Postado por Raissa Paz | Em 18 de dezembro de 2015 | Tags: , , , , ,

Quando pensamos em educação, na maioria das vezes restringimos o campo à educação escolar e, no máximo, incluímos a educação familiar. Devido a isso, as escolas se veem sobrecarregadas de demandas para oferecerem diversas atividades a crianças e jovens, e, assim, aumentarem a carga horária escolar. No final das contas, acaba tornando-se consenso a ideia de que a melhor alternativa para nosso sistema educacional sejam escolas em tempo integral. Mas será essa a única ou melhor alternativa? Uma outra possibilidade a se considerar é que a educação como prática de ensinar e aprender seja vivenciada intencionalmente em toda a cidade pois vivenciada ela inevitavelmente já é, só que muitas vezes de forma não intencional e sem uma proposta pedagógica por trás).

No mês de setembro deste ano uma matéria da Folha de São Paulo trazia o alerta de que “Currículo de colégio integral tem de incluir tempo fora de sala e de ócio”. Penso: precisamos de escola para isso? Na realidade brasileira, sim. Mas será que se tivéssemos mais parques, museus, bibliotecas, entre outros espaços pensados para assumir um compromisso com a cidadania realmente precisaríamos que a escola planejasse o tempo ocioso de suas crianças e jovens? A reforma física e conceitual que as escolas necessitam passar para comportar um projeto pedagógico de escola integral poderia ser deslocada para a cidade. As cidades (aqui me refiro aos seus espaços públicos) poderiam ser a extensão da escola e vice-versa, ter lugares para a juventude (e não só ela) usufruir de maneira mais independente e menos presa à ideia de escola. Até porque, caso as escolas se tornem “paraísos em tempo integral”, elas não vão aguentar por muito tempo serem bolhas educacionais imersas em cidades deseducadoras (no sentido de não se coadunarem com a proposta de formação de cidadãos).

Pesquisando a década de 1950 em Recife, não imaginava encontrar tantas experiências e projetos voltados para a educação popular usando a cidade como espaço e instrumento. Corriam em jornais notícias sobre exibições populares de filmes, teatros e concertos em praças públicas, em vários bairros da cidade. A ideia era acostumar as pessoas com determinados hábitos culturais, principalmente aquelas que não tinham recursos financeiros para frequentarem lugares tradicionalmente reservados para isso (teatro, cinema, etc.), principalmente porque elas talvez nem conhecessem tais práticas. Além disso, houve investimentos na criação de uma rede de bibliotecas populares, espalhadas por todo o município, onde os moradores de seu entorno pudessem estudar, assistir a palestras, ver exposições, etc. Poderíamos pensar que depois de sessenta anos do início da execução desse projeto a cidade de Recife estaria repleta de lugares e atividades como essas, mas, infelizmente, das quatro bibliotecas populares construídas naquele período, apenas duas funcionam hoje, e de forma precária.

Ainda falando de bibliotecas, comparo a atual Recife com uma cidade dos Estados Unidos, Cambridge, situada na região metropolitana de Boston, Massachusetts. Cambridge tem uma população estimada em 109.694 habitantes (2014) e sua biblioteca pública conta com uma sede e seis filiais, nas quais ocorrem exibição de filmes, contação de histórias para crianças, conversa com autores, cursos de idiomas, sala para uso de computadores, palestras, além de exercer sua função básica: colocar ao dispor de seus usuários um grande acervo de livros, revistas, CDs e DVDs para uso in loco ou empréstimo. Todos os dias são muitas atividades ofertadas. Ressalto: é uma biblioteca da cidade, não é ligada a nenhuma universidade. Recife tem população estimada em 1.617.183 habitantes (2015) e conta com duas bibliotecas municipais (ainda aquelas inauguradas na década de 1950) e uma estadual. Cada uma só tem um prédio e em condições lastimáveis, não conseguem fazer nem o básico, que é ter um acervo de livros e revistas, conseguir armazená-los adequadamente e fazer empréstimos. Esses espaços poderiam ser melhor utilizados para a realização de atividades.

Voltando ao cerne do assunto, a questão que tento destacar não é “acostumar” a juventude com certos hábitos culturais, mas fazê-la conhecê-los e ter opções para decidir onde ir, o que fazer. “Não quer ir para o museu? Foi e não gostou? Vai para o parque, andar de bicicleta, ler um livro, empinar pipa.” Essa é a ideia! Experimentar, aprender, brincar, conversar, dançar são práticas que não devem ser limitadas ao espaço escola. O apoderamento do bairro e da cidade onde se vive é o início para a construção de uma relação de pertencimento e de responsabilidade com a constante (re)construção de uma cidade que seja capaz de responder a desejos pessoais, profissionais, etc. de seus moradores. Não significa, contudo, que sou contra projetos de escolas em tempo integral. A escola é em sua concepção mais básica um lugar de construção de saberes, desenvolvimento cognitivo e de habilidades e também de formação cidadã, mas as outras instituições não devem isentar-se de suas responsabilidades na construção de seus cidadãos.


Sobre Raissa Paz

É Coordenadora na Diretoria de Conteúdo. Tem 27 anos, de Recife, Pernambuco. Técnica em Assuntos Educacionais na Universidade Federal de Sergipe, é licenciada em História pela Universidade Federal de Pernambuco e mestre na mesma área pela Universidade Estadual de Campinas.

Postado por Germano Johansson | Em 11 de dezembro de 2015 | Tags: , , , , ,

Como todos sabem, o Governo de São Paulo voltou atrás no projeto de reorganização das escolas no estado. Depois de muita desorganização do poder público e muita organização dos estudantes, o caminho agora, de acordo com o governador Geraldo Alckmin, será o diálogo.

Estou faz tempo tentando entender as reais razões do projeto do governo e vou tentar resumi-las aqui. Começando pelo decreto, publicado pelo Governo de São Paulo diz o seguinte:

Artigo 1º — A Secretaria da Educação fica autorizada a proceder as transferências dos integrantes dos Quadros de Pessoal, nos termos dos artigos 54 e 55 da Lei Complementar nº 180, de 12 de maio de 1978, nos casos em que as escolas da rede estadual deixarem de atender 1 (um) ou mais segmentos, ou, quando passarem a atender novos segmentos.
Parágrafo único — Aplica-se o disposto no “caput” deste artigo às unidades escolares de Diretorias de Ensino distintas.
Artigo 2º — No caso de transferência dos integrantes do Quadro de Apoio Escolar e Quadro da Secretaria da Educação, a manutenção do Adicional de Insalubridade será por apostilamento do Dirigente Regional de Ensino.
Artigo 3º — As despesas decorrentes da aplicação do disposto neste decreto correrão à conta das dotações orçamentárias da Secretaria da Educação.
Artigo 4º — Este decreto entra em vigor na data de sua publicação.

Nada mais. Só isso. Mas tem mais coisa por trás. A reorganização da rede estadual de ensino de São Paulo foi praticamente imposta pelo governo. Sem argumentos ou grandes embasamentos reais. Em um dos anúncios sobre o projeto, o ex-secretário de educação de São Paulo foi claro: as escolas estaduais seriam reorganizadas em 2016 de forma que mais escolas atenderiam apenas um período de ensino (ensino fundamental 1, ensino fundamental 2, ou ensino médio). Das 5.138 escolas, 754 passariam por essa mudança.

O principal argumento do governo para isso é que as escolas com apenas um ciclo de ensino têm um desempenho 10% melhor, devido à descentralização da gestão e da facilidade em traçar objetivos e gerir o quadro de professores. Por esse motivo, o governo decidiu que mais escolas tenham apenas um ciclo de ensino.

Mas o argumento rapidamente se mostrou problemático, e o governo mostrou falta de planejamento no projeto. Entre todas as escolas do estado, 94 receberam um informativo de fechamento em 2016 (1.8% da rede). Essas escolas, segundo o governo do estado foram escolhidas por serem unidades com menor ocupação das salas de aula, ou nas palavras do secretário, mais ociosas (como se a ocupação de 45 estudantes por sala de aula fosse a ocupação ótima que as escolas devem buscar, e como se baixa ocupação fosse o problema a ser combatido).

O fato curioso, é que das 94 escolas que tiveram seu fechamento anunciado, 30 tiveram desempenho superior à média do estado no ultimo IDESP. Além disso, 15 dessas 94 escolas, já possuem apenas um ciclo escolar. Rapidamente o governo caiu em contradição. Como um projeto que quer fazer com que mais escolas tenham apenas um ciclo de educação pretende fechar 15 escolas que já possuem apenas um ciclo, 30 escolas que possuem desempenho maior que a média, e reestruturar 754 escolas do estado, sem nem conversar com os estudantes e professores? O “top-down” do governo foi desorganizado, e não colou.

Por outro lado, o efeito colateral foi espetacular. Enquanto o governo desorganizadamente tentava cortar os gastos de 2016 na manutenção do já precário sistema escolar de São Paulo, as crianças brasileiras — entre 12 e 16 anos — ensinaram o que é organização.

Unidos, eles por conta própria começaram a reorganização escolar de que sentem necessidade. Ocupando quase 200 escolas no estado, crianças, extremamente politizadas, protestando contra uma decisão unidirecional, pintaram paredes, desentupiram bueiros, limparam banheiros, fizeram workshops, receberam palestrantes, discutiram, e de acordo com eles próprios “aprenderam mais nesse mês do que ao longo do ano escolar.”

O movimento transbordou para fora das escolas. Estudantes ocuparam avenidas, e o governo reagiu de forma medíocre, achando que o fluxo dos carros nas avenidas era mais importante do que pauta levantada pelos estudantes. A violência policial e a cobertura desvirtuada da mídia brasileira preocupam muito. Em um mesmo ano, tivemos professores e alunos apanhando em regiões diferentes do país. É muito triste, mas isso tudo mostra que mesmo sem a força política necessária, a nossa “verde” democracia está começando a amadurecer de baixo pra cima.

Não demorou muito para o governador de São Paulo revogar o decreto publicado na semana passada. O governador foi obrigado a ceder após um movimento enorme, que veio de todos os lados. Do Brasil inteiro.
As crianças em suas manifestações ensinaram o que é educação. Ensinaram que o que elas precisam é ser tratadas com dignidade. Reconheceram que as escolas eram muito grandes para duas faxineiras cuidarem sozinhas, e cuidaram das suas escolas com muito carinho. Ensinaram o que é política, Através de suas exigências de participação no projeto do governo, exigindo a aplicação da democracia e dialogando constantemente dentro das escolas. Ensinaram o que é negociação, colocando-se frente a frente com sargentos da polícia militar, dialogando, expondo suas angústias e suas preocupações, e respondendo de forma serena. Ensinaram inclusive qual é a reorganização escolar que eles precisam, e que ela deve partir de dentro da escola. Conectando-se através da enorme ferramenta que é a internet, sendo transparente em relação ao movimento, divulgando em tempo real o que estava acontecendo em todas as escolas ocupadas.

Sem a intenção, o governo de São Paulo catalisou um movimento extremamente forte, que se fortaleceu a cada dia. Cada vez que a polícia militar tentou invadir as escolas e violentar as ocupações escolares pacíficas, os estudantes se uniram ainda mais. Cada vez que os protestos e as manifestações foram recebidos com violência, o movimento ganhou mais força e mais exposição. E os estudantes, unidos, venceram.

Não tem como não celebrar. Em um momento extremamente delicado no país, um grupo de meninos e meninas de mão dadas nos mostrou que governos democráticos não são colocados em prática com caneta e papel. Nos mostrou que a politização de jovens é cada vez mais forte.

Quando as pessoas se levantam e lutam, elas vencem. E quando as pessoas não levantam e lutam, elas perdem.
Fica aqui o meu parabéns e o meu muito obrigado a todas as pessoas que levantaram. Essa batalha foi vencida.


Sobre Germano Johansson

É Coordenador na Diretoria de Finanças. Tem 27 anos, de Curitiba, Paraná. Tem consigo valores ideológicos muito fortes que lhe impulsionam a buscar a mudança e a transformação do país, e depois de todas as oportunidades educacionais que teve em sua vida, busca retribuir.

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