Postado por Marcos de Aguiar Villas-Bôas | Em 20 de dezembro de 2016 |

Estudos científicos e experiências comprovam que a meditação deve ser ensinada na escola.

Em seu best seller The Happiness Hypothesis: Finding Modern Truth in Ancient Wisdom (A Hipótese de Felicidade: Encontrando a Verdade Moderna na Sabedoria Antiga), o psicólogo social e pesquisador americano, Jonathan Haidt, disse: “Suponha que você leu sobre uma pílula que poderia tomar uma vez por dia para reduzir a ansiedade e aumentar o seu contentamento. Suponha que a pílula tem uma grande variedade de efeitos colaterais, todos bons: aumento da autoestima, empatia e confiança, que melhora até a memória. Suponha, finalmente, que a pílula é natural e não custa nada. Você a tomaria? A pílula existe, é chamada meditação”.

A meditação é, infelizmente, como vários outros temas, ainda bem menos conhecida no Brasil do que em outros países, especialmente nos desenvolvidos. Isso decorre dos mesmos fatores de sempre: a pobreza impede que informação avançada chegue a mais da metade do país, o pouco conhecimento de línguas estrangeiras dificulta o acesso aos estudos realizados no exterior, os brasileiros leem pouco etc.

Há também em torno da meditação alguns preconceitos, sendo ela associada à religião budista ou ao espiritualismo, que é uma verdade apenas parcial, pois já se tornou tratamento médico e psicológico há algum tempo.

Apesar de já ser estudada cientificamente há mais de 50 anos, o número de estudos cresceu exponencialmente nos últimos 20 anos (vide figura abaixo)[1]. Eles comprovam que os seus benefícios são diversos e com potencial de mudar completamente a vida de um indivíduo, tornando-o mais atento, equilibrado (menos estressado) e capaz de tomar boas decisões. Meditar torna o praticante mais inteligente.

grafico-meditacao

Estudos realizados no Massachusetts General Hospital (Hospital Geral de Massachusetts) por professores da Harvard Medical School (Escola Médica de Harvard), como James E. Stahl e Sara Lazar, comprovam que a prática de artes de relaxamento, como a meditação e a yoga, leva a um gasto muito menor de despesas com saúde[2].

O estudo vem sendo realizado desde 2006 e os dados são colocados numa base disponível na Internet[3]. Não se trata apenas de relaxar. Muitos pensam, errada ou acertadamente, que não são ansiosos e que, por isso, a meditação não se aplica a eles. Estão errados.

Os efeitos psicológicos envolvem cura ou redução de: ansiedade, sendo uma poderosa ferramenta para ajudar alguém a parar de fumar, depressão, síndrome de fadiga, insônia, síndrome de irritação, raiva e assim por diante.

Os efeitos[4] não são, contudo, apenas psicológicos, mas de melhoria neurológica, cardiovascular (ex. controle de pressão alta), gastrointestinal, muscular (ex. cura ou alívio da dor) e, provavelmente, outros ainda não conhecidos.

A pesquisadora e professora de Psicologia em Harvard, Sara Lazar, é hoje uma das maiores autoridades científicas na matéria. Ela conta que, alguns anos atrás, estava treinando para a maratona de Boston e teve algumas contusões musculares. Foi-lhe indicada a prática de yoga. Como costumeiro, ela pensou que ia para lá fazer relaxamento, alongamentos e, então, melhorar os músculos.

Após algumas semanas de prática, contra suas próprias crenças iniciais, Lazar notou que estava mais calma, com mais compaixão e se sentindo melhor para lidar com situações difíceis. A primeira conclusão foi a de que seria um efeito placebo pelo fato de sua professora de yoga ter dito que ela perceberia tais benefícios. Ao buscar a literatura científica, notou, entretanto, que já havia muitos estudos mencionando esses mesmos efeitos.

A primeira pesquisa conduzida por Lazar[5], juntamente com professores de Harvard, Yale e outras instituições, comparou meditadores experientes com um grupo controlado. Eles notaram que praticantes de meditação de longo prazo tinham mais massa cinzenta em regiões insulares e sensoriais, como no córtex auditivo e sensorial, que estão relacionados à atenção na respiração e em sons, parte das práticas de meditação e yoga.

O aumento de massa cinzenta também foi notado no córtex frontal, que está relacionado com a memória e a tomada de decisões.

Outro estudo científico[6], realizado com 48 fuzileiros navais americanos, comprovou que, com práticas do que os americanos chamam de mindfulness (atenção plena), foi possível desenvolver nos soldados mais controle das emoções, melhor memória e capacidade de decisão em situações de conflito. Tal prática só vem crescendo no exército americano[7].

A literatura, baseada em vastos dados empíricos, é variadíssima e convergente quanto ao que está sendo dito aqui. Partindo, então, dessa premissa de que estão amplamente comprovados cientificamente os efeitos muito positivos da meditação, cabe questionar: por que não utilizá-la nas escolas?

Muitas escolas australianas, britânicas, americanas e de outros países já vêm fazendo isso e os resultados não são menos surpreendentes. Uma escola que se tornou famosa não somente pela prática de meditação, porém, também, por um conceito de ensino mais holístico, foi a Robert W. Coleman Elementary.

A Fundação HolisticLife oferece nessa escola o programa HolisticMe (Eu Holístico), envolvendo práticas de yoga, meditação, trabalhos comunitários e outras atividades que buscam desenvolver as habilidades já comentadas neste texto, além de maior senso de comunidade, de obrigação e outros aspectos morais do ser humano quase nada trabalhados nas escolas brasileiras, a não ser por imposição vertical de regras e castigos.

A diretora da escola diz que crianças com problemas de raiva conseguiram resolvê-los por meio da meditação. As crianças dizem que hoje conseguem se concentrar e se controlar emocionalmente melhor, que percebem melhor os efeitos das suas ações etc.[8]

É importante notar que a meditação, para ser mais completa, não se resume apenas à prática em si, mas, como acontece na yoga, há também o estudo de sua filosofia, envolvendo a compreensão de aspectos morais necessários para que os seus efeitos sejam maximizados.

Se ensinadas desde muito cedo a filosofia moral e a prática da meditação na fase em que as crianças estão absorvendo e integrando ao seu caráter com muito mais facilidade as informações a sua volta; é possível construir futuros jovens bem mais capacitados a conviverem socialmente e se destacarem individualmente.

A Fundação David Lynch tem um programa chamado “Quiet Time” (Tempo Quieto) que vem ensinando a Transcental Medidation (Meditação Transcendental), um tipo famoso de meditação nos Estados Unidos e já existente no Brasil, a professores e alunos em escolas de Los Angeles, San Francisco, Chicago, Nova Iorque e outras cidades.

Os resultados do trabalho da fundação divulgados em estudos são: redução das suspensões de alunos em 86% (2003), redução do estresse psicológico em 40% (2009) e aumento de 25% nas notas dos alunos (2013)[9].

Não é só no exterior que os resultados da meditação para busca de uma mais ampla consciência já são realidade. Há projetos pelo Brasil, como o da Escola Ananda[10], em Salvador/BA, desenhada para trabalhar desde cedo um ensino que una ciência, filosofia e religião.

O que se apresenta aqui neste breve texto é apenas um grão de areia no deserto de informações positivas existentes sobre meditação ao redor do mundo. Essa é, na verdade, uma prática antiga, que existe há milhares de anos, porém, por motivos já expostos, foi normalmente tratada de um modo folclórico ou religioso.

Com os resultados práticos comprovados pela ciência, não há mais como dar as costas à meditação. É preciso que sua prática invada as escolas, empresas, lares, academias etc. do Brasil, para que seja possível construir uma sociedade mais empática, equilibrada, menos estressada, mais capaz de lidar com dificuldades, dentre tantos outros efeitos positivos apontados pelos estudos.

Parece inegável que a prática longa de meditação pelo máximo de pessoas de uma comunidade pode levar a mais paz e cooperação, a menos conflito, o que resultará, inevitavelmente, em uma sociedade mais eficiente e justa, gerando uma economia muito mais desenvolvida e sustentável.

Esqueçam os remédios, as pulseiras e outros engodos vendidos por aí. O melhor meio de se tornar mais inteligente é estudando e meditando, e não custa nada. Essa será logo descoberta como a “droga” deste século, a primeira a resolver, de fato, boa parte dos problemas humanos.

 

*Agradeço ao amigo Daniel Almeida Filho, doutorando em Neurociência e pesquisador do Instituto do Cérebro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, pelo fornecimento de informações sobre o tema e pelos comentários sobre o texto.

 

[1] O gráfico foi desenhado com base em dados do Pubmed: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/

[2] http://www.thenewsminute.com/article/harvard-study-finds-yoga-and-meditation-reduces-healthcare-cost-43-36026

[3] https://rc.partners.org/about/who-we-are-risc/research-patient-data-registry

[4] https://nccih.nih.gov/health/meditation/overview.htm

[5] https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC1361002/

[6] http://www.washingtontimes.com/news/2012/dec/5/marines-expanding-use-of-meditation-training/

[7] https://www.psychologytoday.com/blog/mindfulness-in-frantic-world/201207/meditate-just-the-us-marines

[8] http://hlfinc.org/programs-services/after-school-programs/

[9] https://www.youtube.com/watch?v=NwMZQj1zciA

[10] http://www.aratuonline.com.br/videos/criancas-sao-apresentadas-e-conhecem-os-beneficios-da-meditacao/#


Sobre Marcos de Aguiar Villas-Bôas

Teórico e prático das políticas públicas. Pesquisador pós-doutoral independente em diversas universidades estrangeiras. Doutor em Direito pela PUC/SP.

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