O modelo de escola que encontramos, em sua maioria, é o do início do século XX. Óbvio que nem todos os agentes das escolas atuam da mesma forma, mas ainda há mais semelhanças do que diferenças. Essa é uma discussão tão antiga que não faz mais tanto sentido permanecer nela, por isso é necessário sair do plano da problematização e dar o passo para o plano do ato. Isso não significa encerrar as potencialidades desse assunto, mas sim reconhecer as diversas demandas já existentes por reforma educacional. É necessário darmos passos de fé, arriscarmos, apostarmos, mesmo que os resultados não sejam completamente satisfatórios, até porque eles nunca serão completamente satisfatórios; o plano das ideias não deve permanecer como objetivo final, mas como a utopia impossível, funcionando como combustível para nos movermos.

Um desses passos para a ação é o tema que tem feito parte da SXSWEdu (e este ano foi o tema que a encerrou), a personalização do ensino: o entendimento dos alunos como indivíduos para além de uma perspectiva generalista de grupo, ou de massa.

O que é personalização do ensino?

“Na minha definição, é um sistema de educação que deixa as crianças serem elas mesmas na primeira infância, as desafia e dá suporte, serviços e orientação acadêmica para que sejam bem sucedidas em cada etapa escolar e oferece oportunidades para que alcancem seus objetivos ao longo da vida” (Paul Reville, professor de práticas e políticas públicas na Escola de Educação de Harvard).

Imaginemos uma turma com 30 alunos. Em determinada disciplina, 4 ou 5 dessas crianças se encontrariam num estágio em que “sabem de tudo” e provavelmente gostariam de novos desafios. Cerca de 10 crianças teriam dificuldade com os conceitos a ponto de necessitarem de um atendimento especial, enquanto que o restante se encontraria num estágio satisfatório, teriam noção suficiente do conteúdo. Todos esses alunos muito provavelmente avançarão ao longo do tempo, alcançarão estágios mais que satisfatórios. O desafio é como construir dispositivos personalizados de aprendizagem para dar esse suporte aos alunos.

Esse desafio vem acompanhado de uma série de outros desafios relacionados à infraestrutura das escolas, à motivação dos professores, e também de uma necessidade urgente de reciclagem dos gestores educacionais. Mas, acima de tudo, a personalização do ensino é um desafio porque atravessa todos nós e a maneira como nós nos posicionamos quando pensamos a educação, que é geralmente verticalizada, partindo do princípio de que todo conhecimento será lançado pelos professores e recebido pelos alunos ignorando suas histórias individuais.

É um desafio que não pode ser deixado de lado, pois no momento o que temos são estatísticas como: apenas 12% dos alunos do 9º ano sabem o que deveriam de matemática e 22% do mesmo ano sabem o que deveriam de português.[i] E ao mesmo tempo temos autores como o Paulo Freire que já pensavam a educação a partir de perspectivas que ainda são distantes de nós (mas que não deveriam): “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.”

Como agir diante disso?

Vivemos num momento em que o mercado exige algo que está distante do que nos é oferecido nos sistemas educacionais. Como foi falado, é como se ainda estivéssemos aprendendo para cumprir posições de meados do século XX, onde os trabalhos aconteciam em fábricas, com ferramentas mecânicas, em grandes grupos e a partir de tarefas repetitivas. Enquanto isso, o mercado de trabalho atual requer pequenos grupos interdisciplinares, que resolvem problemas complexos e que usam ferramentas digitais no dia-a-dia.

Diante disso, a personalização do ensino atende a essas demandas e ainda possibilita uma formação diferenciada, prezando por características como: autonomia, ambiente voltado à aprendizagem (móveis flexíveis que se adequam às diversas possibilidades de atividades), mentoria individualizada, planos individuais de aprendizado, avaliação individualizada e de processo, aprendizado por projetos, desenvolvimento integral, uso de tecnologias e ensino híbrido.

Algumas dessas experiências estão centradas no uso de tecnologia, outras pouco utilizam recursos digitais. Umas têm foco nas crianças, outras em adolescentes. São diferentes entre si, mas funcionam a seu modo.

O que podemos fazer?

Diante disso, você deve querer saber muito mais sobre como agir, como fazer parte desse movimento, ou, no mínimo, conhecê-lo melhor. Para que você possa aprender mais sobre a personalização do ensino, o portal Porvir possui um guia especial sobre esse tema que pode ser utilizado como material para que você aprenda essa nova perspectiva e desenvolva sua própria.

O material vai desde a história do conceito maior até seus pormenores, convidando qualquer um a entrar nesse debate que ainda está por se fazer. A Fundação Lemann e o Instituto Península coordenam, desde 2014, um grupo de 17 professores que têm se reunido para aprender as bases da metodologia, aplicar em salas de aula e compartilhar as experiências com colegas. E o conteúdo dessas discussões está disponível também no guia do Porvir, discussões sobre autonomia do aluno, tecnologia, avaliação, espaço, cultura escolar e papel do professor, todos os temas voltados ao estudante no centro.

Confira lá e volte aqui para discutir conosco suas opiniões e como você acha que podemos construir projetos educacionais de qualidade também: http://porvir.org/especiais/personalizacao/

 

[i] http://www.qedu.org.br/brasil/proficiencia

 


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com