A felicidade parece ser algo que as pessoas fazem questão de tornar público nestes tempos de redes sociais. Fotos de momentos felizes, vídeos de animais fofinhos, registros de momentos íntimos e compartilhamentos de situações marcantes já fazem parte do nosso dia a dia. Nesse contexto,, é fácil perceber também uma banalização do ódio. O aparente anonimato das redes faz aflorar esta parte das pessoas que, ofendem, insultam, agridem, ou cometem crimes virtuais muitas vezes propositalmente. Até mesmo em notícias trágicas (que infelizmente têm sido cada vez mais divulgadas) os comentários grosseiros e a necessidade de culpar alguém estão sempre presentes. A espetacularização da felicidade e a banalização da ofensa nas redes sociais, sob o discurso de liberdade de expressão, são reflexos diretos da nossa sociedade atual de adultos que não sabem lidar bem com seus sentimentos.

Uma proposta teatral

A proposta para o trabalho de teatro com as turmas escolares visa também  explorar justamente a expressão de sentimentos através do corpo.Já nas primeiras aulas, pode-se propor uma ficha que contenha o nome de alguns sentimentos e pedir para que os alunos expliquem, com suas próprias palavras, o que significam para cada um. De maneira muito singela e potente, as respostas podem ser bastante tocantes, pois descrevem, de uma forma ingênua e direta, aquilo que sentimos (alguns exemplos estão no final do texto, que retirei de um trabalho qualtivo). Essas respostas podem nos fazer refletir profundamente a respeito do mundo que estamos propondo para essas crianças e do que podemos construir com elas.

A medida que as atividades vão se desenvolvendo durante o período letivo, como a de criar cenas representando os sentimentos apenas através da expressão corporal, é interessante perceber como os alunos se abrem mais (e de maneira espontânea) em relação aos seus sentimentos. Com isso, percebi o quão importante é dar atenção para o que elas estavam dizendo. E, finalmente, numa possível mostra de teatro, elas podem apresentar seus sentimentos. Entre uma cena e outra, declamam suas próprias definições de cada sentimento. É como uma celebração simbólica sobre as crianças podendo falar o que sentem e como sentem e os pais, ou responsáveis, as escutam.

Quem demonstra sentimentos é fraco?

Fomos criados em uma sociedade em que demonstrar sentimentos é sinal de fraqueza e ainda ficamos sem jeito nos momentos em que eles afloram. Acredito que essa falta de habilidade em lidar com os próprios sentimentos não está desconectada da necessidade, apontada antes, de escancarar a “felicidade”, nem da incontrolável vontade de “vomitar” ofensas. Então, me pergunto: como nós, adultos/adultas, podemos proporcionar uma mudança efetiva na nossa sociedade? Não sei muito bem como responder, mas uma coisa é certa: precisamos ouvir as crianças. E, principalmente, ouvir o que elas andam sentindo nesses tempos turbulentos, pois elas estão num momento ímpar de aprendizagem e de apreensão do mundo: são como antenas sensíveis a tudo. Seus corpos não estão tão fechados como os dos adultos, que possuem carapaças de concepções de vida, o famoso preconceito nosso de cada dia.

Dê voz à criança, ela também sente e pensa.

Dar voz para que elas expressem seus sentimentos é, progressivamente, estimulá-las a lidar desde cedo com o que sentem, da maneira mais saudável possível, sem julgamento de valor e principalmente com respeito aos outros, o que implica no não constrangimento do sentimento de empatia. Um trabalho desafiante e bastante delicado, sem dúvida. Mas que pode nos encoraja a nos questionar a nós mesmos quantas vezes me permiti ser empático hoje? Quantas vezes consegui me colocar no lugar da minha filha ou do meu filho hoje e entender o que ela/ele estava sentindo?

Não considero isso como de inteligência emocional, pois não acredito que nesse caso existe uma diferença prática entre os “inteligentes e burros”, entre os “mais experientes e os menos experientes”. Acredito que isso está relacionado com a permissão de si e do outro, com o não constrangimento, com uma sensibilidade relacional, que é produzida da relação entre, no mínimo, dois indivíduos, com algo que não deve se basear em um padrão de respostas, pois cada um vai se expressar de um modo.

Por isso, terminarei esse texto com as citações de alguns sentimentos descritos por crianças, como citado acima:

 

Amizade – É ser parceiro, brigar e concordar.

Amor – Se entregar para a vida.

Amor – Quando meu irmão nasceu. Senti alguém novo na minha vida.

Amor – Ficar bem pertinho de quem você gosta dizendo coisas legais.

Amor – Quando você ganha um filho e enche ele de amor para ele ter uma vida feliz.

Amor – É brincar com os animais de pegar bolinha.

Coragem – Se sacrificar pelo outro ou fazer algo perigoso mas necessário.

Empatia – Pensar antes de fazer algo.

Empatia – Ganhar lindos e belos conselhos e dar lindos e belos conselhos.

Felicidade – É ter meu cachorro.

Gula – Quando tem alguma comida e eu como mais do que preciso.

Inveja – É se sentir menor e com menos valor.

Medo – É ser autoprotegido por você mesmo.

Raiva – Quando fazem algo muito ruim e você não pensa duas vezes e faz algo que, na maioria das vezes, você não gostaria de ter feito.

Satisfação – Quando você termina algo e fica feliz.

Saudade – É quando você olha para um cachorro da espécie salsicha e se lembra do cachorro “César” que se perdeu.

Tristeza – Quando alguém fica brabo comigo e eu não sei o porquê.

Tristeza – Algo que expressamos em lágrimas e faz o coração doer.

 


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

Postado por Lucio Flávio | Em 23 de fevereiro de 2017 | Tags: , , , , , , , ,

Em um mundo cheio de tablets, notebooks e smartphones, nossas crianças tendem a conviver com a escrita e com textos escritos diariamente desde muito cedo. Esse processo é algo natural e inevitável e, como só avança, nos faz pensar sobre como assegurar, durante a etapa de Educação Infantil, os tempos e os espaços para as brincadeiras e outras formas de expressão que não dependem, necessariamente, de tecnologias digitais. Nesse contexto, muitos educadores e pais se preocupam –  com razão – em lutar para garantir que os pequenos continuem tendo direito às velhas e livres formas de expressão: pintar (e se pintar), dançar, cantar, brincar com terra, brincar de teatrinho etc. Formas de existir e estar no mundo que sempre foram próprias da condição de ser criança.

Também concordo com essa cruzada e fico muito preocupado ao observar que , ao lado da perda (ou redução) de oportunidades de viver tais formas mais livres de expressão, muitas crianças têm sido precocemente iniciadas em um rígido processo de aprendizado da escrita alfabética, nos mesmos moldes repetitivos e pouco prazerosos que tínhamos décadas atrás.

Repensando o “B + A = BA”

De norte a sul do país, vemos que algumas escolas, tanto privadas como públicas, continuam praticando um ensino que não só visa  “treinar” os pequenos para a alfabetização (através, por exemplo, de mecânicos exercícios de coordenação motora, em que se cobrem pontinhos ou letras são copiadas), mas insistem em “transmitir lições” sobre o valor sonoro das letras. Um exemplo disso é a frequente prática de ensinar às crianças coisas como “LA-LE-LI-LO-LU”, típicas dos velhos métodos sintéticos, que tanto criticamos desde os anos 1980. A transferência da antiga “série de alfabetização” para o primeiro ano do ensino fundamental, quando a criança completa seis anos, parece ter levado certas escolas a quererem “alfabetizar à força”, quando os aprendizes têm ainda quatro ou cinco anos!

Contra esse despropósito, penso que é possível e necessário garantir a nossos meninos e meninas uma convivência prazerosa com o mundo dos textos escritos e com o mundo das palavras e das letras que as formam. Afinal, sabemos, também desde os anos 1980, que o avanço gradual para a condição de alfabetizado envolve dois domínios de conhecimento, a compreensão das letras e palavras para sua reprodução escrita e para sua capacidade reflexiva a partir dos significados.

Um outro modo de trabalhar com as palavras

Sabemos que, participando de rodas de leitura, desde os três ou quatro anos, a criança, aos poucos, aprende a compreender e a escrever  textos escritos (histórias, convites, instruções de jogos etc.) com os quais  se depara em livros, revistinhas e  tablets, condição necessária para que um dia possa  ser plenamente alfabetizada.

Sabemos também que, para compreender como as letras funcionam, o aprendiz precisa desenvolver uma atitude reflexiva diante das palavras. Isso pode começar cedo, quando, em vez de pedirmos que “cubra letrinhas”, lhe propomos brincar de colecionar palavras que se assemelham de algum modo ou de descobrir palavras que rimam.

Aprendendo pela convivência

Uma convivência curiosa e prazerosa com os textos e com as palavras  faz com que muitas crianças concluam a Educação Infantil já escrevendo pequenos trechos compreensíveis.  Ou, então,  demonstrando que avançaram muito na compreensão das letras ao, por exemplo, exporem  (em um tablet ou em uma folha de papel) que com as letras I O E pode-se escrever… picolé.

O legal é quando vemos que se engajam nessas “explorações”no mundo da escrita ao mesmo tempo  que adoram brincar com areia ou tomar banho de mangueira, jogando água para todo lado.


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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