Postado por Marcos de Aguiar Villas-Bôas | Em 24 de janeiro de 2017 |

Mais importante ainda do que a disciplina é o método de ensino que foca na atitude filosófica prático-reflexiva.

 

A disciplina filosofia se tornou obrigatória no ensino médio em 2006 no Brasil. Em 2016, a Medida Provisória de reforma do ensino médio apresentada pelo Governo Temer pretendia tornar optativa a filosofia e a sociologia no currículo do ensino médio. Com uma emenda na Câmara dos Deputados, decidiu-se incluí-las novamente, porém a título de “estudos e práticas”, o que retira a necessidade de oferecer disciplinas específicas nas escolas.

Elas não são, de fato, imprescindíveis, mas, se fossem bem pensadas, poderiam ser ótimas ferramentas no crescimento cognitivo, reflexivo, argumentativo e moral dos alunos.

Essa discussão precisa tomar o seguinte caminho. É importante que alunos estudem filosofia e sociologia enquanto disciplinas singulares, para que possam sistematizar autores, entender a evolução dos pensamentos filosóficos e sociológicos etc. No entanto, se elas forem ensinadas como comumente acontece no Brasil, acrescentarão muito pouco.

O ensino em monólogo, no qual são apresentados autores, ideias soltas, classificações e outros conhecimentos de forma redutiva, com pouca contraposição de ideias e participação dos alunos, torna a filosofia e a sociologia disciplinas maçantes, pouco instigantes, e que não cumprem suas importantes funções.

Essas disciplinas, como todas as demais, devem focar num ensino histórico, analítico, estimulador da reflexão, confrontador de posições dentro de um ambiente cooperativo e participativo. Se as disciplinas filosofia e sociologia não constarem no currículo, mas discussões filosóficas e sociológicas de caráter prático acontecerem dentro do ensino das demais disciplinas, já seria um grande avanço.

O grande mérito de disciplinas como filosofia e sociologia é que elas abrem espaço para uma forma de ensino que prepara melhor os indivíduos para atuarem como seres sociais intelectualmente profundos, socialmente adaptáveis e moralmente cooperativos. A chave da boa educação está, portanto, até mais no “como ensinar” do que no “o que ensinar”.

Diversos estudos científicos realizados nos últimos anos provam que a prática filosófica (ensino prático-reflexivo) nas escolas leva os alunos a um melhor rendimento.

Circulou recentemente nas redes sociais um estudo realizado com 3.000 crianças[1] em 48 escolas primárias de toda a Inglaterra. Parte das crianças recebeu um curso de filosofia prática, ou seja, discutiam, com base em problemas do dia a dia, temas como conhecimento, verdade e justiça, e não apenas falavam de autores e teorias em caráter abstrato, como acontece, em regra, no ensino filosófico brasileiro. Eram debatidos por elas questões como: “Um coração saudável deveria ser doado a uma pessoa que não se cuidou ao longo da vida?” e “É aceitável privar alguém da sua liberdade?”.

O resultado claro e consistente foi que as crianças participantes das aulas de filosofia prática ganharam dois meses à frente das demais em termos de avanço em matemática e em habilidades de leitura, e isso num estudo de curto prazo.

O objetivo do programa era, na verdade, aumentar a confiança dos alunos ao perguntarem e construírem argumentos, mas os ganhos acadêmicos foram surpreendentes.

Os professores reportaram ainda que aquela foi uma oportunidade de aprofundar o relacionamento com os alunos e entre os alunos, tratando de temas delicados e que remetem a perspectivas muito pessoais e emocionais. Ademais, foi possível desenvolver uma maior cultura de pensar, ouvir, falar, e tudo isso usando argumentos lógicos.

O programa Philosophy for ChildrenP4C (Filosofia para Crianças) foi desenvolvido primeiramente em 1970 nos Estados Unidos por Matthew Lipman. Mais tarde, foi criado o Institute for Advancement of Philosophy for ChildrenIAPC (Instituto para Avanço da Filosofia para Crianças), que realizou diversos estudos pautados no ensino filosófico prático a grupos controlados de crianças.

Em 1980, o instituto estudou o progresso de 40 alunos em duas escolas de New Jersey. Eles foram divididos em 2 grupos, sendo que o grupo de tratamento teve ensino de Filosofia para Crianças ao longo de 9 semanas, enquanto que o grupo de control teve um ensino mais tradicional de estudos sociais.

O estudo reportou ganhos significativos em raciocínio lógico e leitura, o que foi medido pelo California Test of Mental Maturity – CTMM (Teste de Maturidade Mental da Califórnia). O avanço nas habilidades de leitura do grupo que teve ensino filosófico prático em relação ao outro foi medida logo após o curso e 2 anos e meio depois.

Isso não quer dizer que estudos sociais não sejam importantes, mas que o ensino de caráter filosófico, no sentido de uma prática de reflexão e argumentação, estimula partes do cérebro que, em suma, deixam os indivíduos mais capazes de questionar, refletir e argumentar. Há aumento da inteligência.

Estudo semelhante[2] aconteceu em 2004 com 105 estudantes experimentais e 72 estudantes no grupo de controle. Os pesquisadores novamente reportaram avanços consideráveis em leitura e pensamento crítico.

Devido à quantidade de estudos produzidos em tempos distintos e com métodos diferentes, uma iniciativa em Clackmannanshire, na Escócia[3], procurou sistematizar esses estudos e revisá-los cuidadosamente para checar os resultados da Filosofia para Crianças. As conclusões foram que, com um custo baixo, usando uma aula na semana, obtém-se ganhos cognitivos sustentáveis, desenvolvimento de habilidades críticas, de diálogo, sociais e emocionais.

Autores renomados, como Jean Piaget, pensavam que alunos mais novos, com idade até 11 ou 12 anos, não poderiam desenvolver pensamento crítico, mas os estudos com ensino filosófico prático provaram que isso era possível mesmo no ensino primário, em alunos a partir de 5 ou 6 anos.

A boa reflexão filosófica, aquela que não se prende a paradigmas, a dogmas, e que estimula o ser humano a pensar pragmaticamente as instituições sociais de forma a reconstruí-las para o bem de todos, não precisa ser abstrata, vaga, podendo ser digerida até mesmo por crianças em tenra idade.

Por último, como os estudos anteriores fizerem medições em curto prazo, vale olhar para um longitudinal, de longo prazo (10 anos), realizado na Espanha com mais de 700 crianças. Houve três medições: 1) 2o ano do fundamental; 2) 6o ano do fundamental; 3) 2o ano do médio. O principal resultado foi o aumento médio de 7 pontos de QI naqueles que estudaram filosofia prática.

Esses e outros estudos comprovam que a discussão sobre ensino filosófico no Brasil está séculos atrasada. Boa parte do sucesso da educação dos países desenvolvidos se deve a métodos muito mais práticos e reflexivos.

O pragmatista americano, John Dewey, destacou-se ao defender a importância de se ensinar a pensar de forma inteligente nas escolas, e não apenas lançar um monte de conhecimento sobre os alunos. Apenas dessa forma, segundo ele, ensinando como reconstruir a experiência e, portanto, as instituições, seria possível os homens terem o controle das suas vidas, e isso aprofundaria a democracia.

Para esse aprofundamento, seria preciso também criar um senso de comunidade por meio de um ensino moralizante, outro resultado que pode decorrer da prática filosófica. No curso Justice – Qual a coisa certa a fazer?[4], do professor americano de Harvard, Michael Sandel, os alunos podem refletir sobre diversas questões intricadas da vida humana que remetem a decisões sobre justiça e assuntos correlatos, sobre o que está ou não dentro da moral, instigando a construção de sensos morais mais comunitários.

Uma das principais formas de obter esse ensino do pensamento democrático defendido por Dewey seria exatamente a filosofia prática, uma reflexão constante, aberta, receptiva, cooperativa e profunda sobre os problemas, especialmente os mais graves, da vida humana.

Quando se fala em filosofia, o termo remete mais imediatamente a três conceitos: a) ideologia, visão sobre algo, b) disciplina, parte do currículo educacional, e c) questionamento, reflexão, atitude filosófica. A boa educação deve, sobretudo, usar “c” para discutir “a” frente aos problemas da vida humana, sendo o uso de “b” algo bastante útil e positivo.

Para efeito de políticas públicas, as escolas deveriam buscar ter disciplinas de filosofia e sociologia, mas, sobretudo, transformar boa parte de todas as disciplinas em discussões filosóficas e sociológicas sobre os seus temas. Para tanto, é preciso capacitar todos os professores a ensinarem com base em um método focado na atitude prático-reflexiva.

 

[1] https://educationendowmentfoundation.org.uk/our-work/projects/philosophy-for-children

[2] http://www.ep.liu.se/ecp/021/vol1/026/ecp2107026.pdf

[3] http://www.tandfonline.com/doi/abs/10.1080/0267152042000248016?journalCode=rred20

[4]https://www.youtube.com/watch?v=wDc2KZzRWD8&index=1&list=PLEN09sOf6M1NXe94zC4yggvhi5XYBcALx


Sobre Marcos de Aguiar Villas-Bôas

Teórico e prático das políticas públicas. Pesquisador pós-doutoral independente em diversas universidades estrangeiras. Doutor em Direito pela PUC/SP.

Postado por Maria Regadas | Em 17 de maio de 2016 |

 

 

No final de 2015, a Câmara dos Deputados aprovou, em primeiro turno, o texto-base da proposta de emenda à Constituição que permite que as universidades públicas cobrem mensalidade para cursos de extensão e pós-graduação lato sensu. Com a votação em segundo turno que se aproxima, a polêmica PEC vem ganhando mais visibilidade entre professores, alunos e especialistas: afinal, alterar o artigo 206 da Constituição Federal seria apenas regulamentar uma situação pré-existente ou representaria um passo na direção da privatização do sistema público de ensino no Brasil?

 

O texto-base da PEC 395/14 propunha que apenas os cursos de extensão e pós-graduação lato sensu fossem afetados pela nova medida. Dessa forma, todas as outras esferas de ensino continuariam integralmente gratuitas na rede pública: do ensino fundamental à graduação, além dos cursos de pós-graduação stricto sensu (mestrado, doutorado e pós-doutorado). Para aqueles que defendem a proposta, a emenda apenas regulamentaria uma situação que já é recorrente em universidades federais, mas que, segundo o texto atual da Constituição, não poderia existir pelo fato do princípio da gratuidade do ensino público nos estabelecimentos oficiais estar previsto pela lei maior. Outro argumento frequentemente usado é o de que, sem tal cobrança, algumas universidades ficariam impossibilitadas de oferecer certos cursos ou com menos verba para reinvestir em si própria, representando uma perda não só para a instituição, mas também para a sociedade como um todo – desde os estudantes até o mercado de trabalho. No contexto da crise atual, a situação das universidades públicas vem se tornando cada vez mais crítica, já que os altos cortes de custos com Educação que vêm sendo anunciados pelo Governo Federal desde o final do ano passado tornaram as instituições ainda mais dependentes da verba das mensalidades cobradas.

 

A polêmica emenda reascendeu uma discussão antiga e muito mais ampla que concerne a privatização do ensino público. Apesar de não ser unanimidade entre aqueles que defendem a PEC 395, esse tópico é recorrente quando se trata da alteração do artigo 206 da Constituição. Para os que acreditam que privatizar o ensino público seja a melhor situação para o fim do sucateamento da educação brasileira, o setor privado compensaria as dificuldades do público em absorver a demanda educativa, o que se tornaria especialmente interessante em contextos de restrição orçamentária. Além disso, tal mudança supriria a necessidade de dinamizar o funcionamento das instituições educativas, já que é extensa a convicção de que o ensino privado permite aos pais exercer o direito à educação de seus filhos. Faz-se necessário afirmar que o maior interesse privado na educação se justifica pela revalorização do conhecimento como fator de produção, entendendo a educação como investimento na formação de profissionais mais qualificados que trarão retornos positivos ao mercado a longo prazo.- é o que mostram iniciativas bem sucedidas em parcerias público-privadas (PPPs) espalhadas pelo Brasil e pelo mundo. É o caso de países como Inglaterra, Portugal e Irlanda onde 80% dos usuários de serviços entregues nestes países por meio de PPPs estão sempre ou quase sempre satisfeitos, 76% desses projetos foram entregues em tempo e/ou antecipados e 78% dos projetos permaneceram nos limites do orçamento público.

 

Entretanto, a privatização do ensino em qualquer esfera não é uninamidade no Brasil e tal fato é, portanto, uma grande fonte de críticas à PEC 395 já que, para muitos daqueles que são contrários à sua implementação, a emenda constitucional seria um passo nessa direção. Além disso, a imposição de mensalidade para cursos da rede pública restringiria o acesso à educação de qualidade de forma igualitária e plural, afetando especialmente os cidadãos de classes sociais mais baixas. Mesmo dentro da comunidade acadêmica não há consenso quanto à questão: na época da primeira votação, a Associação Nacional de Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) afirmou que a medida significaria o fim de um dos pilares da nação: a gratuidade da educação pública.

 

Apesar de existirem exemplos positivos de iniciativas privadas no setor público de educação em outros países, muitos deles decidiram repensar tal modelo depois de um certo período de aplicação. É o caso da Suécia, país onde cerca de 25% dos alunos do Ensino Médio frequentam escolas financiadas com recursos públicos mas admistradas pela iniciativa privada. Após duas décadas de seu experimento de livre mercado na educação, a Suécia viu uma das maiores empresas privada de educação falir, a JB Education. Nesse processo, observou-se que , além de serem acusadas de privilegiar o lucro em detrimento da educação, com práticas como deixar alunos decidirem quando aprenderam o suficiente para passar e não manter registro de notas.

 

Independente da aprovação ou não da PEC 395, é imprescindível que haja uma discussão mais profunda sobre as causas do sucateamento da educação brasileira e a adoção de medidas objetivas, bem orientadas e seguindo um plano coerente e consistente que visaria a melhoria da qualidade do ensino no Brasil em todas as suas esferas em diferentes passos de tempo: a curto, médio e a longo prazo. É preciso não só repensar o modelo de gestão das escolas e universidades e o fornecimento de recursos para sua manutenção e crescimento, mas também a realocação da quantidade enorme de capital destinada anualmente para o setor educacional. Só assim a cobrança de mensalidades para cursos específicos de pós-graduação se tornará menos relevante, já que todos os brasileiros teriam vastas opções de qualidade para se aperfeiçoarem profissional e academicamente – desde que o Estado lhes forneçam todas as ferramentas para tal, como assegura a Constituição Federal Brasileira.

 

 

 

 

 

 

 

Fontes:

 

  1. http://ftimaburegio.jusbrasil.com.br/noticias/192054035/privatizacao-do-ensino-publico-no-brasil-uma-boa-pedida

 

  1. http://outraspalavras.net/outrasmidias/destaque-outras-midias/por-que-a-suecia-esta-revendo-a-privatizacao-do-ensino/

 


Sobre Maria Regadas

21 anos, é gerente da Diretoria de Conteúdo do Mapa e estudante de Engenharia Mecânica da PUC-Rio e do INSA de Lyon em um programa de duplo diploma. Atual fellow da Fundação Estudar, é apaixonada por viagens, séries de TV e gosta de acreditar que um dia levará a corrida a sério.

Páginas12345... 16»