Postado por Lucio Flávio | Em 3 de julho de 2016 | Tags: , , , , , ,

Michel Foucault discute muito na sua obra o fim do autor, a morte do autor.  Quando liam isso, muitos não conseguiam entender bem o que ele queria dizer, e isso se tornou evidente depois da morte dele quando as novas mídias começaram a surgir. Mas o que ele quer dizer com essa ideia de “não-autor”?

Ele quer dizer o seguinte: se você é capaz de produzir algo significativo, você deve compartilhar aquilo que foi produzido, porque você é a fonte. Já que produziu uma vez, você pode produzir infinitamente outras coisas grandiosas. Isso é o seu poder. Isso é sua capacidade, móvel e viva de continuar produzindo conteúdo. O conhecimento não pode continuar sendo monopólio de ninguém. Sendo assim, podemos nos perguntar: o que encontramos ao longo da história como uma das formas mais comuns de exclusão do outro? A exclusão pelo saber, pelo conhecimento.

Desde o Egito antigo, quem tinha e acumulava os saberes eram os reis, que eram os faraós. Na Idade Média, a Igreja Católica com os conventos. E, dos conventos, a universidade se torna o novo lugar, excluindo quem não faz parte dela. Esses lugares eram – e algumas universidades ainda são em alguns casos – centros de poder e não de saber necessariamente. Sabemos sim que muito saber era produzido, mas saberes que não são compartilhados (ou seja, que são acumulados) e usados para exclusão possuem o caráter de poder predominando sobre o caráter de saber. Conhecimento produzido pode ser usado para reconfigurar sociedades, assim como aconteceu com Copérnico com sua teoria pensando o Sol como o centro do Sistema Solar e não mais a Terra. Esse saber, constatado como verdade e seguido de diversos outros, serviu como disparador para uma revolução científica, a qual culminou com a Igreja Católica não mais sendo a principal fonte de produção de saber (verdade). Alguns séculos depois um novo movimento surgiu, ganhando o nome de Iluminismo, que pensou, então, como seria arranjada essa nova sociedade. O poder não mais se concentrou nas figuras dos reis e do clero.

saber-poder

Entretanto, algo novo aparece no século XX com um papel fundamental para mudança na história humana: a internet. A internet está democratizando o poder, porque está democratizando o saber. E isso causa pavor em quem, hoje, domina o poder. Um cantor, hoje, por exemplo, ganha menos com a venda de discos do que ganha com seus shows, ao contrário do  que acontecia anos atrás.

Quanto mais a gente vive a internet, mais a presença tem valor. O que isso quer dizer? Quero dizer que quem tem valor é quem produz sempre. Seu conteúdo nem sempre tem valor; tem valor quem o produz. Essa é a dificuldade que encontramos na atualidade, pois a democratização do conteúdo é a democratização do poder e é com isso que a sociedade contemporânea não está conseguindo lidar.

Podemos pensar que os desafios da sociedade do conhecimento se reduzem ao próprio acesso ao conhecimento. Por exemplo, no Brasil temos uma classe C que adquiriu poder de compra. Essa classe pode comprar o que está disponível no mercado, mas ela continua discriminada. Então não é ter acesso a compra que diminui a discriminação hoje; é o acesso ao saber. Não quero dizer que não existem outros tipos de discriminação, existem sim, mas as discriminações pelo saber são agravantes num país com 8,7% de sua população analfabeta¹ e 27% considerada analfabeta funcional. Esses números nos apresentam brevemente como as condições de dominação por conhecimento são possíveis no Brasil.

Qual é, portanto, o desafio da sociedade do conhecimento diante das novas mídias? É garantir a democratização do saber, o compartilhamento do conhecimento, é não permitir que haja qualquer tipo de censura. Essa é a beleza da internet, pois nela não há censura.

O fato consumado é que há a rede, há democratização e há novas relações de poder. Dentro da educação, especificamente falando, o que mais se destaca é a revolução da memória, porque o que tem sido a educação se não a memorização? A revolução da memória consiste nas memórias portáteis, em diversos dispositivos eletrônicos nos quais cabem várias bibliotecas. E isso já está se tornando piada diante das novas tecnologias de armazenamento em nuvem. Se em nuvem você já tem acesso a tudo que é produzido, então não é mais possível que a educação seja entendida como administração de conhecimento, pois este está facilmente disponível. A educação tem que contemplar o  desenvolvimento de raciocínio e de pensamento, análise e interpretação de dados. O que nós temos que produzir na educação é criação e não replicação. Passamos por mudanças graves e delicadas, estamos no meio de uma transição, mas isso pode significar que podemos alcançar uma maior democratização e acredito que isso é extremamente benéfico.

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* Fonte da imagem 1: http://revistacult.uol.com.br/home/2011/02/industria-cultural-e-manutencao-do-poder/

* Fonte da imagem 2: http://blog.andi.org.br/precisamos-de-mais-mestres-como-paulo-freire


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

Postado por Lucio Flávio | Em 16 de junho de 2016 | Tags: , , , , ,

Um dos mais importantes educadores brasileiros, também considerado importante em outros países, é o conhecidíssimo Paulo Freire. Com seu pensamento revolucionário para o seu tempo, viveu a maior parte da sua vida criando seus métodos e conceitos pedagógicos em uma realidade sem tecnologias de informação como as que temos a nossa disposição hoje em dia. Mesmo após 50 anos da primeira experiência de alfabetização de adultos – na qual, em 1963, na cidade de Angicos, RN, ele alfabetizou 300 adultos em 45 dias – boa parte dos ensinamentos do pensador pernambucano seguem contemporâneos. E mais: vários deles ainda são inovadores para o cenário educacional.

“Educador e educando aprendem em comunhão” é uma frase que resume a concepção freireana para o ensino-aprendizado. Devemos enxergar na colaboração, na troca, na convivência e no compartilhamento de saberes um dos princípios mais importantes de Paulo Freire. Isso porque Freire rejeita o que chamava de educação bancária, na qual o professor apenas transmitia conhecimentos aos alunos. O pensador valorizou a cultura e o conhecimento prévios dos estudantes e a ideia que se aprende na troca, seja entre professores e alunos, seja com outros professores, seja entre alunos. A educação está na vida, no nosso cotidiano e na nossa formação como um todo. Não acontece só na escola, mas em qualquer ambiente.

 

Escultura em Estocolmo, Suécia. Paulo Freire (segundo da esquerda para a direita) aparece ao lado de outras seis personalidades internacionais, entre elas Pablo Neruda e Mao Tsé-Tung fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Freire

Escultura em Estocolmo, Suécia. Paulo Freire (segundo da esquerda para a direita) aparece ao lado de outras seis personalidades internacionais, como Pablo Neruda. Fonte: https://pt.wikipedia.org/wiki/Paulo_Freire

O mais importante para Freire é pensar a educação para a transformação humana e a autonomia do sujeito, o que ainda segundo a concepção do pernambucano se dá quando as pessoas se conscientizam de suas condições sociais, culturais, econômicas e políticas. A personalização é a possibilidade que temos hoje de alguém estar mais atento às minhas necessidades de conhecimento, mesmo dentro de um grande grupo de alunos.

O processo de personalização, realizado por plataformas educativas que permitem que cada um possa fazer seu percurso, em qualquer lugar, desde que esteja conectado, é uma nova forma de educar para a autonomia. Os princípios de Freire valem, mas o acesso ao conteúdo, materiais e informações básicas ocorre sem o professor. A ideia de que o aluno aprende por si só e que o professor é apenas um mediador não está presente nas teorias de Paulo Freire. Para o educador, as pessoas não aprendem sozinhas e o professor tem uma papel importante a exercer. Seu foco principal é o coletivo, as experiências, a vivência, a cultura, o entendimento da condição do ser humano em uma sociedade desigual e a superação dessa condição.

Nesse contexto, a roda de conversa, o estudo do meio e a educação por projetos, práticas usadas em escolas inovadoras, são ações educativas que visam a essa troca de olhares, de perspectivas e saberes. É possível pensar em projetos, mas não em projetos que vêm de cima para baixo. São projetos estabelecidos a partir de temas geradores. É preciso ouvir alunos, debater e fazer discussões que tragam sentido ou que sejam decididas em assembleias.

Se pensarmos em projetos, estes devem estar ligados à comunidade, trazer a história de vida dos educandos, para então trabalhar a sistematização dos conteúdos que a escola exige. Numa linha de pensamento freireana, o homem, em sua formação, não é dividido como se pensa no senso comum: não existe um ser social, outro emocional, outro racional, etc. Somos seres integrais, nos quais todos esses aspectos se misturam e compõem o modo que nos apresentamos para os outros. Sendo assim, o conhecimento que vem de fora da escola, que também deve ser entendido como conhecimento, é integral. A escola tornou-se um espaço que fragmenta os conhecimentos, numa ideia que entende o homem de forma fragmentada, como se os estados emocionais e nosso desenvolvimento e contexto social não influenciassem no modo de raciocinarmos.

Para trabalhar na perspectiva de Freire, é preciso atuar de modo integral; os temas têm que conversar entre eles, a partir de um eixo norteador. Dentro dos ensinamentos de Freire, esse tema vai ser levantado a partir das necessidades e interesses dos educandos, ou até mesmo da troca de educador e educandos.

Não se pode segmentar conteúdos em disciplinas e dividir o dia dos alunos por matérias. Por exemplo, as manifestações de junho de 2013 podem se tornar um tema gerador para várias disciplinas. É possível discutir como esses movimentos surgiram: em matemática se estudam os indicadores sociais; em história, relembram-se passagens como a oposição à ditadura militar ou os caras pintadas; em geografia procura-se entender como as redes sociais interferem, de modo político, nas manifestações.

Esse conjunto de debates leva o aluno a compreender por que participa das manifestações e qual o efeito que elas têm. Na maioria das vezes, as escolas ainda mantêm uma estrutura tradicional de organização e espaço e ainda é considerado inovador pensar a rotina e o cotidiano escolar de forma diferenciada. Muitos jovens que começaram a ocupar as escolas pensando em educação estão nos mostrando que entendem do que Freire pensava sem sequer tê-lo estudado. Assim, podemos pensar como a educação se torna libertadora a partir do momento em que começamos a pensar em sua prática.


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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