras: primeiro, dizendo aos estudantes LGBT que eles são dignos de respeito como qualquer outro cidadão, e assim combatendo o ódio que eles foram ensinados a sentir por si mesmos; e, segundo, ensinando aos colegas heterossexuais e cisgêneros a respeitar a diferença.

O Programa Escola Sem Partido critica também a educação sexual como um todo (para além da temática LGBT), interpretando outra vez incorretamente que se estaria “estimulando” crianças a fazer sexo. Jovens se deparam com sua sexualidade mais cedo ou mais tarde. Se não aprenderam sobre o assunto na escola, aprenderão em outros lugares menos confiáveis – com amigos, na internet, na pornografia. Achar que se os jovens não aprenderem sobre sexo nas escolas eles não se interessarão pelo assunto é uma grande ingenuidade. O objetivo da educação sexual é ensiná-los a interagir com essa sexualidade de maneira saudável e segura, buscando prevenir, por exemplo, a contração de DSTs e a gravidez precoce. Fugir do assunto nas escolas não diminuirá a probabilidade de que jovens façam sexo, mas sim a probabilidade de que o façam de maneira segura.

Famílias têm liberdade de praticar a religião que elas bem entendem, mas há um limite de quanto elas podem interferir no que a escola – regida por uma legislação que deveria ser laica – ensina. Por exemplo, não podemos esperar que não se ensine a teoria da evolução por estar ela em conflito com o criacionismo. A religião não pode eliminar do currículo escolar um conteúdo que tem base científica. A existência de diversidade de orientação sexual e identidade de gênero, assim como a evolução, não é meramente uma opinião, e portanto deve, sim, ser ensinada nas escolas.

O Programa Escola sem Partido tem um entendimento profundamente errado do que é ou não ideologia ou doutrinação. Vivemos num estado laico; a abordagem de questões que buscam disseminar o respeito e a segurança entre nossos jovens não pode ser proibida por um moralismo religioso. O ensino de diversidade de gênero e a educação sexual são essenciais para que nossos jovens aprendam a respeitar a diferença e a lidar com sua sexualidade de maneira segura.

 

Imagem: http://bit.ly/2a8PDYh

 


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