É muito discutido o papel da escola na contemporaneidade como a promotora de valores elevados para o convívio social cooperativo e democrático. Vivemos tempos de dicotomias, de muito “isso ou aquilo”, “certo ou errado”, opiniões que são consumidas em fôrmas, muitas vezes sem tempo e espaço para reflexão e debate. Faço um paralelo com a nossa alimentação diária: cada vez mais parece que estamos com menos tempo para tudo, inclusive para comprarmos comidas cruas a serem preparadas, por isso acabamos comprando comidas congeladas, fast foods, etc. Parece não haver muito tempo para preparar nossas ideias, para pensar sobre algo, por isso acabamos optando pelas versões congeladas das mais diversas mídias.

Assim, é necessário o redimensionamento do tempo didático para redistribuir esse tempo entre as áreas tradicionalmente bem instaladas no currículo escolar (chamadas de cognitivas ou de conhecimento, como língua portuguesa, matemática, ciências naturais e humanas etc.) e a área da socialização (também chamada socioafetiva ou atitudinal), planejando projetos e sequências didáticas específicas a partir de objetivos claros sobre aonde se quer chegar com esse trabalho e o que queremos ensinar, para garantir experiências significativas e resultados efetivos. Garantidos, então, esse tempo e esse espaço, uma das propostas possíveis na direção do trabalho com esses valores é a realização das assembleias de turma.

Pensando uma Assembleia

Como

Podem acontecer periodicamente (semanal ou quinzenalmente), como parte da rotina de cada grupo do ensino fundamental, a partir do 2º ano. Podem ser momentos de 30min a 1h em que a turma toda se reúne para conversar sobre determinados assuntos escolhidos em conjunto, a partir de sugestões que os próprios alunos vão colocando em um envelope coletivo, conforme vão se dando conta das necessidades do grupo a respeito de situações que não vão bem e precisam ser melhoradas.

Configuração

É recomendável que se organize o local onde será realizada a assembleia de modo que todos enxerguem uns aos outros. Depois de decidido o tema, tendo em vista o tempo que se tem e a prioridade dos assuntos apresentados (o que não for possível contemplar em uma assembleia fica para a próxima), passa-se imediatamente à conversa sobre ele, em que os alunos envolvidos e os que desejarem se manifestam, um a um, explicando seus pontos de vista sobre a questão, perguntando o que não entenderam e/ou sugerindo encaminhamentos.

Dinamizando

Outro modo de dinamizar a assembleia é produzir um sistema de rodízio, os alunos vão exercendo diferentes funções nas assembleias: há um aluno (ou dupla) que inscreve os que querem falar e outro(a) que controla o tempo; há aquele que coordena e vai dando a palavra aos colegas e outro que anota os combinados e as conclusões da turma sobre o assunto.

Papel do(a) professor(a)

O(A) professor(a) participa como um membro independente (é a única pessoa que pode se manifestar sem estar inscrita, por exemplo, uma vez que está ali para ensinar os procedimentos de uma reunião como essa e garantir que gradativamente os alunos vão adquirindo maior autonomia nas tarefas e posturas necessárias para aproveitar a experiência da melhor maneira).Sempre que necessário, auxilia os alunos, sobretudo na coordenação dos diferentes pontos de vista visando soluções conjuntas. Faz isso retomando de quando em quando as ideias surgidas e devolvendo ao grupo a reflexão a que chegaram e as dúvidas que ainda restaram, estabelecendo limites sobre a abrangência e a possibilidade de alguma sugestão, reiterando certa regra sobre a qual não se discutiu, por exemplo, ou reelaborando o problema e voltando à demanda inicial, para poderem se dar conta do que ainda falta pensar.

Sobre o que falar?

Os assuntos podem variar, sem restrições, desde uma dificuldade vivida no recreio, em função de determinado aluno ou grupo que vem atrapalhando a brincadeira de outros ou da falta de materiais ou espaço para a realização de algum jogo, passando por implicâncias diversas vividas entre eles. Pode ser ainda em relação a alguma turma, e situações inadequadas no dia-a-dia das aulas, até problemas relativos a algum trabalho ou com algum adulto da escola, seja professor ou funcionário. E todos eles são acolhidos e tratados pelo grupo, que deve buscar em conjunto as melhores soluções possíveis, respeitando as regras gerais da escola e da boa convivência.

É necessário, portanto, um trabalho muito atento e constante relativo ao modo de apresentarem o problema e as suas ideias, para que consigam se expressar de forma cada vez mais clara e respeitosa. Os alunos aprendem, fundamentalmente, a dialogar: falar com colegas e adultos, com jeito e sem deixar de lhes dizer a verdade, perguntar e responder mantendo certa lógica e coerência na conversa. Aprendem a ver também o lado bom, mesmo de uma situação difícil, assim como sobre a importância de ouvirem o ponto de vista do outro, ainda que contrário ao seu, buscando formas de aproximar os dois.

Efeitos

A seriedade com que as crianças encaram esses momentos de assembleia e o modo como se comprometem com seu desenvolvimento, avançando significativamente nas relações com colegas e com o grupo, com a escola e com o aprendizado, mostram como essa proposta é potente para construírem aqueles valores elevados de que falávamos. Elas são colocadas numa posição para além da que poderiam assumir sozinhas, manifestando capacidades a princípio improváveis para a sua idade. Alguns adultos, aliás, se espantam quando ouvem sobre esse trabalho, duvidando da possibilidade de realizá-lo com crianças, já que se trata de habilidades complexas e sofisticadas, que eles mesmos, ou muitos de seus pares, não têm desenvolvidas. Mas as crianças conseguem, sim, e podem iniciar muito cedo a construção dessas atitudes, a partir da troca com seus colegas, instigada e apoiada por adultos responsáveis e experientes, que lhes lançam desafios significativos retirados das vivências das próprias crianças. E, então, respondem de forma muito adequada. É bonito de ver!

Mesmo que tenham dificuldade em manter aquelas decisões tomadas em conjunto fora da situação da assembleia, o exercício é fundamental, como forma de se apropriarem de procedimentos para chegar a elas e de, progressivamente, irem criando condições de crescente autonomia para manifestá-los em situações diversas. Além disso, os combinados passam a ser uma referência a que se pode voltar sempre que necessário, uma vez que tudo fica registrado. Claro que, a cada vez que são retomados, eles podem ser revistos e ampliados, porque as pessoas envolvidas já terão passado por outras experiências, inclusive pelas experiências cruciais e transformadoras das próprias assembleias, em que são ouvidas, acolhidas e acreditadas pelo grupo que faz sua aposta sempre a favor do outro e buscando seu avanço.


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com


“… é essencial que haja reflexão sobre os valores, considerando que a moral é um objeto do conhecimento que se aprende racionalmente. Contudo, raramente a educação apresenta ao aluno a moral como objeto de estudo e reflexão.”

A partir deste trecho do livro Crise de Valores ou Valores em Crise? [1]  proponho compartilhar algumas reflexões acerca daqueles conteúdos escolares que vão além das aprendizagens sobre ortografia, o funcionamento do corpo humano ou ainda a memorização das tabuadas. São aqueles conteúdos que permeiam a rotina escolar, em diferentes situações – formais ou não – e que podem ser marcantes na vida escolar de um aluno, de um professor, de uma escola. Podem aparecer em uma fala, em um gesto, em uma pergunta, em um olhar ou mesmo na falta dele. É no espaço escolar e nas relações que pulsam dentro dele que se encontra a riqueza.

A escola é o espaço da diversidade. Nesse contexto atende crianças de diferentes meios socioculturais, familiares, com experiências, aprendizagens, conceitos, leituras e representações distintas.

Se considerarmos as características da nossa sociedade atual, em que a gestão do tempo e das relações se dá de formas tão diferentes do que em um passado relativamente recente, percebemos o quanto é importante a escola atuar conscientemente na qualificação da convivência e das relações. Porque, mesmo que essas questões não estejam contempladas no planejamento dos professores e no trabalho da escola, é inevitável que tenhamos que lidar com elas, frequentemente, na resolução de um conflito, na forma de um se dirigir ao outro, nas divisões de tarefas, no compartilhamento de materiais, numa reunião com as famílias. A escola não é um campo neutro, é repleta de pessoas com valores, hábitos e pensamentos próprios, herdados de seus pais, avós, resultados de suas vivências, de sua história.

Assim, o melhor é conseguirmos garantir aos alunos momentos para compartilhar experiências pessoais com seus pares, mediados e coordenados por um adulto, permitindo que se coloquem no lugar do outro, que experimentem outros papéis, que reflitam, argumentem e defendam ou mudem suas ideias. Melhor ainda se esse tempo for frequente, sistemático e planejado.

armandinho

(fonte: https://www.facebook.com/tirasarmandinho/photos/a.488361671209144.113963.488356901209621/953002011411772/)

Muitos dos alunos de hoje, especialmente os jovens, conversam mais através de seus jogos eletrônicos e redes sociais, fora da escola, do que pessoalmente. E essa é outra característica da vida atual. Penso que cabe a cada escola aproveitar o que há de melhor nessas mudanças e nos recursos disponíveis, garantindo que não se percam algumas experiências próprias do ambiente escolar, como  a diversidade e a convivência. O tempo pedagógico também deve garantir o conteúdo humano e as relações. Ou seja, entende-se a educação como um conjunto de fatores, que não estão isolados e, sim, fazem parte de uma bela trama.

Na escola, esses alunos devem ser convocados a discutir sobre aqueles assuntos que os mobilizam, que os interessam e, por que não, que os atingem. Pode ser a qualidade do lanche ou a organização e atualização do acervo da biblioteca. Pode ser a divisão de tempos para uso da quadra no momento do recreio ou ideias sobre determinado trabalho ou tema de estudo. É através de discussões sobre temas comuns que se torna possível resgatar valores universais como respeito, responsabilidade, liberdade, honestidade e justiça. Pode ser um bom momento para pensar sobre quais os valores mais importantes para a escola e de que forma eles aparecem no currículo, no trabalho, na rotina.

Faz-se necessário oferecer nas instituições educativas oportunidades frequentes para a realização de propostas de atividades sistematizadas que trabalhem os procedimentos da educação moral. Procedimentos estes que favoreçam a apropriação racional das normas e dos valores, o autoconhecimento e o conhecimento do outro, a identificação e a expressão dos sentimentos, a aprendizagem de formas mais justas e mais eficazes de resolver conflitos e consequentemente o desenvolvimento da autonomia.

É reconfortante pensar que aqueles alunos que aprendem na escola a discutir e defender suas ideias e opiniões, visando ao bem-estar coletivo, cientes de valores importantes para a vida em sociedade, provavelmente serão os mesmos que o farão de forma efetiva e inteligente no futuro, nas reuniões de trabalho e de condomínio, durante um desentendimento no trânsito, na fila do supermercado. Instrumentalizar  com estratégias para resolver problemas e conflitos também é ensinar.

Em alguma medida, pode parecer preocupante oferecer esse “poder” a crianças e adolescentes, mas devemos entender que esse “poder” não é total, é mediado e trabalhado pelos (e com) os educadores. É fundamental esse cuidado dos educadores. Essa dinâmica permite que se desenvolva nos alunos o sentimento de pertencimento e de valorização. Na medida em que se sentem parte fundamental da escola, passam a cuidá-la e investem na sua manutenção.

Essa aprendizagem passa também pelos encaminhamentos na resolução de um conflito entre os alunos. Ouvi-los, ajudá-los a expressar como se sentem e exercitar sua capacidade de empatia, convocando-os a se colocarem no lugar do outro, são formas de agir que geram crescimento para todos os envolvidos. Para o aluno que foi vítima, que se sente acolhido e contemplado, e se sentirá mais à vontade ao trazer suas inquietações em outros momentos. Para aquele que agrediu, que pode dimensionar as consequências de suas ações e repensar formas de agir. Para os demais colegas, que conhecem novas formas de pensar, viver e que, de certa forma, passam a entender as diferenças de forma mais próxima. E até para o professor, que aprenderá ainda mais sobre a diversidade, planejando outras atividades que tenham este fim.

Apesar de insistirmos na necessidade de se oferecerem sistematicamente oportunidades para a aquisição da moral como um objeto do conhecimento, por meio da reflexão e dos procedimentos da educação moral, não podemos esquecer da importância de se construir uma atmosfera sociomoral cooperativa no contexto educativo. Reiteramos que para que possam ansiar por valores morais, nossos alunos precisam viver situações de respeito, de tolerância, de honestidade, de diálogo.

Referência:

[1] LA TAILLE, Y. de; MENIN, Maria Suzana De Stefano. Crise de valores ou valores em crise? Porto Alegre: Artmed, 2009.


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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