Por que acreditamos  que avaliar é pôr uma nota para cada estudante em vez de conhecer a estratégia utilizada por uma aluna ou aluno na execução de uma determinada tarefa? Ou compreender as causas de suas dificuldades e ajudá-los a tomar decisões sobre a  forma de superá-las?

Por que não pensar que a avaliação é útil quando favorece que os alunos aprendam a se autorregular autonomamente, e deixar de crer que somente serve para que os professores detectem erros e êxitos?

Por que pensar que é sempre o professor quem detectará êxitos e erros dos que aprendem e proporá o que deverão fazer para melhorar e, em troca, por que não deixar que seja o próprio aluno ou aluna que reconheça seus acertos e suas dificuldades? Ou: por que não estimular seus colegas a ajudar os outros neste processo avaliativo?

Aproveito este momento de início de ano, em que os professores estão em seu período de férias e começam a pensar no ano letivo que passou e no que virá, para compartilhar essas questões e algumas das reflexões que elas proporcionam, o que talvez possa trazer elementos para o leitor também produzir as suas e, quem sabe, a partir delas, poder construir com sua equipe formas cada vez mais qualificadas de avaliar – e ensinar! – ao longo deste ano.

Ensinar, aprender e avaliar são, na realidade, três processos inseparáveis.

Podemos pensar que a avaliação ainda tende mais a se restringir ao “pôr uma nota para cada estudante”, ou seja, há ainda uma contradição entre o modo de ensinar e o modo de avaliar: o primeiro já mais alinhado a uma visão ampla do que seria a educação, considerando todos seus aspectos, e o segundo ainda preso ao tradicional que separa a educação em partes distintas. Assim, as avaliações ainda têm sido, muitas vezes, mais das etapas e dos saberes linguísticos desligados das práticas sociais de leitura e escrita, e menos dos processos relativos a essas aprendizagens.

Essas avaliações generalizadas e tradicionais são, com certeza, bem mais simples, embora consumam horas de trabalho de correção pelos professores, em geral fora da sala e sozinhos. Mesmo quando seus resultados são uma média calculada a partir de diferentes produções dos alunos, as quais se transformam em uma nota ou conceito, elas revelam muito pouco do processo e contribuem menos ainda com a aprendizagem e o ensino.

Por outro lado, conhecer estratégias que os alunos utilizam ao realizar tarefas, para poder compreender suas dificuldades e auxiliar em seus avanços, é tarefa bem mais complexa e dá infinitamente mais trabalho. Exige atenção e observação constantes do professor em relação ao que o aluno está fazendo e ao modo que foi realizado. É preciso trabalhar junto com o aluno, estar de olhos e de ouvidos atentos ao seu processo, perguntando e desafiando de diferentes formas e em medidas variadas, entendendo como ele pensa e categorizando suas respostas à luz de parâmetros e referenciais singulares. Também envolve propostas mais elaboradas, que coloquem os alunos a explicarem, uns aos outros, o que estão aprendendo, a fazerem perguntas, resumos e esquemas, buscando maneiras de formular e mostrar o que estão pensando.

Ao longo de toda uma sequência de trabalho, nas suas diferentes etapas, com as idas e vindas necessárias, isso proporcionará ao professor um conhecimento aprofundado sobre seu aluno e permitirá intervenções mais adequadas e efetivas na direção dos objetivos traçados, considerando as possibilidades de cada aluno a cada momento.

Para que realizar o trabalho? O que podemos aprender a partir dele?

Essas perguntas são fundamentais para os alunos. Na medida em que os próprios alunos conhecerem os objetivos do projeto ou da unidade de estudo, estarão mais diretamente engajados, prontos a participarem também de sua avaliação, assim como da programação de novas ações para superarem eventuais dificuldades.

Assim, se pensarmos, por exemplo, na avaliação de um texto, podemos simplesmente devolvê-lo aos alunos com as marcas da correção, que destacam os erros cometidos, e um conceito, ou podemos oportunizar revisões (coletivas, em grupos, duplas e/ou individuais) que discutam os erros e acertos, que busquem alternativas de correção e justificativas.

No primeiro caso – que talvez tenha sido vivido por muitos de nós como alunos -, o professor teve trabalho, levando os textos para casa e corrigindo-os um a um, mas os alunos, que apenas os receberam, só olham e guardam, ficando contentes ou chateados, conforme o conceito tenha sido bom ou não e as marcas poucas ou muitas. E os alunos com dificuldade(s), a cada texto recebido com o mesmo conceito e as constantes marcas, ficam se perguntando sobre o que fazer e como melhorar, já que, apesar do esforço, muitas vezes, repetem o desempenho. Sim, porque alguns erros, talvez os de atenção, até poderão ser reconhecidos, mas a maioria, que se refere ao que o aluno não sabe (e por isso errou!), dificilmente poderá ser corrigida por ele sozinho e muito menos a simples correção do professor irá contribuir para alguma aprendizagem que supere essa(s) dificuldade(s). Para que serviria, então, a avaliação? Nesse caso, somente para qualificar, classificar, certificar e/ou selecionar.

No segundo caso, no entanto, podemos vislumbrar a possibilidade de uma outra aprendizagem. Uma que mostra como se faz, oferece situações para que o aluno interaja com o objeto de estudo e se faça perguntas,orienta suas experiências, acompanha suas hipóteses, formulações e novas tentativas, e desafia a cada passo é auxiliar e dar a mão para o aluno avançar e perceber esse avanço com satisfação.

Acredito que revisando junto, discutindo, usando pautas e critérios claros, de preferência elaborados com o próprio aluno, e/ou aulas específicas sobre determinadas ocorrências ortográficas, gramaticais, estruturais e de linguagem (ainda no exemplo de uma aula de redação), intercaladas com as discussões, que ele irá construir conhecimentos necessários para realmente avançar, de modo a, gradativamente, ter condições de se autoavaliar, inclusive enquanto escreve, de revisar seu texto, de buscar referências em fontes seguras que aprendeu a utilizar, ou seja, de se autorregular.

Em outras palavras, se acreditamos que a avaliação pode servir também para aprender e ser formadora, é preciso a participação ativa do aluno e um trabalho ágil, diversificado e persistente dos professores em aula, com os alunos, apontando, questionando, informando, desafiando, trazendo modelos e exercícios de sistematização de determinadas habilidades e conhecimentos relacionados. Sem falar, é claro, na necessidade de contextualizar e dar sentido a essas escritas e seus objetivos.


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com


Qual é a primeira imagem que nos surge quando pensamos em crianças na escola?

Se foi uma repleta de correrias, risos e gritarias de crianças brincando num espaço agradável e colorido, isso não é por acaso.  A brincadeira pertence à criança, relaciona-se diretamente à infância na nossa cultura. E é muito comum observarmos esses momentos de brincadeiras na rotina das escolas, especialmente nas infantis, com as crianças construindo castelos, conversando com ursinhos, alimentando as bonecas.

Num outro artigo publicado anteriormente eu listei alguns pontos sobre  por que  brincar é tão importante. Mas desta vez, quero apresentar outras visões sobre o brincar e sua importância.

Brincar é muito mais que diversão

A brincadeira é muito mais do que diversão e movimentação física. E mesmo que fosse somente isso já seria muito importante para o desenvolvimento das crianças. Mas é bem mais, como já apontava o alemão Friedrich Froebel (1782 – 1852), criador dos jardins-de-infância, que foi quem, pela primeira vez, viu o brincar como atividade responsável pelo desenvolvimento físico, moral e cognitivo das crianças e pelo estabelecimento das relações entre os objetos culturais e a natureza.

A brincadeira permite também a construção de conhecimento pela criança. É fonte inesgotável de investigações e descobertas, além de linguagem que desenvolve suas potencialidades na construção de sua personalidade.

Até mesmo o MEC destacou a importância do brincar

“A brincadeira é uma linguagem infantil que mantém um vínculo essencial com aquilo que é o não brincar. Se a brincadeira é uma ação que ocorre no plano da imaginação isto implica que aquele que brinca tenha o domínio da linguagem simbólica. Isto quer dizer que é preciso haver consciência da diferença existente entre a brincadeira e a realidade imediata que lhe forneceu conteúdo para realizar-se. Nesse sentido, para brincar é preciso apropriar-se de elementos da realidade imediata de tal forma a atribuir-lhes novos significados. Essa peculiaridade da brincadeira ocorre por meio da articulação entre a imaginação e a imitação da realidade. Toda brincadeira é uma imitação transformada, no plano das emoções e das ideias, de uma realidade anteriormente vivenciada” (Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil, 1998, MEC/SEF, p.27).

Em outras palavras, brincar é a forma natural da criança explorar o mundo, construindo seu próprio saber, explorando os limites do seu corpo e mente e adquirindo experiência, assim como aprendendo a respeitar o outro, desenvolvendo o sentimento de grupo, ativando a imaginação e autorrealizando-se.

A escola e o brincar

Sabendo disso, a escola deve se organizar para incluir, tanto quanto possível, o brincar e a brincadeira na sua rotina. É fundamental que se assegure à criança o tempo e espaço para que o lúdico seja vivenciado com intensidade capaz de formar a base sólida da criatividade e da participação cultural e, sobretudo, para o exercício do prazer de viver.

Mas a brincadeira não deve ocorrer apenas  em situações “livres”, reservando espaços de tempo para que as crianças realizem suas brincadeiras espontâneas. Também é essencial transformar em brincadeira as situações em que se tem uma intencionalidade mais específica de ensinar, ou seja, planejar propostas de aprendizagem em forma de brincadeira ou jogo. Afinal, o brincar é o mais completo dos processos educacionais, porque influencia o intelecto, o corpo e as emoções da criança.

Utilizar, portanto, princípios da brincadeira e do jogo espontâneo da criança nas situações de aprendizagem escolar  potencializa a criança, permitindo que, além de aprender de forma mais significativa o conteúdo em questão, ela se autorregule e se organize, construindo normas para si e para o outro, conjuntamente.

Sim, porque o brincar também é um importante meio de socialização da criança

O convívio com seus pares estimula a troca de pontos de vista diferentes, ajudando a criança a perceber como os outros a veem e auxiliando a criação de interesses comuns, ou seja, de razões para interagir com o outro. Além disso, a vivência do ganhar e do perder a auxilia a lidar com a frustração e, ao representar papéis, “fingindo” ser outra pessoa, a criança torna-se mais consciente das diferentes maneiras de ver e sentir a mesma situação, tornando menos egocêntrica a sua visão do mundo.

Assim, a hora de brincar é muito mais do que o momento de recreação para a criança. Além de se divertir, a criança que brinca está nutrindo sua vida interior e dando um sentido para as experiências e descobertas que realiza, fortalecendo também a relação afetiva com o mundo, com as pessoas e com os objetos. Para a criança e adultos, brincar é viver.


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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