Postado por Mapa Educação | Em 15 de junho de 2017 |

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O último post desse blog apresentou alguns dos impactos da violência na educação. Conforme citado no texto, pesquisas indicam que há diferenças significativas no desenvolvimento neurológico de crianças que vivem em condições de pobreza e que enfrentam constantes situações de adversidade e de vulnerabilidade. Logo, quanto mais as crianças viverem em condições de pobreza, maior será o déficit de aprendizado relacionado principalmente à habilidades fundamentais exigidas na escola, tais como atenção, memória, e funções executivas. Em países como o Brasil, onde a pobreza atinge parte significativa da população, é fundamental compreender as implicações desse cenário para a avaliação do rendimento escolar, bem como na necessidade de políticas públicas bem estruturadas para atender a população de baixa renda.

 

A capacidade humana de aprendizado envolve uma complexa rede de neurônios em constante conexão que transmitem e armazenam informações no cérebro. Entretanto, o impacto da pobreza no desenvolvimento cerebral não deve ser olhado de maneira fatalista e simplista, já que as sequelas não são irrecuperáveis pelo fato do cérebro ter “plasticidade” para se modificar quando recebe estímulos suficientes para tal. Logo, apesar de milhares de crianças serem criadas em condições de pobreza, seus cérebros ainda podem desenvolver-se adequadamente caso frequentem ambientes onde se sintam seguras e protegidas emocionalmente. Além disso, por meio de relacionamentos com adultos, como professores e os pais, as crianças podem diminuir o nível de estresse, podem desenvolver resiliência e podem aprender mecanismos de enfrentamento capazes de proteger seus cérebros contra dificuldades e adversidades advindas da pobreza. Em poucas palavras, as crianças podem aprender como lidar com o estresse desde cedo se tiverem adultos preparados e instrumentados para orientá-las, assim como priorizar as ações educacionais voltadas a primeira infância.

 

Para otimizar esse processo, é estruturante que hajam programas sociais destinados aos pais durante os primeiros cinco anos de desenvolvimento de seus filhos. Os próprios pais podem começar a ser preparados tão cedo quanto durante a gravidez para que possam fornecer estratégias efetivas para proteger os cérebros em desenvolvimento de seus filhos.  Além disso, embora muitas escolas tenham profissionais altamente treinados para fins educacionais, a aprendizagem emocional devem ser incorporada no currículo básico de ensino com a mesma importância dada a alguns requisitos básicos, como matemática e gramática. Ao fazer isso, as escolas podem ensinar os alunos a se sintonizar com seus sentimentos e a lidar com as contingências relacionadas a pobreza, aumentando o nível de resiliência.

 

Certamente é urgente que diferentes áreas de atuação estejam envolvidas na intersecção entre educação e violência. Tal temática requer políticas de segurança, inclusão social e políticas públicas educacionais destinadas a parcela mais vulnerável da população brasileira. Entretanto, é importante refletir também sobre alguns fatores que vão além do desenvolvimento cerebral, tais como o viés implícito dos professores de que crianças de baixa renda não aprendem como deveriam, a falta de nutrição infantil adequada e o baixo investimento nas escolas em comunidades pobres, podem ter uma contribuição negativa mais significativa para o desenvolvimento cerebral de uma criança e podem tornar o aprendizado praticamente inatingível. Além disso, a visão isolada que crianças de baixa renda possuem cérebros menos desenvolvidos pode alimentar perspectivas reducionistas e pode levar a uma simplificação excessiva da importância de questões educacionais.

 

TEXTO por Ana Carolina C D’Agostini, Coordenadora de Conteúdo do Movimento Mapa Educação, Lemann Fellow e Mestre em Psicologia da Educação pela Columbia University.

 


Sobre Mapa Educação

Postado por Mapa Educação | Em 11 de maio de 2017 |

Em agosto do ano passado, em uma visita ao Complexo do Alemão no Rio de Janeiro, escutei de moradores que eles tinham uma contagem de pouco mais de 180 dias ininterruptos. Fiquei curioso com o que poderia ser tão interessante que há tanto tempo se perpetuava. Essa contagem, infelizmente, se referia ao número de dias seguidos que havia troca de tiros na comunidade.

 

Me lembrei desse número quando vi, na semana passada, o documentário Som da Guerra*, do jornal Voz das Comunidades. Fiz contato com amigos que moram na região para descobrir em que pé estava esse triste dado estatístico (a escalada da violência nos noticiários fazia oposição à minha esperança de que aquela contagem tivesse sido interrompida por um par de dias). Tive a notícia de que a contagem havia sido abandonada. Não havia motivo para continuar contando. Não há perspectiva de que os tiros cessem.

 

Essa situação, por diversos motivos, é um completo absurdo. Seja pelas vidas que perdemos a cada dia, seja pelos dias de aula que deixam de ser ministradas. Não falamos aqui ainda de políticas públicas, falamos do absurdo existencial que essa situação representa. Por fim, com a persistência dessa situação, estaremos tornando aquela área (assim como todas as outras áreas de violência extrema ou fome) em espaços onde gerações terão grande dificuldade de serem educadas.

 

Estudos recentes destacam a influência negativa do em crianças. Esse conceito se refere a exposição de crianças, de maneira prolongada, a contextos de violência, abuso físico, pobreza extrema ou fome. Isso acarreta no atraso biológico do seu desenvolvimento. Esses estudos destacam o envelhecimento precoce do cérebro, a maior propensão a determinadas doenças e ao reduzido número de conexões neurais que essa juventude apresenta.

 

O quadro descrito deve ser lido de duas formas. Primeiro, a universalidade do ensino fundamental que atingimos há pouco tempo não é o suficiente. Pensar no desenvolvimento de cada criança é necessário, caso contrário o esforço para colocar todas as crianças em sala de aula terá sido em vão; parte das crianças chegam na sala de aula com sua capacidade de aprendizagem limitada. Segundo, a primeira infância não deve ser encarada apenas como um campo de pesquisa para pedagogia. Estudiosos da área já apontam a necessidade de atacar a desigualdade como fator preponderante para os quadros de exposição infantil ao estresse tóxico.

 

A educação de uma criança, no tocante ao poder público, não depende apenas de políticas públicas educacionais. Políticas de segurança e seguridade social direcionadas aos mais vulneráveis devem ser debatidas com urgência. Garantir uma educação para todos é mais do que um dever moral, é uma obrigação constitucional. Pensar na melhor forma de fazê-lo é objeto de estudo de um bom gestor público. Deve-se levar em consideração que o investimento feito na primeira infância será recuperado a médio prazo. Segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), 1 dólar investido nessa faixa etária gera economia de 7 dólares em assistência social, atendimento a doenças mentais, manutenção de sistemas prisionais, repetência e evasão escolar; 15 dólares per capita em doenças que continuam manifestando-se na vida adulta como depressões e abuso de drogas, entre outros.

 

 

Há um célebre ditado popular que diz que é necessária uma aldeia para criar uma criança. No debate da guerra às drogas, da fome e da desigualdade social, deve ser levado em conta o argumento de que o avanço nessas agendas é atestado do nosso compromisso com os diversos “Brasis” possíveis de amanhã. Deixou de ser um debate em matéria de fé de que essas crianças têm menores condições de sucesso do que outras não expostas ao Estresse Tóxico. A biologia atesta que há diferenças de desenvolvimento neurológico entre nossas crianças, despertadas por situações de adversidade. Precisamos agir.

 

O conceito de estresse tóximo é “O estresse tóxico é caracterizado por exposição frequente ou prolongada a uma situação de adversidade como, por exemplo, abuso físico/emocional, negligência, pobreza extrema, exposição à violência e outros eventos traumáticos, sem suporte adulto adequado.

 

*Documentário Som da Guerra:  https://www.youtube.com/watch?v=sXqa0-Poc2A

– TEXTO POR GABRIEL DOLABELLA, 21, Co-fundador do Movimento Mapa Educação e bolsista da graduação em Direito pela FGV-RJ.

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FONTE: http://of.org.br/noticias-analises/direito-a-educacao-nas-favelas/


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