Postado por Isabella Rozzino | Em 27 de junho de 2018 | Tags: , , ,

Em uma recente pesquisa realizada pelo Iede (Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional) para o Nexo, professores pelo país “atribuem o fracasso (do) aluno à origem social”, enfatizando o poderoso impacto da família e do contexto social no desempenho escolar apesar dos esforços dos professores. De fato, dos mais de 250.000 professores da rede pública entrevistados, 94% afirmaram que os problemas dos alunos nas suas respectivas escolas podem ser traçados à falta de acompanhamento dos pais. Diante de tal cenário, será que alunos com pouco acompanhamento dos pais estão fadados ao fracasso? O que as escolas e os professores podem fazer?

Um dos estados com maior progresso educacional nos últimos anos e com muita coisa para ensinar para o resto do país é o Ceará. Desde 2007, o Programa Alfabetização na Idade Certa (PAIC) virou um pilar da política educacional cearense para espalhar a alfabetização no 2o ano do Ensino Fundamental. O programa oferece uma gama extensa de recursos, como por exemplo formação continuada aos professores, apoio à gestão escolar e premiações anuais para as melhores escolas do estado, além do monitoramento dos alunos através de diversas provas paralelas aos exames nacionais como o SAEB. Desde sua criação em 2007, o programa foi esticado além do 2o ano, atingindo alunos até o fim do ensino fundamental, assegurando assim que os alunos cearenses entrem preparados no ensino médio.

Os resultados de 2017 novamente mostram como o projeto vem sendo bem sucedido no aumento dos índices de alfabetização do estado. Segundo dados divulgados pela Secretaria da Educação do Ceará (SEDUC), enquanto em 2008 somente 30,82% das crianças até o 2o ano estavam alfabetizadas a um nível desejável ao mesmo tempo que 20% não eram alfabetizadas, em menos de 10 anos o cenário mudou completamente. Hoje, o percentual de crianças plenamente alfabetizadas até o fim do 2o ano é de 77,4% contra somente 3,7% de crianças não alfabetizadas, essencialmente transformando o Ceará em uma liderança no país quando se trata de alfabetização.

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Elaboração do autor a partir de dados do SPAECE

Para que o PAIC funcione, porém, é necessário ter uma política de longa data que enfatize o desenvolvimento educacional ano após ano dos alunos cearenses. Através do gráfico, é possível visualizar a extensão da melhoria no desempenho dos alunos nas suas avaliações respectivas. O SPAECE-Alfa e o SPAECE 5o ano, por exemplo, são só uma parte do programa educacional cearense e servem como um meio de acompanhamento dos alunos nos anos iniciais do Ensino Fundamental, nos anos da alfabetização e no final do ciclo do Fundamental I, respectivamente. Através das suas avaliações em língua portuguesa e matemática, o SPAECE dá aos profissionais de educação, sejam eles pesquisadores, gestores públicos ou até professores, a possibilidade de observar o desenvolvimento da educação no estado, assim como identificar áreas a serem trabalhadas por parte dos alunos e dos coordenadores educacionais cearenses. Desde sua instauração em 1992, o SPAECE (Sistema Permanente de Avaliação da Educação Básica do Ceará), através de seu programa de subsídios estratégicos e bem sucedidos, vem sendo um dos caminhos pelos quais a educação cearense caminha a passos largos, desenvolvendo projetos eficazes e inteligentes.

TEXTO POR Bento Peixoto

 


Sobre Isabella Rozzino

Postado por Isabella Rozzino | Em 27 de junho de 2018 | Tags: , ,

São poucas as pessoas que durante a sua vida não ouviram alguma frase do tipo “você não pode fazer isso, não é coisa de menina”, ou “Homem de verdade gosta de (complete a frase com um estereótipo masculino)”. Desde que somos pequenos, frases do tipo nos ensinam o que fazer e o que não fazer de acordo com o gênero, o que acaba por moldar uma parte significante dos comportamentos e gostos das pessoas. Quebras deste tipo de paradigma, em geral, sofrem fortes críticas dos mais conservadores e exigem muita resistência para uma mudança verdadeira na concepção que há sobre as atribuições a cada gênero. Apesar de haver exemplos claros do quanto o conservadorismo molda estas atribuições, como a relação de homens e trabalho, futebol, cerveja, e mulheres e maternidade, cuidar da casa, produtos consumidos, etc, os vieses de gênero interferem em diversas esferas sociais, e a educação é uma delas.

De fato, relativamente a outras situações, identificar no dia-a-dia a imposição dos vieses dentro da educação e da sala de aula talvez seja menos óbvio, mas os próprios resultados de alunos muitas vezes explicitam a sua existência. Um dos exemplos é a associação entre os gêneros e matérias de exatas. É testado que resultados de mulheres em matemática são  menores que os de homens em diversas situações, por exemplo, há diversos estudos sobre o SAT, teste padronizado dos EUA, no qual meninas têm médias menores em exatas. Observa-se também uma recorrente fuga feminina de cursos com mais matemática e física, e cursos como engenharia são dominados por homens, enquanto cursos mais “artísticos” têm um alto percentual de mulheres. Ainda assim, o gap feminino em matemática muitas vezes é tomado como um resultado banal ou tenta-se encontrar reações biológicas, enquanto estudos têm indicado que isso pode ser resultado de vieses de gênero, que agem desincentivando mulheres na área.

Um estudo interessante realizado nos EUA com estudantes universitários tentou replicar os estereótipos de gênero [1], aplicando testes de matemática nos estudantes mediante diferentes estímulos para visualizar seus efeitos nas notas. A partir disso, chegou-se ao resultado de que em todas as situações que antes de um teste avançado avisou-se que era possível haver uma diferença entre os gêneros na nota, o desempenho feminino no teste caiu em relação ao masculino.  Enquanto isso, quando os participantes eram avisados de que o gênero não influenciava a performance, as notas obtidas foram semelhantes. Ou seja, quando há um estereótipo negativo, as pessoas que se encaixam neste grupo têm seus comportamentos e desempenhos de modo a corroborar com o que era previsto.

Nesse sentido, quando se desincentivam meninas a estudar matemática na escola, quando se diz que engenharia é uma profissão para homens ou quando se direcionam mulheres para aptidões ditas “naturalmente” femininas, como as áreas mais criativas e artísticas, há um reforço dos estereótipos da sociedade, que por sua vez atuam através de mecanismos psicológicos, que pressionam mulheres no sentido de desempenhar mal e confirmar o viés, ao mesmo tempo que dão aos homens uma segurança prévia por já estarem à frente.

[1] SPENCER, J.S.; QUINN, D. M.; STEELE, C. M. Stereotype Threat and Women’s Math Performance. Journal of Experimental Social Psychology., p. 4-28, 1998.

TEXTO POR Catarina Caricati


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