Postado por Carolina Campos | Em 16 de agosto de 2016 | Tags: , ,

Com pouco mais de uma semana que os jogos olímpicos começaram no Brasil a toada já está bem definida: são as Olimpíadas do empoderamento feminino e da quebra de paradigmas.

Logo na cerimônia de abertura, a primeira constatação: a responsável por introduzir o time dos atletas, pedalando toda a sua liberdade pelo Maracanã, era a transexual Lea T. Linda, sorridente e confiante, Lea brilhou na bicicleta. Enquanto isso, no palco central do ginásio, duas rappers de cabelo cor de rosa mostraram todo o seu poder feminino: Karol Conká e Mc Sofia soltaram versos afiados e mostraram que o mundo mudou. Só não vê quem não quer. A uber model do mundo, nossa conterrânea, desfilou linda e cheia de graça, mas a passista acima do peso que lhe sucedeu não ficou atrás: caiu no samba e mostrou que ela também tem seus encantos. E como tem.

No esporte, a seleção feminina de futebol marcou logo de cara 3×0 no jogo de estreia. Uma prévia dos 5×1 que iriam lavar a nossa alma sedenta de gols. O orgulho foi tanto que, no jogo da seleção masculina, o estádio veio abaixo implorando por Marta. Claramente os tempos são outros.

Semana passada, nosso primeiro ouro veio de uma mulher. Negra, da periferia e judoca, Rafaela Silva, aquela que o mundo já feriu de morte ao mandá-la voltar para a jaula, superou todos os seus traumas e encarregou-se de dar um ippon no preconceito. A medalha é nossa.

A coisa está tão séria que mesmo quando a gente perde, o empoderamento está ali, evidente. Daniele Hypólito, nossa ginasta mais experiente, escolheu Anitta como trilha sonora para fazer sua apresentação no solo. Só isso já seria suficiente para mostrar como a ginástica evoluiu: deu adeus aos clássicos acordes de Bethoveen e abriu os braços para a Beyoncé do Brasil.

Mas teve mais: depois de arrasar na prova de trave, um passo em falso deixou Dani no chão na prova de solo. Ao final, um repórter lhe perguntou sobre o tombo. A resposta? “Por que você não me pergunta sobre o meu desempenho na trave?”, rebateu com serenidade na fala, típica de quem não se deixa dominar. Garantiu a medalha de ouro no quesito empoderamento.

Diante de todos esses exemplos, fica impossível não pensar em como serão as próximas Olimpíadas. Corremos o risco de, daqui a quatro anos, ter implementado o projeto popularmente conhecido como “escola sem partido.” Se for o caso, nossas crianças não poderão abordar temáticas de gênero em sala de aula. Ou seja, nenhum dos assuntos acima seriam trabalhados em sala de aula, sob o risco de ser tachado de “doutrinação.” Será que é isso mesmo o que queremos?

Nossas crianças de hoje serão os adolescentes das próximas Olimpíadas. Nossas crianças de hoje serão nossos atletas em 2020. Nossas crianças de hoje, se forem impedidas de debater de forma franca e verdadeira o que está acontecendo diante de seus olhos, se tornarão adultos alienados, com baixa massa crítica e sem capacidade de argumentação. Pior: serão adultos que perpetuarão preconceitos, estigmas e estereótipos. Algo que, claramente, já não cabe nem nos ringues, nem nas piscinas, nem nas quadras e, muito menos, nos bancos escolares.

Que as Olimpíadas – e todas as aulas de empoderamento que ela vem nos dando –, possam ser lembradas, trabalhadas e estudadas pelas nossas crianças. Que, em 2020, nossas crianças encarem as mudanças pelas quais passa o mundo de forma absolutamente natural, minando os preconceitos. Que, em 2020, tenhamos adolescentes, meninos e meninas, capazes de fazer escolhas conscientes, livres e sem medo. E que, em 2020, tenhamos as Olimpíadas da igualdade, do respeito e da paz.

 

Imagem: http://bbc.in/2aXqr2T

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Sobre Carolina Campos

35, de Manaus, Amazonas. É advogada por formação e docente por vocação. Fez mestrado em Ciência Política, estudou Direito Empresarial, saúde pública, educação e feminismo. Como advogada, trabalhou em escritórios como TozziniFreire e Dannemann. No serviço público, atuou na ANVISA. Por sete anos, foi também professora do ensino superior. Tornou-se gestora educacional, trabalhou com assuntos regulatórios em educação, coordenou um Núcleo de Prática Jurídica e outro de TCC. Fez um curso sobre metodologia científica na Universidade Leuven, na Bélgica, para aplicar no Núcleo de TCC que coordenou. Foi assessora da direção do IDP, em Brasília. Um belo dia fez as malas, vendeu os móveis, empacotou os livros e foi morar com a família em Cambridge. Lá, trabalhou no MIT Brasil, concebeu e coordenou um evento voltado inteiramente para educação junto ao grupo de pesquisadores da região de Boston, o PUB-Edu. Atualmente, estuda novas tecnologias da educação na Universidade de Harvard, é jornalista da Fundação Estudar, voluntária do grupo Spouses&Partners do MIT e Diretora de Conteúdo do Mapa.

Postado por Carolina Campos | Em 7 de julho de 2016 | Tags: , , ,

Soube hoje que a Lorrayne ficou em 18º lugar na Olimpíada Internacional de Neurociências, realizada na semana passada na Dinamarca. Dos 25 competidores, a brasileira negra, da periferia, vinda de escola pública, ficou à frente de muita gente boa. Numa das etapas, inclusive, ela ficou em 2º lugar após realizar uma prova oral totalmente em inglês.

Aliás, essa Olimpíada foi uma ótima vitrine dos novos tempos. Além de Lorrayne, o primeiro lugar foi conquistado por uma outra mulher. A jovem romena Ana Ghenciulescu foi a primeira representante de um país europeu a receber o prêmio mais alto da competição.

Esses dois exemplos são profundamente representativos do mundo que teremos nos próximos anos. No Brasil, dados da PNAD de 2014 revelam que o nível de instrução feminino manteve-se mais elevado do que o masculino. Para se ter uma ideia, na faixa de 25 anos ou mais de idade, a parcela com pelo menos 11 anos de estudo representava 40,3% para os homens e 44,5% para as mulheres [1]. Ou seja, as mulheres estudam mais tempo do que os homens. Em 2010, mais de sete milhões de mulheres haviam concluído um curso universitário, contra cinco milhões de homens [2].

Este diferencial implicará num futuro muito diferente para as próximas gerações. Mulheres que estudam mais tendem a adiar o casamento, a gestação e conseguem alcançar postos de trabalho mais disputados. E isso, daqui a 30 anos, vai gerar um impacto tremendo nas nossas relações sociais.

No entanto, o caminho é difícil. Embora as mulheres já sejam maioria nos cursos universitários, elas ainda ganham menos do que os homens. Dados da Comissão Econômica das Nações Unidas para a América Latina e o Caribe (CEPAL) revelam que a diferença salarial mais alta ocorre na população mais instruída (treze anos ou mais de estudo). Os homens deste grupo ganham 25,6% a mais do que as mulheres [3]. Isso significa que, na atualidade, quanto mais escolarizada é uma mulher, menor a sua recompensa, relativamente. Triste.

Quero crer que isso acontece porque estamos numa entressafra. Ainda vivemos num mundo que considera ser aceitável uma mulher ganhar menos do que um homem, mesmo exercendo função equivalente. Ainda vivemos num mundo em que congressistas acreditam que mulheres devem receber menos porque tiram licença maternidade. Mas, como a história é pendular, o conservadorismo que nos assola hoje deverá arrefecer no futuro. Assim espero.

Olhando para o lado mais cheio do copo, embora a disparidade salarial ainda seja uma questão, a verdade é que o número de empresas que têm uma líder como CEO aumentou de 5% para 11% em apenas um ano. Ou seja, as mulheres estão aumentando a sua presença nos cargos de liderança. Os dados da pesquisa “International Business Report (IBR) – Women in Business”, realizada pela Grant Thornton, demonstram que o aumento de escolarização da população feminina está diretamente ligado à presença das mulheres em cargos de chefia [4].

Nesse sentido, o Mapa anda bem. Muito bem, por sinal. Seu board de co-fundadores possui duas vezes mais mulheres do que homens. Além disso, a presença feminina é constantemente valorizada. O #agoraéquesãoelas, por exemplo, tornou-se uma constante no Movimento.

É claro que ainda falta muito para atingirmos a neutralidade de gênero no ambiente de trabalho e, por consequência, na sociedade. No entanto, meninas como a Lorrayne me fazem acreditar no futuro. É graças a ela e a essa horda de anônimas que estão lutando bravamente pelo seu diploma e pela superação de preconceitos que daqui a uns anos a nossa sociedade será severamente impactada. Para melhor.

 

Imagem: http://goo.gl/kCSb9J

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[1] http://brasilemsintese.ibge.gov.br/educacao/anos-de-estudo-e-sexo.html

[2] http://www.ibge.gov.br/apps/snig/v1/?loc=0&cat=-1,1,2,-2,-13,48,128&ind=4699

[3] http://oglobo.globo.com/economia/diferenca-salarial-entre-homens-mulheres-ainda-persiste-18832252#ixzz4DfuziuoL

[4] http://g1.globo.com/economia/concursos-e-emprego/noticia/2016/03/numero-de-mulheres-em-cargos-de-lideranca-tem-alta-no-brasil.html


Sobre Carolina Campos

35, de Manaus, Amazonas. É advogada por formação e docente por vocação. Fez mestrado em Ciência Política, estudou Direito Empresarial, saúde pública, educação e feminismo. Como advogada, trabalhou em escritórios como TozziniFreire e Dannemann. No serviço público, atuou na ANVISA. Por sete anos, foi também professora do ensino superior. Tornou-se gestora educacional, trabalhou com assuntos regulatórios em educação, coordenou um Núcleo de Prática Jurídica e outro de TCC. Fez um curso sobre metodologia científica na Universidade Leuven, na Bélgica, para aplicar no Núcleo de TCC que coordenou. Foi assessora da direção do IDP, em Brasília. Um belo dia fez as malas, vendeu os móveis, empacotou os livros e foi morar com a família em Cambridge. Lá, trabalhou no MIT Brasil, concebeu e coordenou um evento voltado inteiramente para educação junto ao grupo de pesquisadores da região de Boston, o PUB-Edu. Atualmente, estuda novas tecnologias da educação na Universidade de Harvard, é jornalista da Fundação Estudar, voluntária do grupo Spouses&Partners do MIT e Diretora de Conteúdo do Mapa.

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