Postado por Maria Regadas | Em 3 de novembro de 2016 |

 

 

Criado em 1998 como ferramenta de avaliação da qualidade do Ensino Médio, o ENEM, de início, não era um tema recorrente nas discussões sobre a educação no Brasil. Foi só a partir de 2009, quando o exame passou a ser utilizado como forma de ingresso ao Ensino Superior, que a sua adoção e sua própria condição avaliativa se tornaram focos de debates entre estudantes, professores e especialistas. Em meio ao adiamento da edição desse ano para parte dos estudantes, mais uma vez a prova se vê envolta de uma polêmica: afinal, a adoção de um vestibular único representaria um passo na direção à democratização do acesso à universidade ou estaria esse sistema fadado ao fracasso graças ao peso do seu próprio gigantismo?

 

O ENEM fornece, através do Sisu e de convênios com instituições públicas e particulares do Brasil e de Portugal, a possibilidade de ingresso no Ensino Superior através de uma prova única de seleção. O formato do exame, menos conteudista do que os vestibulares regulares, visa a valorizar a capacidade de interpretação do aluno e objetivava, no início, induzir mudanças no currículo do Ensino Médio, entre outras finalidades. Sua concepção foi pautada em um viés menos focado na quantidade de conteúdo e mais voltado à elaboração de um pensamento lógico e crítico – o que seria vantajoso para a formação do estudante, já que antes da elaboração da Base Nacional Comum, ainda em fase de elaboração, não havia diretrizes claras para a composição curricular do ensino básico no país.

 

De fato, a unificação da entrada à universidade reduz consideravelmente o custo final do processo e o torna economicamente mais acessível. Isso ocorre pois, além de dispensar a realização de diversos vestibulares distintos e suas respectivas taxas, o candidato frequentemente consegue realizar o ENEM em sua própria cidade ou em um município vizinho. Essa situação se contrasta com os tempos dos vestibulares tradicionais, quando não era raro o aluno ter que se deslocar de cidade ou estado para prestar múltiplos concursos – o que não era viável para todos. A redução de custos para o estudante aliado ao fornecimento do Certificado de Conclusão do Ensino Médio àqueles que preencherem os requisitos mínimos tornaram o ENEM um grande instrumento para a democratização do acesso ao Ensino Superior no Brasil. Ademais, faz-se necessário frisar que o exame vem facilitando largamente o ingresso a faculdades do exterior, através de convênios com algumas universidade portuguesas que aceitam a prova para ingresso no ensino superior, como a prestigiada Universidade de Coimbra.

 

Contudo, com a crescente adoção do ENEM como prova de ingresso por parte das universidades, o exame tomou proporções gigantescas e tem sido alvo de muitas críticas. Atualmente, o exame é a segunda maior prova de acesso à universidade do mundo, com quase 8 milhões de inscritos na edição de 2015, perdendo apenas para o gaokao chinês, que contou com mais de 9 milhões candidatos no mesmo ano. Enquanto reunir quase todos os vestibulares em apenas um fim de semana pode representar um alívio para alguns, essa seleção de etapa única também diminui artificialmente a margem para erros e imprevistos aos quais os candidatos estão suscetíveis: doenças repentinas, abalos psicológicos, esquecimento de documentos e cansaço físico, por exemplo. No ENEM não existe segunda chance – só ano que vem.

A padronização do acesso à universidade, um dos grandes objetivos do Exame Nacional do Ensino Médio, também se mostra contestável ao utilizar-se o TRI, um método misterioso para atribuição de pesos a cada questão da prova e cujos critérios não são divulgados claramente à população. Outra grande crítica geral é com relação à redação: a inerente subjetividade em sua correção submete o estudante a corretores com diferentes graus de exigência, cansaço físico e regionalismos sem lhe conceder o direito de recorreção do texto caso sinta-se lesado. Além disso, o peso alto da redação na nota final para a maioria das universidades, mesmo para cursos não relacionados às Ciências Humanas, compõe um universo em que 20 pontos, de 1000, podem ser a diferença entre a aprovação ou não no curso desejado. Ademais, a falta de infraestrutura de alguns locais de prova (sem ar condicionado, mesas bambas e desconfortáveis para suportar a longa duração do exame) e o confinamento dos sabatistas durante 6 horas antes da realização do exame são outros exemplos da não uniformização das condições para a realização do ENEM que, apesar de não prover circunstâncias iguais para todos os estudantes, se propõe a avaliá-los igualmente.

 

Não há consenso entre os professores universitários quanto ao nível acadêmico dos ingressantes pelo ENEM com relação ao vestibulandos de alguns anos atrás: alguns dizem que não houve perda de qualidade na seleção, outros discordam. Fato é que tanto os benefícios quanto as falhas de conceito e execução de um vestibular unificado em todo o país são bastante visíveis. Há, portanto, muito espaço para melhorias que devem ser implementadas imediatamente a fim de que o ingresso ao Ensino Superior seja cada vez mais justo e acurado e que, principalmente, os filhos do ENEM não sejam esmagados pelo próprio gigantismo do exame ao qual foram submetidos.

 

enem-01


Sobre Maria Regadas

21 anos, é gerente da Diretoria de Conteúdo do Mapa e estudante de Engenharia Mecânica da PUC-Rio e do INSA de Lyon em um programa de duplo diploma. Atual fellow da Fundação Estudar, é apaixonada por viagens, séries de TV e gosta de acreditar que um dia levará a corrida a sério.

Postado por Christian Frederico | Em 9 de outubro de 2016 |

Nessa nossa grande cruzada de tentar transformar a educação brasileira, para que por meio dela o Brasil se torne um país mais justo e igual, precisamos abordar diversos pontos falhos no nosso sistema de ensino. Atualmente, a educação está em plena discussão, passamos pela elaboração do Plano Nacional de Educação, pela Base Curricular Comum, o projeto do Escola Sem Partido e a proposta do Novo Ensino Médio, discutimos métodos,metas, jornada diária, tamanho de salas, currículos. Porém, pouco discutimos sobre a situação dos professores, figura central no processo educacional.

sc_professor1_lg

imagem: oincrivelze.com.br

Segundo a pesquisa da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) de 2013,“Talis” (Pesquisa internacional sobre ensino e aprendizagem) realizada nos 35 países que compõem a organização, o professor brasileiro gasta, em média 25 horas por semana apenas com aulas, tempo superior à média de países como Finlândia, Coreia do Sul, México e Cingapura. Além disso, o docente brasileiro gasta até 22% mais de tempo com outras atividades da profissão, como correção de “tarefas de casa”, aconselhamento e orientação de alunos comparado à média dos demais países. Em uma outra pesquisa, mais recente, divulgada no último dia 15, os professores brasileiros que atuam nos anos iniciais do ensino fundamental recebem menos que a metade do que é pago, em média, nos outros países da OCDE. E mais, o relatório ainda mostra que o salário médio dos docentes é menor que de outros profissionais. Ou seja, não valorizamos nossos professores.

É empírico que não valorizamos nossos professores, mas como valorizá-los? A meritocracia seria a melhor saída? Se baseada unicamente no desempenho dos alunos, não. Pois, esse desempenho é influenciado pelo ambiente socioeconômico dos alunos, além de outros fatores. Em entrevista ao Carta Educação, seção da Carta Capital voltada exclusivamente à educação, o ex-diretor do Instituto Nacional de Educação de Cingapura Lee Sing Kong, diz que entre as iniciativas introduzidas para mudar a imagem do professor foi a remuneração, igualando o piso salarial com outras categorias, como engenheiro. Além de possibilidades de promoção e treinamentos específicos para cada professor.

Valorizar o professor, vai muito além de simplesmente elevar o salário se há um bom desempenho dos alunos. É necessário que a sociedade reconheça a importância do professor e que seja uma profissão almejada, com um amplo horizonte de carreira. A situação dos professores universitários é um pouco melhor, mas temos um gargalo nessa área. Diante disso, precisamos avançar muito para que tenhamos algum êxito nessa cruzada.


Sobre Christian Frederico

20 anos, de São Paulo capital. Graduando em Economia na Universidade de São Paulo, é Presidente do Cursinho FEAUSP, cursinho popular administrado por alunos da Faculdade de Economia e Administração da USP. É, também, bolsista do projeto ISMART, programa que oferece oportunidades de educação para jovens de baixa renda. Além disso, é poeta nas horas vagas. Acredita que a educação é o grande motor transformador e pretende se dedicar a essa área no futuro, além, é claro, da poesia.

Páginas1234567... 16»