Postado por Lucio Flávio | Em 2 de junho de 2016 | Tags: , , , , , , , ,

George Herbert Mead foi um psicólogo cujo trabalho foi desenvolvido no começo do século XX. Ele coloca o “jogo”, ou a “brincadeira”, como prática essencial para o desenvolvimento infantil/humano. O brincar apresenta-se como essencial: quando criança, quem nunca se sentiu um personagem ficcional ou em uma nave espacial apenas com objetos simples, como caixas de papelão? Durante a escola, quem nunca esperou ansiosamente o sinal de intervalo para sair da sala de aula e brincar com os colegas no pátio?

Essas podem parecer perguntas simples, que podem receber respostas mais simples ainda, mas para quem acredita que o recreio é apenas uma lacuna no cotidiano escolar, é necessário compreender que o tempo de brincar é tão fundamental quanto o tempo de estudar. E que brincar também faz parte do processo de desenvolvimento humano. Desse modo apresento a vocês seis motivos para acreditarem que brincar tem tudo a ver com educação de acordo com Mead e recursos já existentes.

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1) Que infância estamos construindo?

Devemos começar nos questionando: qual infância estamos construindo? É comum os pais e educadores reclamarem da falta de tempo, e o brincar é colocado em segundo plano. As consequências são graves para o desenvolvimento das crianças e também da vida adulta, pois uma das saídas encontradas é a patologização desse comportamento junto à medicalização infantil. Hoje, uma criança que brinca durante a aula pode receber o diagnóstico de TDAH, mesmo já existindo diversas críticas direcionadas a esse diagnóstico por ser muito confuso e impreciso, além de críticas voltadas aos cuidados pós diagnóstico. São comportamentos que estão sendo relatados como uma epidemia, o que não deixa de ser uma verdade, pois todas as crianças brincam e isso não deveria ser considerado como desvio de comportamento. Entendo que existem momentos em que é exigida disciplina, mas brincar é comum a todas as crianças e estes momentos devem ser tão respeitados quanto os de disciplina, até porque as crianças que se adequam mais facilmente à disciplina não são medicalizadas para brincar. Ou seja, esse movimento de alteração de comportamento apresenta assim o seu objetivo e não pensa no bem-estar da criança, mas na criança como um produto final que não necessariamente será interessante. Parece não se precisar de crianças interessantes, mas de crianças “obedientes”. Ou seja, trata-se como doença a ser combatida o ato de brincar sendo que esse ato é uma oportunidade educativa que vai muito além do currículo escolar tradicional. Deveríamos priorizar, sim, os momentos lúdicos e livres da criança possibilitando o seu desenvolvimento em plenitude, além de constituírem um processo no qual a sociedade se humaniza, pois simpatiza-se e empatiza-se.

Brincar é uma oportunidade da criança conhecer outras pessoas da sua idade e aprender com elas. É nesse momento que acontece o desenvolvimento social, criativo e emocional. Quando a brincadeira é livre, a autonomia da criança é favorecida. Isso alimenta o seu desenvolvimento físico, intelectual, emocional e social. É por isso que devemos pensar, primeiramente, em que infância estamos querendo construir, se essa deve ser controlada ou se pode ser múltipla e ter suas potencialidades desenvolvidas em sua expressões de ser.

2) Toda criança tem o direito de brincar

Há uma série de dispositivos nacionais e internacionais que ressaltam a importância da brincadeira no processo de aprendizagem de bebês e crianças. No Brasil, o Estatuto da Criança e do Adolescente estabelece o brincar e o divertir-se como aspecto fundamental do direito à liberdade; já o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998) garante “o direito das crianças a brincar como forma particular de expressão, pensamento, interação e comunicação infantil”.

Porém é baixa a consciência da importância do brincar e da recreação. Para atender as necessidades do adulto, as crianças brincam em espaços confinados como shoppings centers e playgrounds de condomínios. Tais dispositivos legais não garantem que esse direito seja exercido nas escolas do país.

Cena do filme Territorio Brincar

Cena do filme Territorio Brincar

3) As escolas limitam as brincadeiras

Por que as escolas limitam as brincadeiras? Nas escolas em que se utilizam apenas os horários de intervalo para deixarem os alunos “brincarem” é raro encontrar espaço para as fantasias infantis. As brincadeiras estão quase que prescritas. É claro que a brincadeira deve ser segura, mas ela precisa também trazer um desafio para a criança. O educador não precisa ter um objetivo toda vez que a criança for brincar, pois é nesse momento que surge a espontaneidade.

É preciso repensar o momento do brincar, dando a oportunidade da criança conduzir o seu interesse e seu tempo. Por meio da metodologia lúdica, a criança aprende naturalmente. É um espaço em que ela cria, sente e pensa. Não é isso que a escola precisa?

4) Toda criança brinca

Quem trabalha com criança naturalmente teria que trabalhar com o brincar. Durante as atividades, são trabalhados diversos aspectos do desenvolvimento do ser humano: lazer, diversão, descoberta, liberdade, noção de regras, memória, experimentação, autonomia, socialização, identidade, representação e imaginação. Ao mesmo tempo em que é uma ação de todos nós, o brincar é inerente à condição da criança e sua percepção do mundo.

A brincadeira pode revelar a essência da criança e esse processo deve ser protagonizado mais pela relação com a natureza do que com os brinquedos industrializados. Devemos defender uma infância em que as crianças tenham tempo para construir seus próprios brinquedos. A natureza é uma grande amiga da criança e possibilita um terreno muito fértil para a imaginação e um brincar ativo. O brincar é um gesto que diz respeito à condição humana. É a nossa primeira intervenção no mundo, segundo Mead.

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5) O imprevisível pensa os limites

Hoje, a criança não tem muitas oportunidades de brincar, pois muitas delas não saem nem de seus lares. Precisamos criar oportunidades, porque elas continuam querendo brincar como antigamente. De algo natural, a brincadeira passou a ser controlada pelos adultos. Vivemos em uma sociedade de aversão ao risco, que o entende negativamente – e não como oportunidade. Por isso, vemos a redução de parquinhos e do acesso aos espaços públicos. A minimização dos riscos levou à criação de espaços estéreis e monótonos para as crianças.

Ao ser imprevisível, incerto e novo, o brincar contém naturalmente elementos de risco. Crianças são atraídas por atividades arriscadas: correr, pular, fazer algo que nunca fizeram, testando o limite de seu controle. Ou seja, prezar pela segurança não significa criar um ambiente estéreo para as crianças, mas deixar que elas pensem seus limites de acordo com as imprevisibilidade que se deparam. Com isso não estou dizendo que não haverá cuidado com as crianças, mas que cuidado não implica em aprisionamento. Um exemplo interessante de cuidado é a escola projetada pelo arquiteto japonês, Takaharu Tezuka, pensando em como as crianças gostariam que sua escola fosse. Um dos pontos importantes que ele destacou foi justamente o da possibilidade das crianças se machucarem, mas não como se isso fosse perigoso, e que devesse ser evitável, mas como se isso fosse inevitável, pois esses riscos fazem parte do “ser criança”. Segundo ele, somos projetados para resistir a quedas e impactos.

6) Se a criança pode brincar livremente em algum lugar, esse é um bom lugar para se estar

A busca por espaços públicos mais convidativos à população em geral e, especificamente, às crianças, deve ser objetivo de toda a sociedade. A criança precisa vivenciar o dia a dia da cidade. Ela tem que se sentir em sua casa quando está no espaço público. Tenho certeza de que, para muitas crianças, brincar na praça é um luxo. O brincar é uma importante ferramenta na construção de uma cultura de paz, pois através dele você reforça relações familiares e de amizades. O direito ao brincar fortalece os vínculos comunitários.

As crianças possuem a receita ideal para uma nova relação entre os cidadãos, que preze pela afinidade e compaixão e não pela violência e distanciamento. A criança nos ensina, os adultos, a sermos mais acolhedores da diferença.

 

*Imagens retiradas da internet sem referência

 

Referência/Inspiração:

  1. H. Mead & a Educação – Editora Autêntica

Território do Brincar


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

Postado por Lucio Flávio | Em 26 de maio de 2016 | Tags: , , , ,

Trabalhar em grupo é uma das grandes dificuldades que enfrentamos. Eu, pelo menos, confesso essa dificuldade. Geralmente encontro nos grupos dificuldades de organização, de responsabilidade e de diálogo. Isso porque, desde os primeiros anos de escola, são demandadas de nós certas atividades em grupo, mas não se vê um incentivo adequado para o funcionamento desse grupo, nem do funcionamento individual dentro do grupo. Quando falo isso não tento culpar o educador, pois provavelmente essa pessoa também não sabe como trabalhar em grupo, embora entenda a importância que esse tipo de dinâmica pode produzir para os indivíduos. Por isso, hoje apresento a vocês um processo educacional que já acontece em alguns países europeus e em algumas escolas brasileiras, a Aprendizagem Cooperativa.

Esse processo não é novidade; as investigações em torno de seu funcionamento começaram nos anos 70. Tal aprendizagem é um método de ensino e aprendizagem que se estrutura pela utilização de pequenos grupos de alunos que trabalham em conjunto para maximizar sua própria aprendizagem e a de seus colegas. Essa teoria se apoia em dois pilares essenciais; o primeiro deles é a aprendizagem. A aprendizagem requer participação direta e ativa de todos os estudantes, visto que nenhum deles pode aprender por ninguém. Além disso, ela pressupõe a existência da interajuda.  O segundo pilar é a ajuda mútua e cooperação, que possibilitam atingir níveis mais altos de aprendizagem, de melhor qualidade. Só se pode falar de aprendizagem cooperativa quando se organiza uma tarefa cuja condição necessária para realização é a cooperação de todos os elementos nela intervenientes. Um aluno só poderá ter sucesso nessa tarefa se todos os elementos do grupo tiverem sucesso, o que faz com que o sucesso de cada um esteja dependente do sucesso de todos.

Deve-se entender que esse modelo de ensino-aprendizagem não exclui a personalização do ensino, como foi falado num post anterior. O contexto de grupo pensado pela aprendizagem cooperativa não exclui as habilidades e/ou competências individuais, muito menos seus desenvolvimentos.

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Características dos grupos cooperativos e dos grupos tradicionais

Suponhamos uma atividade escolar em grupo. Geralmente quando falamos em grupo pensamos num grupo tradicional, como o que falei no início, repleto de falhas de comunicação, de responsabilidades, e de organização. Diferenciando-se desse grupo tradicional, um grupo considerado cooperativo tem que assumir as seguintes características:

  1. a) interdependência positiva: considerada a principal característica da aprendizagem cooperativa, consiste na percepção que cada elemento do grupo tem de que só será bem-sucedido se todos os outros também forem, de modo que o trabalho de cada elemento beneficia o grupo e o trabalho do grupo beneficia cada elemento. Para intensificar a interdependência positiva nos elementos do grupo, podem ser utilizadas as recompensas de grupo, a partilha de recursos e os papéis complementares. Por exemplo, buscar saber o que o grupo entende como recompensa e oferecê-lo igualmente após concluir uma tarefa, no caso de uma escola, talvez flexibilizar o horário dos alunos, caso eles gostem de horários flexíveis.
  2. b) responsabilidade individual e de grupo: cada aluno é responsável por fazer a sua parte do trabalho, que é decidida pelo próprio grupo. Desse modo, os professores precisam avaliar o esforço de cada elemento na resolução do trabalho, sempre dando feedback a cada aluno e ao grupo na totalidade;
  3. c) interação promotora: na realização de uma tarefa com objetivos comuns, cada aluno tem de se preocupar com o sucesso dos elementos restantes. Por isso, tem que ajudar os colegas, caso seja necessário, e partilhar os recursos, estabelecendo-se um compromisso entre todos. Os elementos do grupo têm que se motivar mutuamente, felicitando-se em conjunto pelas aprendizagens realizadas. A interação estimuladora possibilita o aumento do rendimento escolar e faz com que o conhecimento mútuo melhore. Para que seja eficaz, o tamanho do grupo deve ser entre dois e quatro elementos;
  4. d) habilidades sociais: indispensáveis no trabalho em grupo cooperativo, têm que ser ensinadas aos alunos para que consigam cooperar de forma eficaz. Algumas dessas competências são a liderança, a escuta ativa, a comunicação e a resolução de conflitos;
  5. e) avaliação do grupo: ocorre quando os elementos do grupo analisam o cumprimento dos objetivos estabelecidos para uma tarefa e para si próprios, tendo em conta as regras definidas. Nessa avaliação, os alunos têm que determinar as atitudes positivas e negativas e as condutas que o grupo deve manter ou modificar. Para que eles possam realizar essa avaliação, necessitam que lhes seja concedido o tempo necessário, bem como as condições essenciais.

 

Nos grupos tradicionais, não existe interdependência positiva entre os elementos, que nem sempre trocam informações e conhecimentos sobre a tarefa que os envolve. Além disso, não existe discussão de ideias e os alunos apenas são responsáveis por si e não pelos colegas; da mesma forma, não há a construção de um espírito de equipe, uma vez que as atividades que promovem esse espírito são descuradas.

Algumas vezes, no meio do grupo, gera-se uma discussão pela liderança, não sendo originada pelo valor do aluno que a provoca, mas, sim, por uma questão de afirmação diante da turma e do professor. As competências sociais também não são ensinadas, porque se presume que os alunos já as possuam. O professor, por sua vez, além de não controlar os grupos, não lhes dá feedback sobre o seu funcionamento; já os alunos mais responsáveis preferem trabalhar sozinhos, porque pensam que suas capacidades não estão sendo aproveitadas dentro do grupo. Por fim, os professores que recorrem a métodos de aprendizagem tradicionais não permitem qualquer tipo de cooperação por parte dos alunos, sendo que cada um deles interage apenas com a informação dada pelo professor, que pode ser oral ou escrita.

Deve-se levar em conta que essas características não parecem naturais. E se considerarmos como a educação é produzida e reproduzida, a nível de massa, realmente não são, mas podem, com toda certeza, serem mais comuns a nós. O leitor interessado pode achar mais material nas fontes.

Trabalho em grupo que seja eficiente e efetivo, no século XXI, é uma habilidade extremamente demandada para qualquer tipo de posição. E, não só pensando no mercado de trabalho, mas neste contexto de uma sociedade democrática e heterogênea no nível social, cultural e econômico, cada vez mais as escolas e os professores deparam-se com o desafio de encontrar formas de organizar e maximizar a aprendizagem dos diversos alunos e de educá-los para que sejam capazes de cooperar e estabelecer relações interpessoais positivas. A aprendizagem cooperativa pode, sem dúvida, ajudar a responder a esse desafio, e material é o que não falta para que o aplicamos e o levemos adiante.

 

Referência:

 

Aprendizagem Cooperativa na Sala de Aula: http://www.olimpiadadehistoria.com.br/vw/1I8b0SK4wNQ_MDA_b3dfd_/APOSTILA%20DE%20Aprendizagem%20Cooperativa%20-%20Autor-%20Ednaldo.pdf

 


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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