Postado por Christian Frederico | Em 7 de agosto de 2016 |

O Programa Universidade para todos (ProUni) é um programa do Governo Federal criado em 2005, pelo então ministro da educação, Tarso Genro, durante o governo Lula. O programa tem o intuito de conceder bolsas de estudos integrais e parciais em cursos de graduação e sequenciais de formação específica em instituições privadas de ensino superior. Desde 2009, com a reformulação do Exame Nacional do Ensino Médio, feita durante a gestão de Fernando Haddad no ministério da educação, o programa, juntamente com o FIES, ganha cada vez mais uma maior importância como programa de inclusão.

Sem sombra de dúvidas, o Prouni é um importante programa de inclusão educacional. Por meio dele, milhares de estudantes, provindos de classes mais baixas tiveram o acesso ao ensino superior. Tornou-se uma das principais vitrines do governo federal. É um projeto primoroso, que pode inclusive contribuir para o alcance de metas do Plano Nacional da Educação, como aumentar da taxa líquida de matrícula do ensino superior (percentual da população de 18 a 24 nos na educação) de 15,9% para 33%. Porém, o programa possui distorções.

Assim como o FIES, o Prouni criou um certo tipo de modalidade de ensino. Assim, o programa construído para suprir a falta de vagas no ensino superior cria um sistema de ensino superior privado que visa ao lucro em detrimento da qualidade. Indo mais além, um sistema que visa dar maior oportunidade de carreira a todos, buscando diminuir a desigualdade, acaba por concentrar ainda mais a renda. Essa distorção é criada pelo próprio governo. Segundo o Ministério da Educação, 40% do faturamento do maior grupo educacional do país é proveniente de recursos públicos das isenções fiscais do ProUni e do FIES. A partir do momento em que se retira uma carga tributária, contribui-se para o lucro das universidades.

É um cenário preocupante e uma reforma do sistema de ingresso do ensino superior é necessária. Pois de nada adianta um maior número de pessoas que tem o ensino superior completo, mas tem lacunas básicas fruto de um sistema de ensino deficitário. Sem uma ampla reforma do sistema de ensino, continuamos parados no tempo.

Imagem: http://bit.ly/2aDWi8L

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Sobre Christian Frederico

20 anos, de São Paulo capital. Graduando em Economia na Universidade de São Paulo, é Presidente do Cursinho FEAUSP, cursinho popular administrado por alunos da Faculdade de Economia e Administração da USP. É, também, bolsista do projeto ISMART, programa que oferece oportunidades de educação para jovens de baixa renda. Além disso, é poeta nas horas vagas. Acredita que a educação é o grande motor transformador e pretende se dedicar a essa área no futuro, além, é claro, da poesia.

Postado por Lucio Flávio | Em 28 de julho de 2016 | Tags: , , , , ,

O movimento Escola Sem Partido vem provocando uma forte reação de entidades científicas, educadores, pais e alunos preocupados com a ameaça à liberdade dos professores em sala de aula. A reação não é um exagero. Há vários projetos de lei do movimento, dois em âmbito nacional.

Embora se digam apartidários e em busca de isenção ideológica, nas redes sociais e no site do movimento nota-se a repulsa contra movimentos de esquerda e o pensamento progressista no país. Gostam particularmente de atacar, na contramão do reconhecimento internacional, pensadores do quilate de Paulo Freire.

No fim do mês de junho um professor já foi afetado por esse movimento: Eduardo Mattos Cardoso, que lecionava História, Filosofia e Sociologia, no Instituto Estadual de Educação Maria Angelina Maggi, em Três Cachoeiras, RS. O professor foi afastado, sem aviso prévio, acusado de “falar demais em política.” Em entrevista dada aO Cafézinho [1], Eduardo disse que, por lecionar tais disciplinas, falar sobre política é obrigatório de acordo com os planos de trabalho e os livros didáticos da rede de educação do seu estado. “Nunca falei pra aluno meu votar nesse ou naquele partido. Nunca disse que partido A é melhor que B. Aliás, a acusação é tão pífia que tu pode perguntar pra qualquer aluno meu qual é a frase que eu mais repito, quase como um mantra. Eles vão responder: o professor diz sempre: ‘Se tu não pensa, alguém pensa por ti.’”

O que estão tentando fazer comigo é perseguição política/partidária e censura pura. Porque eu questiono, duvido, estimulo meus alunos a isso também. Faço críticas à atual situação da educação no RS, um verdadeiro caos, sob a orientação do Governador José Ivo Sartori do PMDB. Daí tu pega o Diretor da minha escola que é despreparado e de má-fé e me entrega para um superior da rede estadual que é do PMDB. Aí dizem que eu é que faço ‘apologia política'”, complementa o professor.

Num exercício de pensamento, imaginemos um professor de literatura brasileira apresentando aos alunos do Ensino Médio o poema narrativo O navio negreiro, de Castro Alves. Se o poeta toma partido dos escravos e critica a economia que engendrou o trabalho servil, logo teríamos os “apartidários” defendendo a discussão do outro lado: “Seria preciso ouvir a voz dos senhores, senão estaremos tomando partido em nossas aulas!”

Seria possível ignorar que romances como Vidas secas, de Graciliano Ramos, e Capitães da areia, de Jorge Amado, não sejam obras engajadas no debate político e social brasileiro do período – anos 30 do século passado – e ainda atuais? Para os defensores da “escola sem partido”, todo o teor de denúncia social de obras como essas deveria ser ignorado, bem como qualquer diálogo com a realidade do jovem que ainda se depara com carências e injustiças similares.

Podemos recuar mais e mais na discussão e perguntar quem foram os primeiros escritores do Brasil independente senão ideólogos de um projeto político de constituição da nacionalidade, para além de seus inquestionáveis méritos artísticos. Estamos vivendo tempos em que somos obrigados a reafirmar a literatura não só como experiência de linguagem e veículo de sensibilidade mas também de conhecimento, de tomada de consciência do mundo. Até nas mais remotas obras da literatura portuguesa encontramos dificuldades semelhantes. Quando Gil Vicente, em Auto da Barca do Inferno, apresenta em suas obras o padre lascivo e o comerciante ladrão, o professor se verá na obrigação de fazer o contraponto para amenizar as críticas econômicas e religiosas?

Imagem: http://bit.ly/2adGOKe

 

Referências:

[1]: http://www.ocafezinho.com/2016/06/23/entrevista-exclusiva-com-eduardo-cardoso-professor-de-historia-no-rs-expulso-por-perseguicao-politica/

http://www.ocafezinho.com/2016/06/23/proibir-professores-de-abordar-temas-politicos-em-sala-de-aula-e-inconstitucional-mas-ja-faz-primeiras-vitimas/

http://causaoperaria.org.br/escola-sem-partido-professor-e-afastado-por-pregacao-ideologica/

http://www.sul21.com.br/jornal/apos-ser-acusado-de-pregacao-ideologica-professor-e-afastado-de-escola-estadual/


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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