Postado por Tabata Amaral de Pontes | Em 4 de novembro de 2015 | Tags: , , ,

Fomos treinadas para calar. Para não ver e fingir que está tudo bem. Mas às vezes o treinamento falha, eu vejo e não está tudo bem.

Durante o ensino fundamental, descobri minha paixão por ciências por meio das olimpíadas. Me diziam que isso não era “coisa de menina”, mas eu não entendia por quê. Até que certo dia um companheiro de classe se levanta e diz que eu deveria ser um menino disfarçado de menina. Porque uma menina nunca seria boa em ciências. Ele continuou e foi dizendo que eu nunca me casaria, que eu seria triste e que aquele não era o meu lugar… As lágrimas foram descendo pelo meu rosto e eu queria abrir um buraco no chão e me esconder. Mas foi nesse dia que eu comecei a entender porque eu era a única menina representando o Brasil nas competições das quais participei e comecei a ver e entender muitas coisas para as quais eu havia estado cega até então.

Eu comecei a me perguntar porque eu não podia andar sozinha na rua, porque dois homens tinham me perseguido de carro quando eu voltava da casa de uma amiga durante o ensino médio, porque muitos homens haviam feito comentários obscenos em uma reportagem sobre minha participação em olimpíadas, porque me diziam para não usar roupas muito bonitas para não parecer que “eu estava pedindo”…

Nas salas de aula e nas ruas, algumas vozes despertaram, e já não vamos nos calar. Já não fico calada quando me dizem que não posso ter família e profissão, que não posso ser feminina e forte, que se eu me arrumo é porque quero provocar…

No entanto, muitas vezes eu tenho medo, porque há muitas desigualdades e injustiças para as quais ainda sou cega e das quais talvez eu seja coadjuvante. E nesses momentos o que me resta é a esperança nas crianças que estão sendo educadas agora, de que elas verão mais do que eu, de que elas não vão ignorar as desigualdades e injustiças que nos rodeiam e que, acima de tudo, que elas nunca se calarão.


Sobre Tabata Amaral de Pontes

Tábata Amaral de Pontes, 23 anos, residente em São Paulo (SP), formada em Ciências Políticas e Astrofísica (Harvard College). Se graduou magna cum laude com honras máximas e sua tese intitulada "A política das reformas educacionais em municípios brasileiros" recebeu o Prêmio Kenneth Maxwell em estudos brasileiros e o Prêmio Eric Firth para o melhor ensaio sobre o tema de ideais democráticos. Vindo da periferia de São Paulo, estudou em uma escola privada com bolsa integral e representou o Brasil em cinco olimpíadas internacionais de ciências. Tábata é o co-fundadora do Projeto VOA! e co-fundadora e gestora do Movimento Mapa Educação.

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