Postado por Christian Frederico | Em 19 de junho de 2016 |

A preocupação ambiental como politica de estado surgiu apenas na década de 1970, após a Conferência das Nações Unidas em Estocolmo, Suécia. Desde então, uma série de avanços (ainda que tímidos) foram feitos no sentido de questionar e intervir no impacto da ação humana sobre a natureza. A educação ambiental surgiu, então, como uma estratégia para repensar as relações entre homem e natureza. No Brasil, a Constituição de 1988 estabeleceu a necessidade de “promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente”. Ainda na direção de uma maior concretude da educação ambiental no país a Lei 9.795/99, que além de decretar que a educação ambiental é um componente essencial e permanente da educação nacional, ainda estabeleceu no seu Artigo 10 que a educação ambiental deve ser desenvolvida como prática educativa integrada e não deve ser implantada como disciplina específica no currículo.

 

Educação-Ambiental2

imagem: meioambiente.culturamix.com

Todos reconhecem a importância da educação ambiental, não só para a preservação do meio ambiente, mas, também, na formação de um cidadão consciente de seus deveres. E empresas adicionam o selo de “sustentabilidade” como forma de se mostrarem progressistas e atuais. Apesar disso, a educação ambiental enfrenta sérios desafios. Os principais deles são referentes à qualificação dos professores que, muitas vezes, não recebem a orientação adequada sobre como aproveitar o tema. Ou seja, não existe um projeto pedagógico que consiga abarcar a intertextualidade do tema.

Educação socioambiental refere-se ao conjunto de ações e valores que correspondem à dimensão pedagógica dos processos comunicativos ambientais, marcados pelo dialogismo, pela participação e pelo trabalho coletivo. A indissociabilidade entre questões sociais e ambientais nos atos educativos e comunicativos é ressaltada pelo termo socioambiental.

Uma educação socioambiental deve ir além do simples apostilismo e da padronização da educação que se vive hoje. O contato com o meio ambiente faz-se necessário, pois tem-se a oportunidade de se pensar as relações entre homem e ambiente, além de reconhecer algo que todos temos em comum.

Porém, um projeto de lei que caminha na direção oposta a isso, o PLS 221, de 15/04/2015, altera a Política Nacional de Educação Ambiental. Ele dispõe sobre a inserção da educação ambiental como disciplina específica no Ensino Fundamental e Médio. Ou seja, quer-se limitar e apostilar o ensino ambiental. Educadores ambientais lançaram um manifesto  contrário ao projeto pois este inclui como objetivo fundamental da educação ambiental promover o uso sustentável dos recursos naturais, o que representa um retrocesso, uma vez que reduz a importância da biodiversidade e do ambiente em geral, a uma visão utilitarista da natureza, antropocêntrica e produtivista.

A educação ambiental deve ser interdisplinar e transversal. É muito dificil promover uma concientização sem explicar os conceitos e processos históricos, as consequências ambientais ou as relações químicas entre os elementos. Contudo, ações pontuais não vão despertar o comportamento adequado. A vivência com a natureza, o envolvimento com a comunidade e a criação de um projeto pedagógico que vá além da estrutura de disciplinas são elementos necessários para que o avanço no tema continue.

 

link para manifesto: https://redesustentabilidade.org.br/2016/03/11/nota-educadores-ambientais-contra-o-pls-2212015/


Sobre Christian Frederico

20 anos, de São Paulo capital. Graduando em Economia na Universidade de São Paulo, é Presidente do Cursinho FEAUSP, cursinho popular administrado por alunos da Faculdade de Economia e Administração da USP. É, também, bolsista do projeto ISMART, programa que oferece oportunidades de educação para jovens de baixa renda. Além disso, é poeta nas horas vagas. Acredita que a educação é o grande motor transformador e pretende se dedicar a essa área no futuro, além, é claro, da poesia.

Postado por Lucio Flávio | Em 12 de maio de 2016 | Tags: , ,

Na coluna desta semana apresentarei a experiência da Escola Estadual João Cesar de Oliveira com o o Projeto Caminhando Juntos (Procaj).Tal instituição é de Diamantina-MG e atende estudantes de nível fuvandamental e médio da comunidade local onde, em 2010, foi desenvolvido um projeto que ganhou o nome de “Eu, Você e a Escola, Educação que Transforma”; iniciativa que realmente apresentou à comunidade como a educação pode transformar suas vidas.

A diversidade que constituía o universo da Escola Estadual João Cesar de Oliveira era a mesma que deixava marcas indesejáveis no ambiente escolar. Essa foi a percepção de Eliane Sales Pereira ao assumir a direção da instituição em 2007, onde por muitos alunos serem de comunidades quilombolas e/ou afrodescendentes, não eram raros episódios de racismo, preconceitos e até violência física entre os alunos.

Diante desse ambiente que dificulta qualquer tentativa de educação , Eliane sentiu a necessidade de propor uma ação interdisciplinar capaz de trazer temas comuns do cotidiano para reflexão, como aproximar os atores que compõem a instituição, como os estudantes – em torno de 300 entre fundamental e médio -, docentes e outros profissionais, familiares e comunidade.

O trabalho se iniciou com a chamada Acão Global, trabalho resultante da união entre Globo, SESI e outras instituições, em 2010, quando a escola foi aberta por um dia para oferecer atividades diversas ao público, por meio de parcerias locais. Tais acordos incluiam o distrito de Inhaí, o Conselho Tutelar, a Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucurí (UFVJM), a Promotoria da Infância e Juventude, as Secretarias Municipais de Educação, Saúde e Meio Ambiente, e as polícias locais, civil e militar. Na ocasião, foram oferecidas oficinas aos estudantes, como futebol, além de atendimentos jurídicos para a comunidade, apoio para emissão de documentos pessoais e serviços como corte de cabelo.

Da experimentação à prática

A repercussão em torno da abertura da instituição foi mais do que suficiente para que a diretora decidisse incluir essas práticas aprendidas na rotina diária escolar. Além dos parceiros já estabelecidos, Eliane entrou em contato com o “Projeto Caminhando Juntos (Procaj)” e dessa união nasceu o “Eu, Você e a Escola, Educação que Transforma” , projeto que visa ampliar a abordagem curricular e a interlocução da instituição com a comunidade.

A iniciativa mantém como princípio a escola aberta com a promoção de oficinas uma vez por semana, fazendo com que todos os estudantes tenham duas horas a mais de atividade diárias – cujo planejamento considera a demanda dos alunos e o trabalho semanal realizado pela equipe pedagógica da escola em conjunto com a do Procaj.

Nesses momentos com o procaj,  busca-se realizar uma mobilização interna para o projeto, além de alinhar a educação integral que querem. A escola atende em turno regular e tem duas turmas de educação integral nos anos iniciais do ensino fundamental, com 50 alunos.

Atualmente são oferecidas oficinas de dança, leitura e esportivas; há o cantinho da beleza (onde é possível contar com atendimentos como cortes de cabelo, unhas e orientações sobre higiene pessoal), sala de vídeos educativos e a sala preto no branco (que oferece palestras orientadas aos familiares).

Esses momentos consideram os saberes comunitários: os próprios moradores podem ficar a cargo dessas atividades como voluntários, como é o caso das professoras de dança e de música, que moram no entorno da escola em Inhaí.

Eliane também destaca a participação dos professores nas oficinas para que a aprendizagem não seja desconectada da sala de aula. “Por exemplo, se vamos falar sobre DSTs na aula, já nos articulamos para trazer um profissional que possa nos apoiar com o desdobramento do tema para outras atividades”, exemplifica.

Ainda de acordo com a gestora, hoje se fazem presentes na instituição temas como segurança alimentar, abuso sexual, violência doméstica, uso de drogas entre outros fundamentais para o desenvolvimento integral das crianças e adolescentes.

O percurso ainda é avaliado a cada dois meses pela equipe da escola e pelo Procaj, forma de entender a viabilidade das ações que permanecem propositalmente inacabadas, criando um caráter de construção contínua, e também de considerar as novas demandas que a instituição apresenta com o tempo.

Reconhecimento

Os benefícios do projeto extrapolam o espaço escolar. Os alunos sentem a melhora da autoestima e, com isso, tornam-se mais interativos e apresentam saltos na aprendizagem. Hoje eles expressam seus desejos e necessidades com a equipe escolar. Também foi possível ampliar o diálogo com a universidade: 59 alunos ingressaram no ensino superior, algo que, antes, era quase impensável.

Além disso, a diretora fala sobre o papel da iniciativa no fortalecimento da cultura da comunidade que vive em um território marcado pela atividade garimpeira e que possui a roça, o cultivo e o garimpo como principais ofícios.

O projeto me chamou a atenção por ter possibilitado à instituição o seu primeiro prêmio, recebido ainda no final de 2015: a Escola Estadual João Cesar de Oliveira foi a vencedora da 11ª edição do Prêmio Itaú Unicef, que visa fortalecer as práticas que dialogam com a educação integral.

Com isso, Eliane fala em ampliar a iniciativa. Querem melhorar as oficinas, comprar equipamentos e materiais para as atividades, pintar a escola e promover o intercâmbio dos alunos com outras unidades de educação do país.

Referência:

Educação e Participação – 11º edição do Prêmio Itaú Unicef – Grande Vencedor Nacional: https://educacaoeparticipacao.org.br/instituicoes-premio/eu-voce-e-a-escola-educacao-que-transforma/


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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