Postado por Isabella Rozzino | Em 27 de junho de 2018 | Tags: , ,

São poucas as pessoas que durante a sua vida não ouviram alguma frase do tipo “você não pode fazer isso, não é coisa de menina”, ou “Homem de verdade gosta de (complete a frase com um estereótipo masculino)”. Desde que somos pequenos, frases do tipo nos ensinam o que fazer e o que não fazer de acordo com o gênero, o que acaba por moldar uma parte significante dos comportamentos e gostos das pessoas. Quebras deste tipo de paradigma, em geral, sofrem fortes críticas dos mais conservadores e exigem muita resistência para uma mudança verdadeira na concepção que há sobre as atribuições a cada gênero. Apesar de haver exemplos claros do quanto o conservadorismo molda estas atribuições, como a relação de homens e trabalho, futebol, cerveja, e mulheres e maternidade, cuidar da casa, produtos consumidos, etc, os vieses de gênero interferem em diversas esferas sociais, e a educação é uma delas.

De fato, relativamente a outras situações, identificar no dia-a-dia a imposição dos vieses dentro da educação e da sala de aula talvez seja menos óbvio, mas os próprios resultados de alunos muitas vezes explicitam a sua existência. Um dos exemplos é a associação entre os gêneros e matérias de exatas. É testado que resultados de mulheres em matemática são  menores que os de homens em diversas situações, por exemplo, há diversos estudos sobre o SAT, teste padronizado dos EUA, no qual meninas têm médias menores em exatas. Observa-se também uma recorrente fuga feminina de cursos com mais matemática e física, e cursos como engenharia são dominados por homens, enquanto cursos mais “artísticos” têm um alto percentual de mulheres. Ainda assim, o gap feminino em matemática muitas vezes é tomado como um resultado banal ou tenta-se encontrar reações biológicas, enquanto estudos têm indicado que isso pode ser resultado de vieses de gênero, que agem desincentivando mulheres na área.

Um estudo interessante realizado nos EUA com estudantes universitários tentou replicar os estereótipos de gênero [1], aplicando testes de matemática nos estudantes mediante diferentes estímulos para visualizar seus efeitos nas notas. A partir disso, chegou-se ao resultado de que em todas as situações que antes de um teste avançado avisou-se que era possível haver uma diferença entre os gêneros na nota, o desempenho feminino no teste caiu em relação ao masculino.  Enquanto isso, quando os participantes eram avisados de que o gênero não influenciava a performance, as notas obtidas foram semelhantes. Ou seja, quando há um estereótipo negativo, as pessoas que se encaixam neste grupo têm seus comportamentos e desempenhos de modo a corroborar com o que era previsto.

Nesse sentido, quando se desincentivam meninas a estudar matemática na escola, quando se diz que engenharia é uma profissão para homens ou quando se direcionam mulheres para aptidões ditas “naturalmente” femininas, como as áreas mais criativas e artísticas, há um reforço dos estereótipos da sociedade, que por sua vez atuam através de mecanismos psicológicos, que pressionam mulheres no sentido de desempenhar mal e confirmar o viés, ao mesmo tempo que dão aos homens uma segurança prévia por já estarem à frente.

[1] SPENCER, J.S.; QUINN, D. M.; STEELE, C. M. Stereotype Threat and Women’s Math Performance. Journal of Experimental Social Psychology., p. 4-28, 1998.

TEXTO POR Catarina Caricati


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Postado por Isabella Rozzino | Em 7 de dezembro de 2017 | Tags: ,

A perspectiva está bem clara: se a gente não tratar o abismo digital que está dividindo a sociedade como um problema de alfabetização não vamos conseguir avançar como economia. Parece radical e é. Temos uma minoria da sociedade que entende o que todas as siglas como WWW, IP, DNS, HTML, CSS e um bando de nomes como Python, Ruby, Swift. ESTAMOS REVIVENDO A ERA DOS ESCRIBAS! A única diferença é que dessa vez é digital! A maioria das pessoas ainda acha que tudo que acontece no mundo digital, na web, nos smartphones e notebooks, é mágica. Acreditam que esse mundo não é para elas. E pela primeira vez na história temos um “segundo mundo” real acontecendo em paralelo, com desdobramentos reais, com conseqüências reais. O mundo “real virtual”. Para além do mundo natural que existe desde o sempre, temos essa nova vida que se desenrola numa dinâmica que duplica pessoas, que cria identidades “não-físicas”. Um mundo no qual passamos a maior parte do nosso tempo.

Acompanhem meu raciocínio: não perguntamos para as nossas crianças se elas querem aprender a ler e escrever, mas entendemos que para elas se desenvolverem nesse mundo físico essa habilidade é essencial.. Nós decidimos que era importante para o avanço da sociedade do mundo físico que todos lessem e escrevessem e não dependessem de ninguém para isso. Com o avanço dos séculos e o surgimento desse mundo digital real virtual, qual vai ser a habilidade essencial? Ainda que a decisão de vida profissional não seja programar, todos os seres humanos vão ter que entender o processo e realizar as tarefas cotidianas com tranquilidade nesse novo mundo como fazemos com leitura e escrita.

Nem tudo é tão simples, como também não foi para ensinar a humanidade a ler e escrever. Precisamos investir tempo, dinheiro, esforço e máquina pública para viabilizar tal avanço na nossa educação e consequentemente na economia. Não vai ser da noite pro dia, mas é urgente, por isso precisamos começar a discutir essa transformação com mais intenção. Estamos vendo alguns movimentos com a nova Base Nacional. Vemos prefeituras como São Paulo declarando que ensino de programação vai fazer parte do currículo. Mas como? Onde? Porquê? Estamos fazendo isso de maneira a distorcer ainda mais o cenário e manter as desigualdades nacionais? Estamos ensinando pensamento crítico também?

Precisamos falar de Política Pública Nacional. Precisamos envolver o país na discussão e desenvolver mecanismos de sustentar esse avanço, senão vamos construir apenas mais uma forma de desigualdade, as altas cúpulas já chamam de Digital Division of the Planet. A última coisa que o Brasil precisa é de mais uma forma de concentração de conhecimento e renda. Não quero ter que explicar para as pessoas o que é a Brazil’s Digital Division.

TEXTO POR Camila Achuti


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