Postado por Lucio Flávio | Em 23 de fevereiro de 2017 | Tags: , , , , , , , ,

Em um mundo cheio de tablets, notebooks e smartphones, nossas crianças tendem a conviver com a escrita e com textos escritos diariamente desde muito cedo. Esse processo é algo natural e inevitável e, como só avança, nos faz pensar sobre como assegurar, durante a etapa de Educação Infantil, os tempos e os espaços para as brincadeiras e outras formas de expressão que não dependem, necessariamente, de tecnologias digitais. Nesse contexto, muitos educadores e pais se preocupam –  com razão – em lutar para garantir que os pequenos continuem tendo direito às velhas e livres formas de expressão: pintar (e se pintar), dançar, cantar, brincar com terra, brincar de teatrinho etc. Formas de existir e estar no mundo que sempre foram próprias da condição de ser criança.

Também concordo com essa cruzada e fico muito preocupado ao observar que , ao lado da perda (ou redução) de oportunidades de viver tais formas mais livres de expressão, muitas crianças têm sido precocemente iniciadas em um rígido processo de aprendizado da escrita alfabética, nos mesmos moldes repetitivos e pouco prazerosos que tínhamos décadas atrás.

Repensando o “B + A = BA”

De norte a sul do país, vemos que algumas escolas, tanto privadas como públicas, continuam praticando um ensino que não só visa  “treinar” os pequenos para a alfabetização (através, por exemplo, de mecânicos exercícios de coordenação motora, em que se cobrem pontinhos ou letras são copiadas), mas insistem em “transmitir lições” sobre o valor sonoro das letras. Um exemplo disso é a frequente prática de ensinar às crianças coisas como “LA-LE-LI-LO-LU”, típicas dos velhos métodos sintéticos, que tanto criticamos desde os anos 1980. A transferência da antiga “série de alfabetização” para o primeiro ano do ensino fundamental, quando a criança completa seis anos, parece ter levado certas escolas a quererem “alfabetizar à força”, quando os aprendizes têm ainda quatro ou cinco anos!

Contra esse despropósito, penso que é possível e necessário garantir a nossos meninos e meninas uma convivência prazerosa com o mundo dos textos escritos e com o mundo das palavras e das letras que as formam. Afinal, sabemos, também desde os anos 1980, que o avanço gradual para a condição de alfabetizado envolve dois domínios de conhecimento, a compreensão das letras e palavras para sua reprodução escrita e para sua capacidade reflexiva a partir dos significados.

Um outro modo de trabalhar com as palavras

Sabemos que, participando de rodas de leitura, desde os três ou quatro anos, a criança, aos poucos, aprende a compreender e a escrever  textos escritos (histórias, convites, instruções de jogos etc.) com os quais  se depara em livros, revistinhas e  tablets, condição necessária para que um dia possa  ser plenamente alfabetizada.

Sabemos também que, para compreender como as letras funcionam, o aprendiz precisa desenvolver uma atitude reflexiva diante das palavras. Isso pode começar cedo, quando, em vez de pedirmos que “cubra letrinhas”, lhe propomos brincar de colecionar palavras que se assemelham de algum modo ou de descobrir palavras que rimam.

Aprendendo pela convivência

Uma convivência curiosa e prazerosa com os textos e com as palavras  faz com que muitas crianças concluam a Educação Infantil já escrevendo pequenos trechos compreensíveis.  Ou, então,  demonstrando que avançaram muito na compreensão das letras ao, por exemplo, exporem  (em um tablet ou em uma folha de papel) que com as letras I O E pode-se escrever… picolé.

O legal é quando vemos que se engajam nessas “explorações”no mundo da escrita ao mesmo tempo  que adoram brincar com areia ou tomar banho de mangueira, jogando água para todo lado.


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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