Desde o lançamento da GEFI (Iniciativa Global Educação em Primeiro Lugar, em português) a UNESCO promove a educação para a cidadania global (ECG). Essa iniciativa do secretário-geral das Nações Unidas, em 2012, estabeleceu a promoção da cidadania global como uma de suas três prioridades na área de educação. Mas para pensar numa educação com foco em cidadania em termos globais é necessário, primeiro, pensar o próprio conceito de cidadania.

O conceito de cidadania tem evoluído ao longo do tempo. Historicamente, a cidadania não se estendia a todos – por exemplo, apenas homens ou quem possuía propriedades podiam ser cidadãos. Durante o século passado, passou-se gradualmente a uma compreensão mais abrangente da cidadania, sob a influência do desenvolvimento dos direitos civis, políticos e sociais. Atualmente, as noções de cidadania nacional variam de país para país, refletindo, assim, diferenças de contexto político e histórico, entre outros fatores.

Um mundo cada vez mais globalizado levanta questões sobre o que constitui uma cidadania significativa e suas dimensões globais. Embora a noção de cidadania para além do Estado-nação não seja nova, as mudanças no contexto global (como o estabelecimento de convenções e tratados internacionais; o crescimento de organizações, empresas transnacionais e movimentos da sociedade civil e o desenvolvimento de marcos internacionais de direitos humanos) têm implicações importantes para a cidadania global.

Vale ressaltar que existem diferentes abordagens ao conceito de cidadania global, como em que medida ela amplia e complementa a cidadania tradicional, definida em termos de Estado-nação, ou em que medida ela compete com a cidadania tradicional. A cidadania global refere-se ao sentimento de pertencer a uma comunidade mais ampla e a uma humanidade comum. Ela enfatiza a interdependência e a interconexão política, econômica, social e cultural entre os níveis local, nacional e global. O crescente interesse pela cidadania global também direcionou maior atenção à dimensão global da educação para a cidadania, bem como para seu impacto nas políticas, nos currículos, no ensino e na aprendizagem.

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A educação para cidadania global envolve três dimensões conceituais básicas, comuns a suas várias definições e interpretações. Essas dimensões conceituais básicas são baseadas em revisões da literatura, marcos conceituais, abordagens e currículos de ECG. Esses elementos podem formar a base para definir metas, objetivos e competências de ECG, bem como prioridades de avaliação da aprendizagem.

As dimensões conceituais centrais incluem aspectos das três dimensões conceituais ou áreas da aprendizagem em que se baseiam: cognitiva, socioemocional e comportamental. Sendo a dimensão cognitiva aquela referente à aquisição de conhecimento, a compreensão e pensamento crítico sobre questões globais, regionais, nacionais e locais, bem como sobre inter-relações e a interdependência dos diferentes países e populações; a dimensão socioemocional referente ao sentimento de pertencimento a uma humanidade comum, que compartilha valores, responsabilidades, empatia, solidariedade e respeito às diferenças e à diversidade; e, a dimensão comportamental aquela referente à atuação efetiva e responsável, em âmbito local, nacional e global, de acordo com as possibilidades.

A ECG visa a ser um fator de transformação ao desenvolver conhecimentos, habilidades, valores e atitudes que os alunos precisam para contribuir para um mundo mais inclusivo, justo e pacífico. A ECG adota uma abordagem multifacetada e utiliza conceitos e metodologias já aplicadas em outras áreas, incluindo a educação para os direitos humanos, a educação para a paz, a educação para o desenvolvimento sustentável e a educação para o entendimento internacional e visa à consecução de seus objetivos comuns. A ECG aplica uma abordagem de aprendizagem ao longo da vida, que começa na primeira infância e continua em todos os níveis de ensino e na vida adulta. Essa abordagem requer metodologias formais e informais, intervenções curriculares e extracurriculares e mecanismos de participação convencionais e não convencionais.A ECG visa a permitir aos alunos:

  • entender as estruturas de governança, os direitos e as responsabilidades internacionais, questões globais e relações entre sistemas e processos globais, nacionais e locais;  reconhecer e apreciar as diferenças e identidades múltiplas, por exemplo, em termos de cultura, língua, religião, gênero e nossa humanidade comum, além de desenvolver habilidades para viver em um mundo com cada vez mais diversidade;  
  • desenvolver e aplicar as competências cidadãs fundamentais, como investigação crítica, tecnologia da informação, alfabetização midiática, pensamento crítico, tomada de decisão, resolução de problemas, construção da paz e responsabilidade pessoal e social;
  • reconhecer e analisar crenças e valores e como eles influenciam as decisões políticas e sociais, as percepções sobre a justiça social e o engajamento cívico;  
  • desenvolver atitudes de interesse e empatia pelos outros e pelo meio ambiente, além de respeito pela diversidade;
  • adquirir valores de equidade e justiça social, assim como habilidades para analisar criticamente as desigualdades com base em gênero, status socioeconômico, cultura, religião, idade e outros fatores;
  • participar e contribuir para questões globais contemporâneas em âmbito local, nacional e global, como cidadãos globais informados, engajados, responsáveis e responsivos.

A ECG pode contribuir significativamente para agendas internacionais urgentes como a igualdade de gênero, pois se baseia em direitos humanos, e a igualdade de gênero é um direito humano fundamental. Meninas e meninos aprendem tanto em casa quanto na escola atitudes relacionadas a gênero, papéis, expectativas e comportamentos. A ECG pode apoiar a igualdade de gênero por meio da promoção de conhecimentos, habilidades, valores e atitudes que promovam a igualdade de valor entre homens e mulheres, gerem respeito e permitam aos jovens questionar criticamente os papéis e as expectativas associadas a gênero que são prejudiciais ou incentivam a discriminação e os estereótipos.

Para aprender mais sobre ECG e colocá-la em prática, a UNESCO produziu um guia pedagógico sobre o tema, “Educação para a cidadania global: tópicos e objetivos de aprendizagem”. Foi elaborado em resposta às necessidades dos Estados-membros da UNESCO de uma orientação geral para integrar a educação para a cidadania global em seus sistemas de ensino. São apresentadas sugestões para traduzir os conceitos de educação para a cidadania global em tópicos e objetivos de aprendizagem práticos e específicos para cada idade, de forma a permitir a adaptação aos contextos locais. Este documento foi elaborado com a intenção de oferecer recursos a educadores, desenvolvedores de currículo, formadores, bem como formuladores de políticas, mas também será útil para outros atores da área de educação que trabalham em contextos não formais e informais. É um material riquíssimo para fortalecer qualquer programa educacional.

 

Referência:

http://unesdoc.unesco.org/images/0024/002448/244826POR.pdf


Sobre Lucio Flávio

24 anos, natural de Aquidauana, Mato Grosso do Sul. Atualmente reside em Niterói, Rio de Janeiro. Graduando em Psicologia pela Universidade Federal Fluminense. É estagiário do Instituto Fluminense de Saúde Mental. Busca aprender o quanto pode dos diversos aspectos do curso que faz para aperfeiçoar sua formação e produzir conhecimento de qualidade. Pretende seguir a carreira acadêmica por acreditar nela como impactante para as mudanças sociais. Toda quinta, um pedaço dos seus pensamentos é publicado no blog do Mapa e está interessado em saber o que esses pedaços produzirão em você. para contato, e-mail: luciofsg@gmail.com

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