Postado por Tabata Amaral de Pontes | Em 14 de março de 2017 | Tags: ,

O discurso do Presidente Michel Temer no Dia Internacional da Mulher mostrou que sua maneira de ver o mundo não seguiu os avanços da sociedade. Como se sua alienação não bastasse, o Presidente contribuiu para a cultura perversa que prega que o papel da mulher é somente em casa e cuidando dos filhos. Mesmo representando o Brasil, ele esqueceu de olhar ao redor e ver que a mulher brasileira já ocupa diversos espaços socialmente importantes . “Se a sociedade de alguma maneira vai bem”, é porque as mulheres também contribuem para o desenvolvimento da ciência, do empreendorismo e da política, citando apenas alguns exemplos.

 

Ao nos calarmos diante de posturas como essa, não apenas aceitamos e encorajamos atitudes machistas pelo Brasil afora como também dizemos às nossas meninas que elas só são boas o suficiente para serem esposas, mães e donas de casa. Que matemática não é para elas. Que elas devem deixar de lado sonhos como o de ser engenheira ou pesquisadora. Abrimos mão do talento de metade da nossa população e matamos o sonho de milhões de pessoas. Quando grande parte da nossa sociedade e, sobretudo o nosso Presidente,  ainda tentam restringir o tipo e o tamanho dos sonhos das mulheres, só me resta continuar lutando pela educação das nossas crianças e jovens. Pela educação das nossas meninas para que elas acreditem em seus potenciais. Pela educação dos nossos meninos para que eles aprendam a questionar estereótipos e a respeitar as mulheres. Discursos como o de Temer só mostram porque precisamos urgentemente de uma educação de qualidade para todos: só a educação empodera e permite que toda e cada pessoa possa sonhar e realizar o que quiser. Ela faz com que novas gerações sejam melhores do que as passadas. Ao contrário do que disse o Presidente, que afirmou que a formação dos filhos em casa “quem faz não é o homem, é a mulher”, acredito que a educação das nossas crianças é uma responsabilidade de todos, homens e mulheres, já que elas representam o futuro do nosso país.

 

Algumas pessoas justificaram o posicionamento do Presidente Temer apontando para uma suposta questão de geração, ao afirmarem que sua posição é compreensível e portanto aceitável, quando não é. Ao permitir que falas como essas sejam normais e banalizadas, estamos justamente garantindo que atitudes machistas e preconceituosas nunca fiquem no passado. Se as pessoas que defenderam o Presidente Temer acham que tal posicionamento é realmente só uma questão de geração, acho que concordariam comigo que, então, está na hora da nova geração se apropriar e dar um novo significado à nossa política.

 

Confira o site abaixo para ver mais ilustrações sobre “coisas de mulher”:

http://qga.com.br/comportamento/mulher/2015/11/coisa-de-mulher-e

 

Questão de geração

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


Sobre Tabata Amaral de Pontes

Tábata Amaral de Pontes, 23 anos, residente em São Paulo (SP), formada em Ciências Políticas e Astrofísica (Harvard College). Se graduou magna cum laude com honras máximas e sua tese intitulada "A política das reformas educacionais em municípios brasileiros" recebeu o Prêmio Kenneth Maxwell em estudos brasileiros e o Prêmio Eric Firth para o melhor ensaio sobre o tema de ideais democráticos. Vindo da periferia de São Paulo, estudou em uma escola privada com bolsa integral e representou o Brasil em cinco olimpíadas internacionais de ciências. Tábata é o co-fundadora do Projeto VOA! e co-fundadora e gestora do Movimento Mapa Educação.

Postado por Tabata Amaral de Pontes | Em 4 de novembro de 2015 | Tags: , , ,

Fomos treinadas para calar. Para não ver e fingir que está tudo bem. Mas às vezes o treinamento falha, eu vejo e não está tudo bem.

Durante o ensino fundamental, descobri minha paixão por ciências por meio das olimpíadas. Me diziam que isso não era “coisa de menina”, mas eu não entendia por quê. Até que certo dia um companheiro de classe se levanta e diz que eu deveria ser um menino disfarçado de menina. Porque uma menina nunca seria boa em ciências. Ele continuou e foi dizendo que eu nunca me casaria, que eu seria triste e que aquele não era o meu lugar… As lágrimas foram descendo pelo meu rosto e eu queria abrir um buraco no chão e me esconder. Mas foi nesse dia que eu comecei a entender porque eu era a única menina representando o Brasil nas competições das quais participei e comecei a ver e entender muitas coisas para as quais eu havia estado cega até então.

Eu comecei a me perguntar porque eu não podia andar sozinha na rua, porque dois homens tinham me perseguido de carro quando eu voltava da casa de uma amiga durante o ensino médio, porque muitos homens haviam feito comentários obscenos em uma reportagem sobre minha participação em olimpíadas, porque me diziam para não usar roupas muito bonitas para não parecer que “eu estava pedindo”…

Nas salas de aula e nas ruas, algumas vozes despertaram, e já não vamos nos calar. Já não fico calada quando me dizem que não posso ter família e profissão, que não posso ser feminina e forte, que se eu me arrumo é porque quero provocar…

No entanto, muitas vezes eu tenho medo, porque há muitas desigualdades e injustiças para as quais ainda sou cega e das quais talvez eu seja coadjuvante. E nesses momentos o que me resta é a esperança nas crianças que estão sendo educadas agora, de que elas verão mais do que eu, de que elas não vão ignorar as desigualdades e injustiças que nos rodeiam e que, acima de tudo, que elas nunca se calarão.


Sobre Tabata Amaral de Pontes

Tábata Amaral de Pontes, 23 anos, residente em São Paulo (SP), formada em Ciências Políticas e Astrofísica (Harvard College). Se graduou magna cum laude com honras máximas e sua tese intitulada "A política das reformas educacionais em municípios brasileiros" recebeu o Prêmio Kenneth Maxwell em estudos brasileiros e o Prêmio Eric Firth para o melhor ensaio sobre o tema de ideais democráticos. Vindo da periferia de São Paulo, estudou em uma escola privada com bolsa integral e representou o Brasil em cinco olimpíadas internacionais de ciências. Tábata é o co-fundadora do Projeto VOA! e co-fundadora e gestora do Movimento Mapa Educação.