Para Piaget, um dos mais importantes pensadores do século XX, a inteligência é vista como o sofisticado ato de tatear o que se usa quando não se sabe ao certo o que fazer. Inteligência tem a ver com improviso. É o processo de improvisar e refinar o improviso. Isto pode ser parafraseado no sentido de se rever o conceito de professor, o qual pode ser contextualizado como facilitador de aprendizagem.

Facilitador deve ser aquela pessoa capaz de contribuir para o processo de improviso e sua refinação em uma outra pessoa, no caso o estudante; e para realizar esta árdua tarefa, esse ser humano deve estar constantemente atualizado, caso contrário ele não estará mediando ou facilitando, mas impondo paradigmas e conceitos que não podem contribuir mais para a mudança e melhoria contínua da qualidade do comportamento dos seus aprendizes.

Vale dizer, aqui também se deve substituir a velha palavra aluno (que vem do latim alumni, que quer dizer, ‘sem luz’), pela palavra aprendiz (que significa ‘sem prisão’, solto). Isso nos mostra que hoje, estamos educando as pessoas para viverem e atuarem em sociedades do passado, de ontem, e não como seria de se supor do papel do professor e da escola, instruindo os jovens para viverem, atuarem e produzirem no futuro, a partir de hoje.

 

A Didática

Aprendeu-se que a Didática é uma doutrina de ensino e do método de ensino. É também a direção na aprendizagem, sendo ela a organizadora de conteúdos, de técnicas, de metodologias e teorias, do modo de trabalho do professor e da relação professor-aluno, ajustando-se para cada circunstância.

A Didática atua para despertar um comprometimento consciente; da importância do profissional no contexto social; com uma postura investigativa, um olhar novo de reflexão e compreensão.

O professor da atualidade pode posicionar-se como mediador, com disposição contínua para aprender, onde professores e alunos possam ser pesquisadores, numa construção coletiva, com qualidade, autonomia e decisões com responsabilidade, numa constante investigação da sua prática, avaliando-se criticamente.

Perrenoud, sociólogo suíço que é uma referência para muitos educadores, menciona os saberes que considera fundamentais para a autonomia das pessoas. Chegou a oito grandes categorias:

  1. saber identificar, avaliar e valorizar suas possibilidades, seus direitos, seus limites e suas necessidades;
  2. saber formar e conduzir projetos e desenvolver estratégias, individualmente ou em grupo;
  3. saber analisar situações, relações e campos de força sistêmica;
  4. saber cooperar, agir em sinergia, participar de uma atividade coletiva e partilhar liderança;
  5. saber construir e estimular organizações e sistemas de ação coletiva do tipo democrático;
  6. saber gerenciar e superar conflitos;
  7. saber conviver com regras, servir-se delas e elaborá-las;
  8. saber construir normas negociadas de convivência que superem as diferenças culturais.

Na prática pedagógica onde o professor é o mediador das dimensões cognitivas, afetivas e sociais, os elementos da concepção de mediação são os significados. Para transmissão, elaboração e reelaboração de conceitos, reformulando a cultura e a sociedade, esses elementos mediadores – os signos, instrumentos e a linguagem – é que permitem a leitura dos significados e dos objetos de situações do mundo real.

Na prática reflexiva, quando o professor investe na capacidade dos alunos, sendo as relações professor-aluno e aluno-aluno as bases do processo ensino-aprendizagem, é possível criarem uma co-responsabilidade no processo educativo, fazendo com que ambos trilhem juntos caminho do conhecimento. Para isso é fundamental planejar  a aula, o currículo, e trabalhar com olhar reflexivo da investigação, observação e registros, técnicas, histórias e significados.

Assim se consegue integrar o passado, o presente e o futuro na elaboração de objetivos para a ação que será realizada, registrando pontos positivos, negativos, situações vividas, atividades desenvolvidas, problematização, resultados obtidos, reação do grupo, conseguindo avaliar se foi possível a interação dos aprendizes com a aprendizagem e o novo saber.

Ainda, para isso,  deve-se identificar o conhecimento prévio, motivar os alunos para pesquisas e descobertas, melhorando sua relação social, buscando formar um sujeito crítico, transformador da realidade, sendo a Didática o elemento essencial para a busca da ação-reflexão-ação.

 

A Escola Tradicional e o Modelo Progressista

Os tradicionalistas enfatizam os padrões acadêmicos em escolas que tendem a ser mais orientadas ao professor, seguindo um currículo que é baseado em conteúdo e formado em torno de disciplinas acadêmicas familiares. Tais escolas tendem a enfatizar estrutura e disciplina. Os críticos da abordagem tradicional sustentam que tais escolas dificultam o desenvolvimento dos estudantes pela imposição de uma rígida sequência de aprendizagem que ignora que os estudantes diferem-se nas maneiras de aprender. Este modelo dá  ênfase aos aspectos acadêmicos, para realçar a realização cognitiva em detrimento de outros aspectos relacionados com o crescimento intelectual do estudante, como o  ajustamento emocional. Assim, ele impede o jovem de avançar na direção a uma expansão da criatividade e da intuitividade, porque passa a exigir muito mais os esforços de memorização pelo texto e não a partir de uma criação própria de textos.

Já os críticos da abordagem progressista acreditam que o modelo progressista de escola tende a enfatizar o trabalho acadêmico, bem como o processo, além do conteúdo, o que, segundo eles, tende a falhar na construção dos fundamentos intelectuais necessários para uma prolongada aprendizagem. Ainda, segundo eles, uma ênfase sobre auto-estima e o desenvolvimento emocional é extraviada, muitas vezes recompensando o estilo em lugar da substância. No quadro 1 a seguir apresentam-se alguns dos tópicos mais enfatizados em cada uma dessas abordagens:

 

Modelo de Escolas Tradicionais Modelos de Escolas Progressistas
Instrução direta pelo professor, com um grupo homogêneo de alunos. Aprendizagem auto-dirigida, aprendizagem por descoberta, trabalhando cooperativamente uns com os outros; grupo heterogêneo de alunos.
[Leitura] Confiança em uma abordagem fônica, o sujeito deve aprender a pronunciar as palavras. [Leitura] Confiança em uma abordagem palavra-todo, o sujeito deve aprender não só a pronunciar, mas a entender o que está lendo, o que significa a palavra isolada e em contexto.
[Matemática] Confiança na instrução direta; habilidades computacionais e exercícios. [Matemática] Confiança na aprendizagem por descoberta e relação aprendiz-iniciativa
Confiança em testes periódicos com testes objetivos e referenciados por norma Confiança em portfólios que caracterizem projetos individuais e colaborativos.
Os testes são concedidos comparando desempenho com idade/grau dos pares. Os testes são desempenhados em favor dos comentários do professor sobre o progresso.
Os estudos sociais focalizam sobre a herança, a geografia, a história e o civismo, bem como estudos interculturais. Os estudos sociais focalizam sobre a diversidade, preocupado com os aspectos sociais e o multiculturalismo e responsabilidades sociais.
Enfatiza as habilidades acadêmicas como demonstrado pelas áreas tradicionais essenciais. Enfatiza os aspectos cultural, social e psicológico do desenvolvimento do jovem estudante.
[Currículo] Focaliza sobre áreas acadêmicas. [Currículo] Abrange um extenso número de questões; um equilíbrio entre a preocupação social e a acadêmica para a formação do jovem estudante.
Padrões são um conjunto tal que todas os jovens estudantes buscam o mesmo nível de competência mínima. Padrões são ajustados para reconhecer diferenças entre os aprendizes individuais.
Papel do Professor: instrutor acadêmico, fonte de conhecimentos, figura de autoridade. Papel do Professor: facilitador, conselheiro e mentor.
Relações Professor-Estudante: São de via única; o aluno apenas é um recipiente e tem que atuar assim pelo bem da disciplina; o professor é a autoridade; o diálogo é subjetivo e geralmente iniciado segundo a vontade do professor. Relações Professor-Estudante: o estudante é parte intrínseca do processo de aprendizagem e o professor atua como facilitador; o diálogo é objetivo/subjetivo, aberto e produtivo; prevalece a vontade das duas partes em busca de respostas que agreguem valor.

 

A escola tem como objetivo básico e prioritário a socialização dos alunos e prepará-los para a sua incorporação ao mercado de trabalho. Esta função é delegada à escola, pelo menos desde o surgimento das sociedades industriais. Na sociedade contemporânea, o papel de transmissão e distribuição da informação não existe mais na escola. Os meios de comunicação (televisão, internet, etc.) estão muito mais acessíveis do que no período industrial tornando as informações, por consequência, muito mais acessíveis também. Estas informações, em conjunto com as próprias experiências do jovem estudante e suas interações sociais irão criar quase que imperceptivelmente interpretações do cotidiano de maneira ideológica e tomada de decisões quanto ao seu modo de intervir e agir. Ou seja, nestes meios todos podem verificar o cumprimento da função de reprodutores da cultura dominante ao invés de haver uma reelaboração crítica e reflexiva dos mesmos.

Desse modo, podemos dizer que seria ingênuo esperar que as organizações políticas, sindicais ou religiosas, ou o âmbito da empresa, mercado e propaganda estejam interessados em oferecer ao futuro cidadão chaves significativas para um debate aberto e racional, que permita opções relativamente autônomas sobre qualquer aspecto da vida econômica, política ou social. Seus interesses, mais ou menos legítimos, orientam-se em outras direções mais próximas da persuasão ou sedução do indivíduo a qualquer preço do que da reflexão racional e da comparação crítica de propostas. Somente a escola pode cumprir esta função de reflexão. Para desenvolver este complexo objetivo, a escola compreensiva, apoiando-se na lógica da diversidade, deve começar por diagnosticar as pré- concepções e interesses com que os indivíduos e os grupos de aprendizes interpretam a realidade e decidem sua prática.

Ao mesmo tempo, a escola deve oferecer o conhecimento público como ferramenta inestimável de análise para facilitar que cada aprendiz questione, compare e reconstrua suas pré-concepções, seus interesses e atitudes condicionadas, assim como suas condutas, induzidas pelos intercâmbios e relações sociais.

 

Referência:

http://www.cerebromente.org.br/n08/mente/construtivismo/construtivismo.htm

http://jne.unifra.br/artigos/4734.pdf

http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-84862010000100010

http://editorarealize.com.br/revistas/cintedi/trabalhos/Modalidade_1datahora_10_11_2014_12_37_21_idinscrito_1216_18d95c9b5b53f713acb452f25e6ef759.pdf

http://www.uff.br/periodicoshumanas/index.php/Fractal/article/view/121/401


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

Postado por Wesla Monteiro | Em 7 de novembro de 2015 | Tags: , , ,

Se puder, faça a si mesmo, homem ou mulher, hetero ou homo, as seguintes perguntas e responda:
Por que futebol é coisa de menino? Por que boneca é coisa de menina?
Por que tenho medo de ficar sozinha em um ponto de ônibus à noite?
Por que tenho medo de pegar um táxi?
Por que não posso usar shorts na escola?
Por que eu como mãe devo ter mais responsabilidade do que como pai?
Por que minha palavra vale menos do que a de alguns homens?


O mundo tem sido muito injusto com diferentes grupos sociais. Entre esses grupos está a mulher. Não vou dizer que nós somos mais ou menos injustiçadas, pois a questão não é essa. A questão é: Acontece. Com todas nós. Em diversos momentos.


Gostaria de vangloriar TODAS essas mulheres incríveis que estão dando seus depoimentos de diferentes experiências que definitivamente não compõe os melhores momentos de suas vidas, mas que libertam. Liberta a nós mesmas por podermos falar sobre coisas que tanto nos incomodam, liberta aquelas que escutam por perceberem que “não é só comigo”, liberta aquel@s que “nunca tinham pensado nisso”.

LIBERDADE. Liberdade política, liberdade de impressa, liberdade de expressão. LIBERDADE. Uma palavra tão significante e abrangente, que já está no nosso vocabulário cotidiano, mas às vezes não temos dimensão da sua importância e do quanto elas nos faz bem. É por isso que estamos brigando, porque queremos sair às ruas sem medo, porque queremos ser donas do nosso corpo, porque queremos o salário que merecemos, porque queremos vestir o que nos agrada! LIBERDADE.


A sua liberdade termina onde a minha começa, e então vamos sim lutar pelo o que é nosso! A grande Clarisse já nos disse, em belos versos: Nossa liberdade ofende porque é ingênua, genuína. Mas não seremos mais presas em nossas mentes e corpos, seremos livres!


Ela é tão livre que um dia será presa.
Presa por quê? Por excesso de liberdade.
Mas essa liberdade é inocente?
É. Até mesmo ingênua.
Então por que a prisão?
Porque a liberdade ofende.


Sobre Wesla Monteiro

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