Postado por Maria Regadas | Em 27 de abril de 2017 |

Eu descobri o que era urgência no dia em que o meu filho nasceu. Se ele chorava de fome, era preciso amamentá-lo imediatamente. Não havia espaço para espera. Bebês recém-nascidos não podem esperar porque a fome é gr
ande e só o leite salva. Uma crise de apendicite também não pode ser deixada para depois. A dor te obriga a correr para o hospital e é preciso operar na hora. Quem é bombeiro, médico ou policial entende muito bem o conceito de urgência. Urgente é tudo o que precisa ser feito agora. Não depois; agora.

 

A educação brasileira carece de muita coisa para melhorar, é verdade. Mas dentre todas as coisas que nossas crianças, adolescentes e jovens precisam, existem dez pontos que são urgentes. São coisas que precisam ser melhoradas pra ontem; que não podem mais esperar.

 

  • Melhorar os resultados em matemática básica e alfabetização

 

O famoso IDEB é o principal indicador de qualidade da educação básica no país. A escala varia de 0 a 10, sendo que a meta para o Brasil é alcançar média 6.0 até 2021. Esse patamar corresponde ao de países como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra e Suécia. É bem verdade que o nosso IDEB vem melhorando, e em 2015 atingimos 5,5 pontos.

No entanto, é preciso analisar esse número com muito cuidado. Quando isolamos os municípios, as diferenças são gritantes. Em geral, o IDEB evidencia as desigualdades sócio-econômicas do país, e municípios do Norte e Nordeste tendem a ter uma nota muito baixa. Maranhão, por exemplo, tem média de 4.4 pontos. Pernambuco aparece com 4.8 pontos.

Contrariando as expectativas, o município de Sobral, no Ceará, tem um dos melhores índices nacionais: 8.8 pontos. O mesmo ocorre com Foz do Iguaçu, que obteve 7.1 pontos. E isso porque, para melhorar o IDEB, foi preciso avançar no ensino de matemática básica e universalizar a alfabetização. Se todos os municípios se empenharem nessa mudança, a transformação será significativa e altamente impactante. Se você é professor, diretor de escola, aluno ou pai/mãe de aluno e gostaria de saber o que é preciso fazer para melhorar o IDEB da sua região, recomendo o estudo “Excelência com Qualidade”, elaborado pela Fundação Lemann e Itaú BBA.

 

  • Valorizar a carreira docente

 

Imagine ganhar pouco, trabalhar muito, ver que outras categorias tiveram 40% de reajuste salarial enquanto que o seu foi de apenas 7,64%. Isso aconteceu no final do ano passado, quando o governo anunciou os pisos salariais dos professores para 2017. Uma vergonha, obviamente.

 

Para melhorar a educação é preciso melhorar a vida de quem faz educação. E, para isso, o salário é essencial.

 

Como é que a gente pode fazer com que mais e mais pessoas tenham vontade de estudar pedagogia e licenciatura – física, química, biologia, história, letras, matemática, etc, etc, etc – se o que se paga é muito pouco? Não dá. Mesmo.

 

 

  • A seleção dos diretores não pode ser uma medida política

Atualmente, as formas mais comuns de seleção para os cargos de diretoria escolar são: (i) indicação política pela Secretaria de Educação, (ii) eleição por funcionários e membros da comunidade, (ii) classificação por meio de provas ou (iv) alguma combinação das anteriores.

O município de Sobral/CE optou pela escolha técnica, ou seja, o método de seleção para contratação de um diretor inclui provas, análise curricular e entrevista. Por um lado, esse mecanismo de escolha funciona bem porque a pessoa selecionada atende os critérios técnicos exigidos. No entanto, o lado negativo deste tipo de seleção é que o candidato não necessariamente terá familiaridade com aquele ambiente escolar. E isso pode ser um problema sério na hora de conseguir apoio interno para executar algumas tarefas.

Já em Foz do Iguaçu/PR, a seleção se dá por meio de eleição, que pode envolver professores, pais e alunos. Se por um lado esse critério atende o quesito da legitimidade – a pessoa é alguém que já faz parte da comunidade escolar –, por outro a eleição abre porta para que os eleitores se utilizem de critérios não relacionados à habilidade de dirigir uma escola, como empatia, por exemplo.

Em todo caso, ambas situações se mostram melhores do que a escolha por indicação política das Secretarias de Educação, algo que é visto de forma mais comum pelo Brasil.

 

  • Debater raça e gênero em sala é importante, sim

Se quisermos avançar como sociedade e formar cidadãos mais respeitosos e éticos, é emergencial debater questões de raça e gênero nas escolas. Nos EUA, por exemplo, crianças têm aula sobre sexualidade já a partir do 5º ano. Caso a família não deseje que seu filho ou filha assista as aulas de reprodução humana e gênero, é possível solicitar que a escola coloque a criança em outra atividade. Simples assim: sem briga, sem confusão. Vale lembrar que várias escolas ao redor do país já contam com banheiros comuns – não separados por gênero –, a fim de evitar constrangimento para as crianças trans.

A questão racial também é muito discutida nas escolas públicas norte-americanas. De forma lúdica, a partir do estudo de personalidades como Martin Luther King Jr. e Rosa Parks, professores debatem crimes raciais, ódio e intolerância. Crianças de apenas 8 anos, que estão no 3º ano do Ensino Fundamental, são convidadas a pensar sobre racismo e privilégios.

 

  • Preparar xs alunxs para o futuro

 

É grande o debate acerca da necessidade de introduzir habilidades do século XXI. Por isso, conteúdos como programação, inteligência emocional e empatia precisam ser urgentemente inseridos nas escolas.

 

  • Ensinar aos pais a importância da participação na educação dos filhos

 

Uma pesquisa realizada na cidade de Cambridge, nos EUA, revelou que pais de famílias muito pobres não sabem nem mesmo o que perguntar aos professores de seus filhos. Como a educação formal que essas pessoas tiveram foi muito pouca – ou quase nenhuma – eles sequer sabem como fazer para participar da educação escolar das crianças.

A verdade é que o buraco é bem mais embaixo do que a gente pensa, de modo que é muito importante – e também muito urgente – que gestores e professores se engajem para trazer esses pais para mais perto da escola. A educação é feita por várias mãos, e educar uma criança implica, muitas vezes, em educar os pais dessa criança.

 

  • Escutar a voz do jovem

 

O movimento de ocupação das escolas esteve na pauta em 2016. Desde a primeira escola ocupada, no início do ano, até a ocupação da Alerj e de outras Secretarias de Educação pelo Brasil, ficou claro que os secundaristas querem e precisam ser ouvidos.

Embora ainda haja um debate político sobre um assunto que deve ser encarado de forma técnica, as ocupações mostraram que os estudantes sabem ser organizados, tem pautas específicas e conhecem seus direitos.

O fato é que, para além das ocupações, o protagonismo jovem vem ganhando terreno no Brasil. Por isso é tão emergencial escutar o que esses alunos tem a dizer. O “Movimento Mapa Educação”, por exemplo, atuou de forma proativa durante as eleições do ano passado, questionando e monitorando as propostas sobre educação dos candidatos aos cargos municipais. Para saber mais sobre o “Mapa nas Eleições”, clique aqui.

 

  • O ensino técnico e profissionalizante precisa ser respeitado e ampliado

 

Assim como os millenials, a geração Z precisa ser reconhecida pelas suas habilidades, e não exclusivamente pela sua capacidade acadêmica. Um aluno ou aluna que opte por um curso técnico merece o mesmo respeito que um aluno que escolhe ser bacharel. Países como a Inglaterra, por exemplo, dão o devido valor ao cursos técnicos porque acreditam que os alunos merecem ser reconhecidos pelas suas habilidades, sejam elas quais forem. Para entender mais e encontrar detalhes sobre profissões “não-óbvias”, recomendo este vídeo da Jout Jout.

 

  • O currículo não pode ser uma enciclopédia

 

Quem é dos anos 80 como eu, conheceu a Barsa e a Enciclopédia Brittanica – assim, com dois “tês” mesmo. Como não havia internet naquela época, as enciclopédias eram a fonte de todo o saber. É evidente que num mundo com Wikipédia, ninguém mais precisa da Barsa.

No entanto, o currículo escolar segue enciclopédico. Embora as discussões sobre a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) estejam avançando – a previsão é a de que o texto final fique pronto ainda em 2017 –, até hoje nossos alunos são obrigados a cursar 13 matérias no Ensino Médio. Isso, convenhamos, está totalmente desalinhado com as necessidades do mundo atual.

Saber detalhes da reprodução das planárias não pode ser mais importante do que aprender sobre os perigos da mudança climática, ou sobre os graves conflitos que estão ocorrendo pelo mundo. Na Finlândia, a rigidez do currículo abriu espaço para disciplinas como empreendedorismo. Isso porque, para os finlandeses, a escola precisa evoluir junto com a sociedade. Tal qual os nórdicos, nós também precisamos urgentemente seguir por esse caminho.

 

  • Expandir, democratizar e melhorar a qualidade do ensino superior

 

Desde o final da década de 1990, o acesso ao ensino superior vem aumentando no Brasil, sobretudo graças ao crescente número de novas Instituições de Ensino Superior – IES autorizadas pelo MEC a funcionar. As políticas de financiamento educacional, como o FIES, o ProUni e o ReUni também contribuíram significativamente para elevar o número de novos alunos.

Se por um lado essa política expansionista deve ser vista com bons olhos no sentido de aumentar o acesso, por outro é preciso ter cuidado. E isso porque muitas IES foram abertas mas a qualidade do ensino é duvidosa.

Por isso, a atuação efetiva do INEP – órgão responsável pela fiscalização dessas IES – é extremamente relevante. Em linhas gerais: é preciso continuar a capilarização do ensino superior iniciada no início dos anos 2000 com a interiorização das universidades, mas assegurar qualidade do ensino e democratizar o acesso com políticas públicas de financiamento estudantil e cotas.

 

EDUCAÇÃO-NA-MIDIA

 

TEXTO ESCRITO POR CAROLINA CAMPOS

Sobre Carolina Campos

35, de Manaus, Amazonas. É advogada por formação e docente por vocação. Fez mestrado em Ciência Política, estudou Direito Empresarial, saúde pública, educação e feminismo. Como advogada, trabalhou em escritórios como TozziniFreire e Dannemann. No serviço público, atuou na ANVISA. Por sete anos, foi também professora do ensino superior. Tornou-se gestora educacional, trabalhou com assuntos regulatórios em educação, coordenou um Núcleo de Prática Jurídica e outro de TCC. Fez um curso sobre metodologia científica na Universidade Leuven, na Bélgica, para aplicar no Núcleo de TCC que coordenou. Foi assessora da direção do IDP, em Brasília. Um belo dia fez as malas, vendeu os móveis, empacotou os livros e foi morar com a família em Cambridge. Lá, trabalhou no MIT Brasil, concebeu e coordenou um evento voltado inteiramente para educação junto ao grupo de pesquisadores da região de Boston, o PUB-Edu. Atualmente, estuda novas tecnologias da educação na Universidade de Harvard, é jornalista da Fundação Estudar, voluntária do grupo Spouses&Partners do MIT e Diretora de Conteúdo do Mapa.


Sobre Maria Regadas

21 anos, é gerente da Diretoria de Conteúdo do Mapa e estudante de Engenharia Mecânica da PUC-Rio e do INSA de Lyon em um programa de duplo diploma. Atual fellow da Fundação Estudar, é apaixonada por viagens, séries de TV e gosta de acreditar que um dia levará a corrida a sério.

Postado por Lucio Flávio | Em 6 de abril de 2017 | Tags: , , , , ,

Dar voz e vez às crianças. Com este objetivo, foi lançada na última terça-feira, 1º de novembro, pelo Mapa da Infância Brasilera, a publicação “Quem está na escuta? Diálogos, reflexões e trocas de especialistas que dão vez e voz às crianças.”

Disponibilizado virtualmente através da plataforma Mapa da Infância Brasileira (MIB), o documento “sinaliza caminhos, constrói pontes e abre atalhos para uma temática bastante cara nos dias de hoje: a importância em ouvir, observar e dialogar com o universo da criança”, de acordo com os envolvidos no projeto.

Produzido de maneira colaborativa, a publicação reúne artigos de pesquisadores que atuam em diversas áreas ligadas à infância, como Manuel Sarmento, professor de sociologia da Infância da Universidade do Minho, em Portugal; Adriana Friedmann, idealizadora do MIB; Severino Antônio e Katia Tavares, professores e pesquisadores; David Reeks e Renata Meirelles, documentaristas e coordenadores do projeto Território do Brincar; Gabriela Romeu, jornalista e uma das idealizadores do projeto Infâncias; e Lindalva Souza, coordenadora do Vozes da Infância Brasileira (VIB).

O documento conta ainda com diversas iniciativas que trabalham diretamente com crianças em São Paulo e suas formas de ouvi-las, além de outras experiências de escuta infantil.

“Escutar as crianças é como fazer uma viagem ao território da infância”, afirma em seu texto Adriana Friedmann. “No percurso pelos universos infantis, o viajante descobre diversidade de linguagens, costumes, sabores, cheiros, músicas, danças, brincadeiras, histórias e paisagens. Assim, ao escutar e descobrir o que as crianças têm a dizer, novos mundos e repertórios descortinam-se à frente do adulto.”

Poética da infância é um dos artigos presentes nesse material que trabalha com cuidado a escuta da criança. Os professores e pesquisadores Severino Antônio e Katia Tavares tratam de uma educação em que as crianças possam pensar, sentir e se expressar poeticamente. Os autores defendem que as crianças, principalmente as pequenas, exercitem espontaneamente um pensamento mitopoético, em que tudo fala, assim como se transforma em tudo.

Os sentidos de ouvir foram também ampliados. A arte-educadora Lindalva Souza, coordenadora do Vozes da Infância Brasileira (VIB), traça rotas diversas para uma escuta lúdica, que inclui criação de mapas, construção de objetos, oficina de desenhos e brincadeiras de faz de conta. Para compartilhar as muitas formas de “ouvir” meninos e meninas de diversas instituições de São Paulo, o convite é percorrer o texto Cartografia de uma escuta sensível.

Sem nenhuma pretensão, mas numa tentativa de se delinear o próprio fazer, chamam esse olhar para as infâncias a fim de alcançar etnografias literárias que partem do real  e recontam a realidade. São uma espécie de infanciografias, ou escritas da infância, a partir da observação atenta das narrativas não-verbais das crianças, da escuta que faz ecoar mais do que o dito e do corpo acordado no encontro com a infância outra, em um diálogo intenso com a meninice em que fui cunhada. Para falar das infâncias, as narrativas são muitas – e essa é só uma delas.

 

Vale muito a pena conhecer. Confira a publicação na íntegra.


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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