Postado por Isabella Rozzino | Em 10 de novembro de 2017 | Tags:

Tenho visto muitas explicações sobre a dificuldade de construírmos uma educação de qualidade tendo como tese central ou assessória a ideia de que a culpa é do professor. Com duas perguntas, o foco desvia para dizer que a culpa não é do professor, mas de sua má formação. Ou seja, a culpa é do professor do professor!

O professor, que também sou, diz que a culpa é dos pais – que anseio ser –, que não fazem sua parte na educação dos filhos, que também sou, e dos governantes, que também sou, que não garantem as condições adequadas nas escolas, onde também sou. Os pais, quando não dizem que a culpa é da escola, talvez se lamentem (ou batam na cara) que a culpa é dos próprios filhos, que, como se fosse possível, não nasceram com o dom das ideias! Esse é o discurso e o caminho que iluminamos aos que chamamos de alunos! E o que é que estamos ensinando nessa busca frenética de culpados?

O recado dado é de que a responsabilidade é do outro, que não cumpriu nossas expectativas. É assim que construímos as Imagens Quebradas, discutidas por Miguel Arroyo. E, supondo que se pudesse um dia chegar a consenso nesse assunto, o que teríamos? Tão somente uma acusação unânime! Enquanto isso, a qualidade da educação seguiria tão comprometida quanto antes.

O que digo é simples: buscar culpados não adianta de absolutamente nada! Mais do que isso, considerar que há uma culpa individualizável, seja na pessoa, seja na categoria, seja numa instituição, é demonstrar que o problema não foi bem compreendido. Educação é social e sua responsabilidade é diluída por toda a sociedade – sem esquecer do desequilíbrio de possibilidades. Se nossa educação tem problemas, devemos todos nos mobilizar para superá-los. É da sociedade que emergem professores, governantes, mães e pais, e é na interação com essa sociedade que as crianças aprendem a ser. Não, não nascem sendo: aprendem!

Se não confiamos que pessoas se educam e mudam, que sociedades se reconfiguram, então não temos muito a contribuir na educação! Se assim for, não há porquê buscar culpados – a não ser que o façamos para que não os procurem em nós mesmos. Mas nos importamos e, por isso, temos que deixar de pensar que educar é verbo que se conjuga só na escola ou só na família, que professor só ensina e gestor só gere, que estudante só aprende ou não aprende. A educação é o que molda a vida, é o que esculpe identidades, sociedades. Pense no que moldou a sua. E pense no que professores, governantes, pais, mães, crianças e jovens têm ao seu redor. Essa é a qualidade que recebem da vida e isso é o que adjetiva a qualidade da educação que temos todos nós.

A educação que faz vidas (ou ao menos dá sentido a elas) também faz vítimas. E há, sim, responsáveis por melhorar esse quadro – o que cabe a todos, em medidas e possibilidades distintas. Buscar culpados é esquivar-se da própria responsabilidade. Culpar não educa, só produz culpados e culpadores. Cobrar responsáveis e fazer nossa parte é colocar a educação em prática. O verbo educador é o que mostra caminhos, exalta bons exemplos e se põe convicto e sereno contra o que é insensível, insensato ou agressivo.

Melhor esculpir do que culpar. É preciso reconhecer a proximidade semântica e, sobretudo, a proximidade humana.

TEXTO POR Valdoir Wathier


Sobre Isabella Rozzino

Postado por Isabella Rozzino | Em 19 de outubro de 2017 | Tags: , , , ,

A avaliação em larga escala precisa se reinventar no Brasil se quiser sobreviver aos avanços das expectativas da sociedade e às novas tecnologias. Da forma em que está posicionada atualmente não podemos deixar de reconhecer que a avaliação está na UTI. Estamos falando de sistemas centralizados de informações que foram implementados a partir da década de noventa com o intuito de auxiliar gestores escolares e gestores de sistemas com informações que subsidiassem suas decisões e a implementação de políticas públicas. A intenção de um sistema nacional de avaliação esbarrou em dificuldades de operacionalização, sobreposições de esforços entre os entes federados, divulgação deficiente e tardia e uma pesada crítica de que a avaliação de resultados não é suficiente para os propósitos pretendidos pela avaliação. A avaliação em larga escala como conhecemos hoje está com os dias contados mas a boa notícia é que uma nova avaliação já está nascendo e ela será ainda mais forte e mais necessária para assegurar o cumprimento do direito à educação.

Esse novo sistema de avaliação nasce com um papel tão imprescindível para concretizar o direito a educação quanto o próprio esforço de se construir um sistema educacional. Duas grandes questões do debate educacional atual podem nos ajudar a compreender a importância do sistema de avaliação. Se de um lado a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) avançou na definição do que vem a ser o direito à educação quanto aos aprendizados, do outro as discussões sobre o Custo Aluno Qualidade (CAQi e CAQ) têm avançado no sentido de estabelecer padrões para o financiamento de condições mínimas adequadas para o processo ensino, o que também configura um aspecto do direito a educação. Esses dois direcionamentos auxiliam o sistema a focalizar melhor seus esforços pois ajudam a criar um conceito comum sobre o próprio direito a educação. Ou seja, a BNCC estabelece um ponto de chegada comum para o sistema e o CAQ as condições mínimas necessárias para a trajetória até a aprendizagem.

No entanto, tanto a BNCC quanto o CAQ são normas programáticas para o sistema, ou seja, são intenções que se desejam concretizar. Aqui entra o papel fundamental de um novo modelo de avaliação que terá de deixar de ser de larga escala para contemplar a escala inteira e não deixar ninguém para trás quanto ao direito à educação. É o sistema de avaliação que dará voz ao direito, concretizado ou não, em cada escola, para cada criança de nosso país. O ponto fundamental para esse novo modelo de avaliação, portanto, será iluminar decisões do Estado e da Família no caminho de uma educação de excelência com condições de igualdade, outro requisito Constitucional.

E porque achamos que o atual sistema está doente e prestes a morrer? Em nosso ponto de vista, dois fatores são fundamentais para a análise. Primeiro, o atual sistema carece de atores-chave que não aceitarão mais uma posição coadjuvante e; as novas tecnologias habilitarão a disruptura do atual modelo de monopólio estatal da avaliação produzido de maneira centralizada, com processos sequenciais, gestão unilateral e a serviço de gestores, pesquisadores e especialistas.

Quanto ao primeiro ponto, o sistema atual carece de novos atores integrados ao sistema. A Constituição compartilha o dever da educação ao Estado e à família em colaboração com sociedade. No entanto, nosso sistema de avaliação é praticamente impermeável sobre o que pensam as famílias, a sociedade e os próprios alunos e professores sobre o sistema educacional. Um enorme esforço é feito para capturar o aprendizado dos alunos e novos esforços surgem no sentido de avaliar também os professores. Nenhum desses caminhos se sustentarão no futuro. Alunos e professores não aceitarão mais apenas passivamente o papel de avaliados. Eles demandarão o papel ativo de avaliadores do sistema. Os movimentos de ocupação das escolas por parte dos alunos dão uma pista nesse sentido, da necessidade que os alunos tem de emitir opiniões sobre o sistema de ensino e de participar ativamente da avaliação da qualidade da própria aprendizagem.

O estopim do novo modelo de avaliação, que integrará de modo colaborativo diversos atores atualmente coadjuvantes do sistema de avaliação, serão as novas tecnologias. A profusão de smartphones, a internet das coisas, e a nuvem de informações sobre os alunos, escolas e redes de educação são os ingredientes de uma revolução que está por vir quando o monopólio da avaliação oficial será substituído por um sistema colaborativo de avaliação onde alunos, professores, gestores e toda a sociedade atuarão de modo orgânico alimentando e consumindo informações sobre aprendizados, trajetórias, qualidade das escolas, qualidade de professores, currículos, métodos de ensino aprendizagem.

Por fim, o novo sistema de avaliação que sonhamos terá como propósito orientar decisões para a busca de uma educação de excelência e para diminuir desigualdades. Nossa geração não aceita mais que o sistema educacional ao invés de potencializar as capacidades humanas faça exatamente o contrário, nivelando por baixo os talentos, forçando uma convergência de habilidades que limita os talentos humanos, estratificando as pessoas pela renda de suas famílias e condenado o desenvolvimento do País. A avaliação que aponta para o futuro respeitará ritmos de aprendizado, abrangerá uma constelação de habilidades, atitudes e valores convergentes com o projeto de nação e denunciará sempre que alguém estiver sendo deixado para trás nesse projeto.

TEXTO por Alexandre Andre dos Santos, Anderson Soares Furtado Oliveira e Helber Ricardo Vieira, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira.


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